terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Treinador Europeu x Treinador Brasileiro:


Entendendo as diferenças
Formas de trabalho e mentalidade talvez expliquem a razão pela quais técnicos são tão diferentes.

Nicolau Trevisani Frota
Ser treinador de futebol no Brasil e na Europa. Um sonho que, apesar de muito comum entre os profissionais nativos (eu me incluo neste grupo), é muito difícil de realizar. Mas por que um país que possui tanta facilidade para expandir atletas para o exterior tem tanta dificuldade para fazer o mesmo com seus treinadores para a Europa e recebê-los aqui?
Ao contrário de muitos, não acho que a resposta desta pergunta esteja na falta de qualidade dos brasileiros ou somente na língua. Acredito que a língua pode até ser um fator, mas as grandes dificuldades deste intercâmbio estão na mentalidade e nas formas de trabalho dos dois ambientes.
No Brasil, o treinador é uma figura muito instável dentro do cenário do futebol. Em um esporte ainda “pouco evoluído” (embora esteja melhorando) em questões administrativas, o técnico é contratado “apenas “para cuidar do time e, logo em suas primeiras derrotas, é dispensado, ficando desempregado, o que geralmente cria uma alta pressão por resultados e impede o profissional de deixar um legado ao seu clube.
Em contrapartida, quando ocorre o resultado positivo aqui, o treinador é bem mais valorizado do que no Velho Continente.
Na Europa, nos trabalhos de alto nível, o treinador é encarado como uma figura mais importante e em geral é escolhido de acordo com o projeto do clube, o que gera maior estabilidade para trabalhar, e mais condições para realizar um trabalho e deixar sua marca no clube.
No exterior, existe uma maior preocupação com categorias de base, e na maioria dos casos o treinador do profissional é diferentemente do Brasil: ele é o grande responsável por fazer a integração de atletas com o departamento profissional.
Esta integração ocorre com uma filosofia de trabalho a ser seguida por ambos, que é definida pelo treinador do time principal.
Não estou querendo dizer que é melhor trabalhar em um ou outro, mas apenas mostrar as diferenças entre ambos – o que, para mim, é o que dificulta este intercâmbio.

Bebidas Energéticas não são recomendadas durante a atividade física.


A quantidade de açúcar que as bebidas energéticas oferecem ao organismo é excessiva e podem causar dor no estômago. Por serem carbonatadas, não hidratam o organismo.

Verão é a época do sol, do namoro, das badalações e agitos. É nesta estação de intenso calor que médicos e especialistas chamam a atenção para o consumo excessivo de bebidas, principalmente àquelas misturadas com energéticos.
Segundo o médico cardiologista André Fontes Dias, jovens e adolescentes, costumam procurar ter mais energia para participar da maratona de festas e terminam abusando das bebidas energéticas, o que é perigoso para a saúde, alerta o médico.
Segundo ele, a fórmula de composição desse tipo de bebida contém grande quantidade de componentes que excitam o coração e podem aumentar os batimentos cardíacos.
Geralmente, a fórmula de uma bebida energética é composta de cafeína, ginseng, vitamina B, açúcar e outras ervas. De acordo com o médico, essa composição pode causar problemas cardíaco a longo prazo, fazendo com que o coração trabalhe acima de sua capacidade. Além de prejudicar o coração, os energéticos também podem causar vários problemas como contração muscular, distúrbios do sono e até estresse.
Misturada com o álcool, a bebida causa ainda mais danos. Bebidas energéticas não são recomendadas durante a atividade física. A quantidade de açúcar que elas oferecem ao organismo é excessiva e podem causar dor no estômago. Por serem carbonatadas, não hidratam o organismo, explicou o cardiologista.
Disparo do consumo
Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (Abir), o consumo de bebidas energéticas disparou no Brasil nos últimos anos, com um crescimento de 25% só de 2010 para 2011. Se a mistura da bebida com o álcool nas baladas já preocupava os médicos, agora o problema está na associação do produto a estilos de vida saudável.
“Quem abusa desses compostos em busca de pique extra para agüentar uma agenda cheia demais pode colocar a saúde em risco, alerta o médico André Fontes Dias.
Já o médico Fábio de Brito, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) vai mais além e diz que os energéticos são perigosos para a saúde. O energético misturado a um simples comprimido de paracetamol para a dor de cabeça, pode levar a óbito repentino por insuficiência hepática.
E se misturado com outras bebidas alcoólicas tem efeito devastador no organismo atacando vários órgãos vitais como os rins, por exemplo, alerta o especialista. Segundo ele, essa preocupação com o efeito dos energéticos atinge os cardiologistas do mundo inteiro, porque a bebida é também contraindicada para vários grupos populacionais, sob o risco de ocorrências cardiovasculares, gastrite, desidratação e dependência.
O professor de Educação Física, Eduardo Ferreira, em seu doutorado, estudou os efeitos do álcool com energéticos em camundongos.
“Enquanto os camundongos que receberam só álcool ficavam prostrados, os que receberam a combinação ficavam hiperexcitados. “Isso nos leva a crer que o sujeito pode ficar embriagado, mas achando que está bem.
A excitação leva a um erro de julgamento”, diz. Combinar álcool com energéticos se mostrou uma prática comum entre os jovens brasileiros. Em um levantamento feito pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) foi constatado que 74,3% dos 18 mil estudantes ouvidos já experimentaram a mistura.

Portanto, diz Eduardo Ferreira, cuide-se na ingestão dessas bebidas perigosas ao organismo, tome com moderação e, principalmente, sem misturas doidas que podem te levar a morte ou a seqüelas ao resto da vida. Divirta-se divertindo e não se matando!!! 

Alimentação e Exercícios sozinhos não explicam onda de obesidade.


Diário da Saúde
O que vem primeiro?
O estresse pode fazer você engordar.
E ser obeso pode ser um fator criador de estresse.
Brynjar Foss e Sindre Dyrstad, da Universidade de Stavanger, na Noruega, apresentaram uma nova teoria para tentar elucidar esse "circuito fechado".
Segundo os dois, a alimentação e a falta de exercícios não são suficientes para explicar a atual onda de obesidade no mundo.
Comida e sedentarismo
Ingerir uma maior quantidade de comida rica em gordura, sal e açúcar, combinado com pouca atividade física, têm sido apontadas pela Organização Mundial da Saúde como as causas principais da obesidade.
É por isso que os médicos prescrevem dietas para emagrecer e exercícios físicos.
A mídia faz o restante, afirmam os pesquisadores, divulgando as academias, as dietas e estilos de vida mais saudáveis - tudo em termos de alimentação e exercícios.
Eles questionam essa abordagem desde o início, perguntando-se se a obesidade é mesmo uma consequência, ou se seria causa de algo - ou, eventualmente, as duas coisas.
Engordar por estresse
Os pesquisadores revisaram uma série de estudos, que mostram que o ganho de peso e os níveis de cortisol - o chamado hormônio do estresse - são incrivelmente mais elevados em pessoas que engordam por causa do estresse.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Qual é a Regulamentação para atuar como Treinador de Futebol no Brasil?


Universidade do Futebol esclarece disputa entre entidades que representam as categorias dos treinadores e dos professores de Educação Física.



A regulamentação da profissão de treinador de futebol no Brasil vem sendo debatida há muitos anos. No centro deste debate estão, de um lado, as entidades que representam os profissionais de Educação Física, em especial CONFEF (Conselho Federal de Educação Física e CREF’s (Conselhos Regionais de Educação Física) e de outras instituições sindicais representativas dos treinadores que não são certificados pelas Escolas de Educação Física, geralmente liderados por ex-atletas que pleiteiam ou já exercem a função de treinadores em clubes ou outras instituições futebolísticas.

Nesta quebra de braços, a vantagem muitas vezes parece ficar com as instituições mais organizadas e estruturadas que representam os profissionais formados em Educação Física. Porém a briga ainda está longe de encontrar um vencedor, apesar dos argumentos de ambos os lados. Recentemente, por exemplo, o SITREFESP (Sindicato dos Treinadores de Futebol do Estado de São Paulo) deu um golpe na instituição que representa os graduados em Educação Física, o CREF4/SP (Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região), como veremos nesta matéria.

A partir do Decreto-Lei 3.199 de 1.941, reconheceu-se a presença de um profissional qualificado para trabalhar como treinador o indivíduo formado pela Escola de Educação Física e Desporto da Universidade do Rio de Janeiro. Trinta e cinco anos mais tarde, a Lei 6.354 de 1.976 dizia em seu artigo 27: “Todo ex-atleta profissional de futebol que tenha exercido a profissão durante 3 (três) anos consecutivos ou 5 (cinco) anos alternados, será considerado, para efeito de trabalho, monitor de futebol” (Brasil, 1976).

Entretanto, a regulamentação da ocupação de treinador profissional de futebol onde se estabeleceram as mesmas legislações do trabalho e da previdência social, se oficializou pela Lei 8.650 de 1.993, que dizia no seu artigo 3:

O exercício da profissão de Treinador Profissional de Futebol ficará assegurado preferencialmente:

I - aos portadores de diploma expedido por Escolas de Educação Física ou entidades análogas, reconhecidas na forma da lei;

II - aos profissionais que, até a data do início da vigência desta Lei, hajam, comprovadamente, exercido cargos ou funções de treinador de futebol por prazo não inferior a seis meses, como empregado ou autônomo, em clubes ou associações filiadas às Ligas ou Federações, em todo o território nacional”.

Atualmente, a Lei Nº 9.696, de 1º de setembro de 1.998, que regulamenta a profissão de Educação Física, diz no Art. 3º:

“Compete ao Profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto” (Brasil, 1.998).

Há movimentos para se estabelecer uma regulamentação conjunta. A própria CBF, entidade que rege o futebol no Brasil, promove um projeto educacional que pretende, com o apoio de FIFA e Uefa, se tornar o curso oficial que permita o exercício da profissão do treinador de futebol. Mas a situação ainda permanece indefinida.

Por enquanto, o que vale mesmo é a qualificação – ou seja, competência – para determinado profissional desempenhar a função de treinador de futebol. Para isso, basta ele ter o aval da direção do clube, com ou sem chancela do CREF, ou de qualquer outra certificação.

Em 2009, por decisão da Dra. Silvia Melo da Matta, Juíza Federal Substituta, da 8ª Vara Cível da Justiça Federal de São Paulo, foi concedida a antecipação dos efeitos da tutela antecipada que garante aos técnicos e ou treinadores de futebol o livre exercício profissional.

A ação foi movida pelo SITREFESP, presidido por Mário Travaglini, que procurou salvaguardar seus associados com o direito de exercerem livremente o trabalho, sem que houvesse qualquer interferência do CREF4/SP.

Afirma a autora da decisão que a Lei 8.650/93, a qual dispõe especificamente sobre as relações de trabalho do treinador profissional de futebol, está sendo desrespeitada pelo CREF4/SP, pois está previsto em seu artigo 3º que a profissão de treinador profissional de futebol será exercida preferencialmente por portadores de diploma expedido por escolas de Educação Física, e não obrigatoriamente, como quer o CREF4/SP. Há ainda o argumento de que a Lei 8.650/93 é especifica da categoria, não cabendo qualquer tentativa de enquadramento em outra legislação ou normativa.

Além disso, o Conselho Federal de Educação Física – CONFEF e o CREF4/SP – são órgãos de representação, de disciplina, de defesa e fiscalização exclusivamente dos profissionais de Educação Física.

O técnico ou treinador de futebol não precisa estar inscrito no Conselho Federal de Educação Física e nem em Conselhos Regionais de Educação Física. Os clubes de futebol têm em seus quadros profissionais de várias áreas, entre eles médicos, fisioterapeutas, fisiologistas, nutricionistas e preparadores físicos. Estes fazem parte da comissão técnica de uma equipe, mas cada um está sujeito à inscrição nos conselhos que representam suas respectivas categorias profissionais.

A Dra. Sílvia acatou o pedido do advogado Dr. João Guilherme Maffia, que representou o Sindicato dos Treinadores na demanda, antecipando os efeitos da sentença, garantindo assim aos técnicos e ou treinadores de futebol, associados ao SITREFESP, o livre exercício de sua profissão, independentemente de estarem inscritos no Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região de São Paulo.

O fato é que – apesar das acaloradas polêmicas – até o momento não existe no Brasil nenhum curso oficial que “autorize” alguém a ser treinador ou técnico de futebol. A eventual regulamentação que autorizaria o exercício legal da profissão simplesmente não existe. Por isso, o que se vê neste disputado mercado são clubes e instituições futebolísticas contratando os seus profissionais baseados em recomendações, indicações, experiência acumuladas ou então por suas competências específicas, e não preferencialmente a partir de sua certificação em Educação Física.

Enquanto a regulamentação não se efetiva, cabe aos profissionais e pretendentes ao exercício da profissão de treinador, qualificarem-se para bem exercer suas funções, sejam eles professores de Educação Física, ex-jogadores de futebol, ou qualquer outra pessoa que deseje seguir essa carreira.

Nesta direção e também preocupada com o movimento de regulamentação da profissão de treinador, a Universidade do Futebol se destaca ao oferecer cursos on-line e presenciais que objetivam promover a qualificação profissional dos gestores de campo (além do treinador, o assistente técnico, o preparador físico, o treinador de goleiros, o coordenador técnico, etc.), elemento indispensável para o adequado exercício de suas funções. E é sempre bom lembrarmos que qualificação profissional deveria ser pré-requisito para o exercício de qualquer profissão.

Evolução do Futebol Brasileiro: elementos para uma reflexão política


Sem investimentos em capacitação e política mais clara, que defina metas dentro de visão sistêmica e integrada dos fenômenos do esporte, seremos apenas coadjuvantes desse grande espetáculo globalizado.



João Paulo Medina*

Via de regra, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, com mais ou menos importância. Mas o dia 18 de dezembro de 2011 poderia ser considerado um marco, um divisor de águas para o futebol brasileiro. A derrota da equipe do Santos – considerada por muitos, a melhor do Brasil – para o Barcelona por 4 a 0, pela final do Mundial de Clubes, foi uma aula de futebol, como afirmou de forma madura o talentoso e promissor jogador santista Neymar. Contudo, mais do que uma aula, bem que este jogo poderia ser também um ponto de partida para uma verdadeira mudança de paradigma da ainda tradicional e arcaica estrutura do futebol brasileiro.

Costuma-se dizer que o futebol imita a vida, como também se afirma que o vigor da economia de um país define sua saúde em todos os outros aspectos. Há tempos que comemoramos vários e importantes progressos em nossa economia, com reflexos sociais mais diretos na ascensão de milhões de brasileiros que estão saindo da miséria ou da linha da pobreza para níveis de vida mais dignos.

Tais conquistas, entretanto, não podem esconder o enorme atraso que ainda temos em muitos indicadores sociais, culturais, educacionais, bem como esportivos. Ou seja, não podemos nos enganar, pois ainda somos um país pobre em muitos aspectos. E para comprovar isso, basta atentarmos para o nosso nível de educação, em que somente 10% da população economicamente ativa possui um diploma universitário. Isso é muito mais baixo do que se pode encontrar, por exemplo, em países como Rússia, Índia e China, que, como o Brasil, são considerados emergentes.

Sem contar os números de nosso analfabetismo funcional, cujos dados são muito imprecisos, mas que devem chegar próximo à casa dos 50% de nossa população total. O que é trágico e vergonhoso, para dizer o mínimo.

Mas vamos, nesta breve reflexão crítica, apenas tentar entender o cenário em que se assenta o nosso atraso futebolístico atual. E não gostaria que o leitor entendesse minhas considerações como de alguém com visão pessimista que não valoriza o que é nosso e não quer enxergar nosso progresso. Não significa também que tenhamos que reassumir, diante de nações mais desenvolvidas, nosso histórico complexo de “vira-lata”. Não se trata disso, mas sim de entender que, apesar de nossas virtudes e enorme potencial, se não fizermos um correto diagnóstico de nossas mazelas, jamais nos instrumentalizaremos no sentido de superá-las de forma consistente e sustentável.

Nossas lentas, porém evidentes conquistas democráticas, têm nos permitido denunciar, contestar e debater criticamente nossos problemas sociais, talvez como nunca tenhamos conseguido em nossa história enquanto país institucionalizado. Portanto, estamos em um momento adequado para questionarmos alguns dos nossos pressupostos que nos fizeram ser o que somos. E isso vale para o país, como também para o nosso futebol pentacampeão mundial.

Não acredito mais que possamos recuperar todo o nosso atraso nos próximos dois, três ou quatro anos, até que cheguem a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016) a serem realizados no Brasil. Mas é preciso começar de verdade. E o começo começa com consciência. Em se tratando de futebol, enquanto continuarmos em dúvida se ainda somos ou não os melhores do mundo, estaremos perdendo tempo.

E uma das primeiras evidências que temos que enxergar é que nada muda do dia para a noite. Principalmente se estivermos falando de evolução social, cultural e esportiva. Não podemos resumir o desenvolvimento de um país apenas com construção de aeroportos, rodovias, ferrovias e belos estádios de futebol. Isso representa apenas uma parte, pequena – diga-se de passagem – de nosso crescimento. O principal é entender que temos condições objetivas de mudanças e isso nos permitirá tomar consciência de que para termos uma nação forte é preciso muito mais do que simplesmente algumas melhorias em nossa infraestrutura.

Mas para ficarmos apenas no terreno esportivo, cabem aqui algumas questões que teremos que resolver nos próximos anos, se é que ainda temos pretensões de estar entre os grandes do futebol mundial.

Um dos principais aspectos que tem atrapalhado muito nosso progresso nesta área é a visão empírica e superficial que ainda prevalece no futebol. Se ela foi suficiente para nossas conquistas anteriores e para sermos o que somos hoje, fica cada vez mais evidente que sem investimentos na capacitação profissional e em uma política mais clara, que defina metas de médio e longo prazos para o futebol brasileiro dentro de uma visão mais sistêmica e integrada dos fenômenos que compõem este esporte, seremos dentro de algum tempo apenas coadjuvantes dos grandes espetáculos globalizados em que se está transformando o altamente competitivo futebol profissional. Ou não foi este o papel desempenhado pelo Brasil, representado pelo Santos, na partida com o Barcelona?

Para evitarmos que isso se torne rotina é preciso que comecemos a responder algumas perguntas, urgentemente:

• Quando os nossos dirigentes vão se profissionalizar ou pelo menos se atualizar para darem conta das demandas do futebol globalizado deste século XXI, deixando de olhar apenas para o seu entorno mais próximo e cuidando apenas de seus interesses particulares?

• Quando os órgãos de comunicação vão entender o seu papel estratégico nestas mudanças e os jornalistas esportivos se prepararem melhor antes de formular seus elogios e críticas, muitas vezes estéreis e descontextualizados?

• E os treinadores? Será que vão perceber que, dentro deste novo cenário, não basta mais ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um profissional bem sucedido? Quando vão entender que esta função, hoje em dia, além de certas características de personalidade, exige profundos conhecimentos sobre liderança de grupos, tática e estratégia de jogo, metodologia científica de treinamento, cultura geral, “media training”, entre outros requisitos?

• Quando os clubes, através de seus dirigentes, serão capazes de estabelecer uma política clara para seus departamentos de futebol, não só no terreno da gestão, como também no terreno técnico (sim, o dirigente tem que entender o suficiente deste aspecto para poder contratar e acompanhar seus treinadores e funcionários dentro do perfil desejado pela política estabelecida).

• E a formação de nossos jovens atletas? Será que vamos finalmente compreender que é preciso superar urgentemente a visão tecnicista que ainda predomina nas categorias de base e nas escolas de futebol espalhadas pelo Brasil, para adotarmos uma abordagem interdisciplinar formando o atleta integralmente e preparando-os para a vida profissional, pessoal e social?

• E quando as instituições que dirigem o nosso futebol (CBF, Federações, Sindicatos, Associações) serão pressionadas o suficiente para entenderem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro? E o governo, através do Ministério do Esporte, será que não poderia ajudar na formulação de uma política esportiva mais atuante para o país?

Enfim, estes são alguns dos questionamentos que precisam entrar na pauta de todos aqueles que desejam e torcem por um futebol melhor, mesmo que estas providências cheguem tarde demais para podermos disputar de igual para igual a próxima Copa do Mundo.


*João Paulo Medina é Diretor Executivo da Universidade do Futebol

Aposentadoria dos Campos


O difícil processo de transição na vida de um atleta profissional.

Idade, novos interesses, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio e problemas de lesão são razões importantes para a decisão.



Marcelo Iglesias


Um dos pontos cruciais na carreira de um atleta profissional é estabelecer o momento certo para se aposentar. Por ser uma atividade que exige muita dedicação e preparo, são poucos os casos de atletas que conseguem atuar em bom nível até mais do que 30 anos de idade. Por isso, é importante que passem por um processo correto de ajuste nas esferas de vida ocupacional, financeira, social e psicológica, pois esse processo pode ser acompanhado por problemas emocionais.
Atualmente, não são incomuns os exemplos de ex-jogadores que, sabendo da sua condição inapropriada para seguirem dentro de campo, decidem permanecer ligados ao futebol de outra maneira, seja como técnicos, dirigentes, preparadores de goleiros, etc. Outro ramo procurado por alguns é o da política, visto o carisma que certas figuras da modalidade possuem.
Para tornar-se um atleta de elite, no mundo moderno, é necessário ter disciplina para treinar por muitos anos, dedicação quase que exclusiva para o esporte e, em geral, iniciar a carreira em idade muito precoce. Em “O lado mental do futebol”, capítulo do livro "Ciência do Futebol", de autoria da nutricionista Isabel Guerra, doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os autores afirmam que é grande a expectativa dos jogadores de alto nível de se tornarem atletas de sucesso nacional e internacional, já que essa conquista mobiliza a atenção de investimentos financeiros e tem grande espaço na mídia. Nesse contexto, os atletas profissionais ganham como conseqüência, vantagens econômicas, notoriedade e, de fato, prestígio. Para os atletas de alto rendimento, o esporte é a energia que move a vida, é o marco de sua identidade.
Entretanto, após anos de dedicação, por razões diversas, defrontam-se com o processo final de carreira do esporte. É quando a maioria dos jogadores se conscientiza de não ter sido preparado para enfrentar a vida pós-esporte, pois negligenciou esse processo. Dessa forma, a aposentadoria pode gerar uma situação de estresse e de crise de identidade para muitos atletas.
Para a Federação Européia de Psicologia do Esporte e Atividades Corporais (FEPSAC), identidade esportiva deve ser conceituada como a força e a exclusividade em que o esportista identifica a si mesmo com o esporte; essa identificação exclusiva é fortalecida pelo reconhecimento social e sucesso econômico que acompanham os resultados positivos da carreira esportiva. Sendo assim, terminar a carreira esportiva pode se tornar um dos momentos mais difíceis da vida de um atleta, já que a mudança no estilo de vida requer uma adaptação de papéis sociais e profissionais.
A maioria dos atletas não percebe a importância de outras fontes de identificação em outros âmbitos da vida (outra profissão ou atividade), indispensáveis para a manutenção do equilíbrio durante e ao término da carreira. Essa percepção errada da realidade, em muitos casos, é ratificada por técnicos, dirigentes e membros da família. Em “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, Kátia Rubio afirma: “na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais, muitas vezes o atleta se vê identificado com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista, aquele capaz de realizar grandes feitos, dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais”.
A transição de carreira esportiva significa mudança de uma fase da carreira para outra, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta, e da necessidade de recursos para lidar com o momento. De acordo com o que é apresentado em “Career transition and concomitant changes in athletes” (“Transição de carreira e concomitantes mudanças em atletas”, em tradução livre), a carreira esportiva é composta de uma seqüência de sucessivas fases, com períodos de transição, identificadas como: a transição do esporte infantil para o juvenil, seguida da transição para o júnior e, finalmente, para o adulto; a transição do esporte amador para o profissional e a transição para o término da carreira esportiva. Cada uma requer exigências específicas e ajustes nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta e, fundamentalmente, sempre será necessário o esforço pessoal para a adaptação à nova fase.
Dessa forma, a natureza desse ajustamento à aposentadoria, para cada atleta, dependerá da interação de múltiplos fatores. Entretanto, um fator isolado não garante se um ajustamento será fácil e tranqüilo. Somente uma análise da complexa interação entre diversos fatores é que levará à compreensão de como determinado atleta conviverá com o fato de se aposentar.
Um dos pontos que deve ser levado em consideração é que, por vezes, o jogador encerrará a sua carreira de maneira voluntária, mas, em outras ocasiões, isso poderá ocorrer forçadamente. Com isso posto, pode-se citar como algumas das causas das aposentarias de atletas profissionais: a idade, novos interesses emergentes, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio, problemas de contusão ou de saúde, e a ausência do seu nome entre os relacionados para os jogos.
Partindo do fato de que a transição de carreira esportiva é um processo, Jim Taylor e Bruce Ogilvie desenvolveram o “Modelo Conceitual da Transição de Carreira”, que integra, além da informação teórica da Psicologia do Esporte, a investigação empírica. De acordo com os estudiosos, as características da transição incluem: duração, mudanças de posição social, grau de estresse, desafios enfrentados e, fundamentalmente, a percepção de estresse nesse momento.
Determinadas áreas específicas, consideradas moduladoras do ajustamento ao momento da aposentadoria e facilitadoras de adaptação adequada, também podem ser avaliadas: percepção de controle; identidade esportiva; suporte social; experiências anteriores (outras transições); envolvimento com atividades relacionadas com esporte depois da aposentadoria; grau de planejamento profissional; status socioeconômico; habilidades (persistência, competitividade, metas, etc.); objetivos relacionados com esportes; e foco depois da aposentadoria.
Portanto, toda transição de carreira tem o potencial de ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte, em dezembro de 2008, com 79 ex-atletas de futebol e basquete, por meio de entrevistas semi-estruturadas, apontou que 75,9% dos indivíduos avaliados decidiram encerrar a carreira esportiva de forma voluntária. A transição de carreira ocorreu de maneira gradativa e natural, como eles mesmos citaram nas entrevistas. Para a maioria dos ex-atletas (68,4%), esse momento foi oportuno, ou seja, aconteceu na época certa, enquanto que, para 27,9% dos entrevistados, a decisão de parar de competir profissionalmente ocorreu muito cedo e de forma prematura.
Ainda segundo esse estudo, as causas mais freqüentes relacionadas à saída do esporte em ordem decrescente foram: idade (49,4%), surgimento de outros interesses (43,0%), mudanças no estilo de vida (17,7%), problemas de saúde (16,5%), problemas de lesões (15,2%), ausência de perspectivas futuras (13,9%), problemas de relacionamento com dirigentes (13,9%), "declínio dos resultados" (12,7%), cansaço psicológico (11,4%), relacionamento com o técnico (10,1%), cansaço físico (7,6%), relacionamento com a família (7,6%) e relacionamento com a equipe (3,8%).
Em relação às conseqüências emocionais por conta do processo de finalização da carreira esportiva, algumas emoções preponderaram. Em ordem decrescente: 50,6% dos ex-jogadores sentiram tristeza no momento da transição esportiva para uma nova carreira e 36,7 % se sentiram conformados. Além disso, a pesquisa apontou que 17,7% da amostra sentiram felicidade nesse momento, 6,3% se sentiram tensos, 5,1% sentiram medo, 5,1% ficaram deprimidos, 3,8% sentiram raiva, 3,8% ficaram ressentidos, 1,3% sentiram culpa e nenhum dos entrevistados fez referência a sentimentos de desespero.
Por fim, no que tange os aspectos físicos, a pesquisa indicou que, ao encerrar a carreira esportiva, 43% dos entrevistados tiveram a percepção de que a aptidão física piorou. Segundo dados coletados, o peso dos sujeitos aumentou e eles tornaram-se quase que totalmente inativos. A condição física não melhorou para nenhum dos avaliados.
Portanto, deixar a arena esportiva tende a ser um momento difícil da vida de um atleta, pois sempre requer adaptação de papéis sociais e profissionais. Fica claro que essa adaptação torna-se ainda mais difícil quando o atleta tem forte identificação com a figura de esportista. Em geral, apresenta dificuldades psicológicas e vivencia momentos de tristeza, depois de anos de exclusiva dedicação à carreira competitiva. Além disso, nota-se que a idade é um fator limitador da performance e desencadeador da aposentadoria, o que acaba levando a um sentimento de conformismo e, ao mesmo tempo, motivando para outros interesses e objetivos emergentes, tais como o desejo de poder passar mais tempo com a família.
Outro ponto relevante é a piora na saúde física dos ex-atletas e o quanto a diminuição planificada e gradativa da carga física a que foram submetidos durante o período ativo é necessária, ao se pensar na qualidade de vida pós-esporte.
Portanto, seria interessante que, tanto do campo científico, como por meio de uma iniciativa da direção dos clubes de futebol, fossem desenvolvidos programas de aposentadoria que tenham como objetivo principal capacitar atletas em transição de carreira a lidarem melhor com esse momento e, principalmente, utilizar esses programas no início da carreira para minimizar a ansiedade com relação ao futuro.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Iniciação Esportiva em Futebol de Campo e Futsal.

Iniciação Esportiva em Futebol de Campo e Futsal

Diferenças e semelhanças entre as metodologias empregadas para os primeiros passos nessas modalidades.

Luis Felipe T. Polito

O objetivo da breve revisão é estabelecer as principais diferenças existentes no desenvolvimento esportivo de crianças e adolescentes em duas modalidades esportivas amplamente relacionadas, mas que possuem as suas particularidades: o futebol de campo e o futsal.

Primeiramente, seria interessante realizarmos uma breve revisão das principais diferenças e semelhanças entre as modalidades em questão para que, a partir daí, possamos dissertar a respeito das principais metodologias empregadas para a iniciação esportiva em cada uma delas. A primeira grande diferença que podemos notar é relativa ao terreno de jogo e às dimensões do mesmo, uma vez que o futsal apresenta terreno com comprimento e largura máximos de 42m e 22m, respectivamente, enquanto o comprimento e largura mínimos compreendem 22m e a 15m, respectivamente.

Por outro lado, o futebol praticado no gramado exige maior vigor físico de seus atletas, uma vez que as dimensões do terreno são significativamente maiores – o campo possui comprimento e largura máximo de 120m e 90m, respectivamente, e dimensões mínimas de 90m x 45m (DUARTE, 2005).

Outra grande diferença entre as duas modalidades é a quantidade de jogadores em uma equipe e também a quantidade de posições existentes em cada uma das modalidades. Por exemplo: no futsal, temos cinco jogadores, em que basicamente um é goleiro, dois são alas, um atua como fixo e outro como pivô, enquanto que no futebol de campo temos 11 jogadores, que podem ser distribuídos nas mais diversas posições, sendo elas goleiro, zagueiro, lateral, ala, volante, meia ofensivo, meia armador, atacante, centroavante e assim por diante.

Apesar de possuírem algumas diferenças básicas, podemos encontrar também, como já dito, muitas semelhanças entre ambas as modalidades, ainda mais porque o futsal é proveniente do futebol de campo. Dentre essas características, podemos encontrar o mesmo objetivo (marcação dos gols), os mesmos fundamentos (passe, chute, cabeceio, drible, controle e domínio de bola e assim por diante), regras muito semelhantes, etc.

Depois dessa breve revisão, podemos agora partir para uma abordagem mais específica a respeito da iniciação esportiva. Os estudos na área da aprendizagem motora e do desenvolvimento esportivo estão cada vez mais bem fundamentados, fornecendo, desta maneira, maiores subsídios científicos para que os profissionais e professores de educação física tenham uma atuação mais crítica e precisa, não se preocupando apenas em realizar uma pequena cópia do trabalho que é feito com os jogadores adultos, profissionais ou não.

Perroni e Alonso (2006) relatam que a iniciação cada vez mais precoce é, hoje, motivo de preocupação quando estudamos o aparecimento de lesões músculo-esqueléticas em atletas jovens, como também Arena & Bohme (2000) indicam para os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes que a promoção de atividades esportivas com crianças e jovens atletas não é começar precocemente em determinado esporte ou treinamento em única modalidade esportiva. Ao contrario: as autoras colocam que o início da prática esportiva generalizada de diferentes esportes é um aspecto positivo, no sentido de que a preparação esportiva do jovem deve ser um processo permanente, em longo prazo.

Apesar de muitos princípios básicos da iniciação esportiva serem considerados gerais para ambas as modalidades aqui envolvidas, podemos encontrar algumas diferenças, dentre elas a recomendação quanto à faixa etária mais apropriada para a iniciação. Enquanto que para o futsal é recomendada uma idade de seis a oito anos de idade para o início da prática, 10 a 12 para a especialização, sendo que o alto rendimento será alcançado com aproximadamente 20-26 anos de idade. (BARBANTI, 2005). Enquanto isso, no futebol de campo recomenda-se a faixa etária entre oito e 10 anos de idade para o início da prática, 11 a 14 anos para a especialização, sendo que o alto rendimento será alcançado com aproximadamente 20-26 anos de idade, assim como no futsal, segundo o mesmo autor. Porém, para ambas modalidades esportivas, recomenda-se que quanto mais próximo da idade de formação do alto rendimento, maior deverá ser o caráter específico das sessões de treinamento (BARBANTI, 2005).

A aprendizagem técnica e tática de ambas as modalidades podem sofrer algumas influências do ambiente de prática, uma vez que o futsal, por ser jogado em uma área menor, exige um tempo de reação diferente do futebol de campo, por exemplo. Os métodos aplicados na aprendizagem da técnica e da tática, seja qual for o esporte envolvido, porém, são os mesmos. Greco (2007) estabelece os dois métodos mais tradicionais para o trabalho de fundamentos, sendo eles o trabalho analítico-parcial (método segmentado, do mais simples para o mais complexo) e a prática global-funcional (quando o fundamento é trabalhado dentro do contexto do jogo). O mesmo autor ainda coloca três métodos de aprendizagem da tática, sendo eles o método tático-inicial (regras táticas gerais da modalidade), posicional (está relacionado com o aprimoramento dos processos perceptivos) e situacional (reconhecimento da tomada de decisão nas diferentes situações de jogo).

Pretendeu-se nessa breve coluna colocar alguns princípios básicos da iniciação esportiva, bem como estabelecer algumas diferenças básicas entre aquilo que as ciências do esporte preconizam para uma correta iniciação na modalidade futebol de campo e uma correta iniciação na modalidade futsal, dois esportes muito relacionados, em que o primeiro originou o segundo. Porém, ainda por serem modalidades diferentes, possuem algumas necessidades diferentes.



Bibliografia

ARENA, S. S.; BOHME, M. T. S. Federações esportivas e organização de competições para jovens. Revista Brasileira de Ciência e Movimento. v. 12, n. 04, p. 45-50, dez, 2004.

BARBANTI, V. J. Formação de Esportistas. Barueri, São Paulo: Manole, 2005.

DUARTE, O. História dos Esportes. 3 ed. São Paulo, Senac, 2004.

GRECO, P. J. Iniciação Esportiva Universal: Metodologia da Iniciação Esportiva na Escola e no Clube. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

PERRONI, M. G.; ALONSO, A. C. Lesão da criança no esporte. In: SILVA, L. R. R. (Org.). Desempenho Esportivo: Treinamento com crianças e adolescentes. São Paulo: Phorte, 2006.

Pilares Práticos Utilizados como Referencia na construção do jogar.

Pilares práticos utilizados como referência na construção do jogar
Entendimento e reflexões em busca de nortear a elaboração de um Modelo de Jogo

Leonardo Gondim*

Intrínsecos ao processo de modelação, hierarquização e construção do “jogar” que o futebol moderno exige, encontram-se o entendimento e detalhamento das fases e momentos inclusos dentro de uma partida.
Considerando a complexidade do jogo, oriunda da somatória de ações instantâneas e de ocorrência aleatória, busca-se a identificação das ações maiores que norteiam o jogo.
No intuito de gerar um melhor entendimento para os leitores, denominar-se-ão essas ações maiores que atuam em um jogo de futebol como “pilares práticos da construção do jogar”. Neste sentido cabem reflexões sobre o entendimento dos conceitos de fase e momento, pois se pode dizer que o jogar consiste em fases precedidas por momentos de alteração de postura.
Tem-se, como conceito de momento, uma ação instantânea, ou seja, algo imediato. No entanto, por fase pensa-se em um processo que passa por inicio, condução e conclusão. Sendo assim, vamos entender essa seqüência de ações.
Serão abordados, então, os ditos “pilares de entendimento” referentes ao “jogar”, quais sejam:


- Organização defensiva -> Transição ofensiva -> Organização ofensiva -> Transição defensiva – (Exemplo de organização de postura referenciado pelos pilares práticos da construção do jogar)
Faz-se necessário ressaltar que, de acordo com um entendimento global do jogo, os quatro pilares apresentados estão intimamente interligados, manifestando-se de modo contínuo e com seqüência randomizada.
Como uma abordagem inicial, buscaremos refletir sobre o conceito e alguns desdobramentos relacionados à organização defensiva.
Inserida a um sistema de relações que constitui o modelo de jogo, a organização defensiva engloba ações coletivas que, margeadas por princípios defensivos, conduzem a postura de uma equipe quando em ação “marcadora” (sem a posse da bola ou, com a mesma, de modo que exista um balanço defensivo – jogadores que, mesmo sem o poder da posse da bola, organizam e preocupam-se com a futura obrigação em defender- Conceito abordado em seguida).
Ou seja, pode-se conceituar organização defensiva como o ato coletivo atuante em prol da neutralização dos objetivos ofensivos do oponente, de modo a utilizar princípios defensivos elaborados e inseridos no modelo de jogo.
Sendo assim, alguns exemplos de organização desta manifestação tática do jogo, ou seja, algumas maneiras ou padrões para marcar as ações ofensivas do adversário, serão analisados.
O autor português Castelo, defende que a organização do processo defensivo baseia-se em três aspectos importantes:
- Equilíbrio/balanço defensivo: ocorre em situações em que, ainda em poder da posse da bola, a equipe visa se organizar e se preparar para uma futura obrigação em defender;
- Recuperação defensiva: tem início à medida que a equipe tenha sido impossibilitada de recuperar a bola imediatamente ao momento de perda, e sua duração se dá até ao momento de obtenção do padrão defensivo estipulado pelo modelo de jogo;
- Defesa propriamente dita: Aplicação prática do padrão defensivo da equipe e dos princípios defensivos pré estabelecidos, sejam coletivos ou individuais;
Tendo em vista as ferramentas que irão estruturar o tipo de organização do processo defensivo escolhido pelo treinador, serão abordados, por fim e de modo genérico, alguns exemplos dos referidos tipos:
- Defesa individual x defesa “homem a homem”: Marcar individualmente significa demonstrar preocupação com indivíduos que sejam decisivos às ações do jogo. Esse método evidencia situações de “um contra um” e igualdade numérica, porém, um defensor não executa a marcação em um mesmo jogador de ataque por toda a passagem defensiva, logo, trocas de marcação são constantemente executadas.
Como defesa “homem a homem”, por outro lado, entende-se a preocupação individual, seguindo os mesmos preceitos da marcação individual, em relação a jogadores decisivos, porém, a diferença consiste no fato de um defensor seguir executando a marcação em um mesmo jogador de ataque, até o final de uma passagem defensiva.

COMENTÁRIO DO VÍDEO GERADO PÓS-EDIÇÃO:

- Nos trechos demonstrados, nota-se uma grande preocupação em marcar a saída de bola do Barcelona e os chamados “abertos e profundos” (pontas) da equipe Catalã. Os zagueiros extremos da equipe do Bilbao executam perseguições aos pontas quando os mesmos se deslocam para o centro do campo, não se importando com o espaço que, possivelmente, se forme através desse deslocamento. Uma clara demonstração de organização defensiva “homem a homem”.

De modo geral, nota-se, nos dois métodos, o predomínio de referências defensivas individuais, ou seja, entende-se que o adversário é sempre perigoso, independente de sua localização.
- Defesa à Zona: Método que possui os espaços ocupados como maior referência dentro de ações de marcação, logo, o intuito maior é ocupar, de modo coletivo, os espaços mais perigosos do campo. Por espaço perigoso entende-se aquele próximo a bola e os ocupados pelas primeiras opções de apoio ao jogador detentor da posse, ou seja, é um método que exige uma ocupação de espaço racional e equilibrada, de modo a induzir o adversário a atuar em zonas mais densas do sistema defensivo da equipe que marca.
- Defesa à Zona Passiva: Forma de defender que apresenta como objetivo o encurtamento de espaços, criando dificuldades de ação ao ataque adversário, até que haja o erro. Consiste num método de defesa que não apresenta uma luta incessante em busca da bola, e sim uma postura paciente e indutiva, de modo a esperar o erro do adversário.

COMENTÁRIO DO VÍDEO GERADO PÓS-EDIÇÃO:
- Apesar de, em alguns poucos momentos, a seleção da Escócia apresentar um comportamento mais intenso no intuito de retomar a posse de bola, em grande parte do jogo a mesma demonstrou que pretendia manter uma organização defensiva baseada na ocupação horizontal de seu campo defensivo, demonstrando uma postura paciente, taticamente dedicada e voltada a diminuir os espaços ofensivos da seleção espanhola. Aguardar o momento de erro, mesmo que, neste trecho do vídeo, o mesmo não tenha ocorrido.
- Defesa a Zona “Pressionante”: Apresenta intuitos similares aos da defesa a zona, porém, possui uma vertente mais “agressiva” em momentos de pós-ocupação racional e equilibrada do espaço. Ou seja, define-se uma ocupação espacial densa e “ataca-se” o adversário de forma intensa quando o mesmo atuar neste espaço.

COMENTÁRIO DO VÍDEO GERADO PÓS-EDIÇÃO
- No vídeo acima, apesar da ênfase ser dada à posse de bola executada pela equipe do Real Madrid, pode-se observar uma organização defensiva zonal passiva, onde os atletas do Ajax tentam induzir a equipe merengue ao erro. Há uma abordagem mais enfática somente nos momentos que os atacantes adversários ocupam a última linha defensiva do Ajax (próximo a entrada da grande área). Um exemplo de organização defensiva zonal, passiva!
Posteriormente a este primeiro contato com os pilares de construção, serão aprofundadas discussões sobre os tipos de organização mencionados para então, em breve, dar inicio a reflexões sobre transição ofensiva, organização ofensiva e, por fim, transição defensiva.
Por além dos conteúdos abordados, ficam evidentes as inúmeras possibilidades de se organizar e conceituar ações táticas dentro das diferentes fases do jogo.
Ou seja, mãos a obra! Temos muito a pensar e construir dentro de um modelo de jogo!
Muito obrigado e até a próxima!
Bibliografia

ALMEIDA, F. A importância dos momentos de transição (ataque-defesa e defesa-ataque) num determinado entendimento de jogo. Dissertação de Licenciatura. Não Publicado. Porto: FADE-UP, 2006.
AMIEIRO, N. Defesa à Zona no Futebol. Um pretexto para reflectir sobre o «jogar»… bem, ganhando! Edição de autor. Porto, 2004.
BARRETO, R. O problematizar de dois princípios de jogo fundamentais no acesso ao rendimento superior do futebol: o «PRESSING» e a «POSSE DE BOLA» expressões duma «descoberta guiada» suportada numa lógica metodológica em que «o todo está na(s) parte(s) que está(ão) no todo». Dissertação de Licenciatura. Não Publicado. Porto: FCDEF-UP, 2003.
CARVALHAL, C. Entrevista. In: A importância dos momentos de transição (ataque-defesa e defesa-ataque) num determinado entendimento de jogo. Dissertação de Licenciatura. Não Publicado. Porto: FADE-UP, 2006.
FERREIRA, M.J. Entrevista. In: Defesa à zona no futebol: a (des) Frankensteinização de um conceito: uma necessidade face à inteireza inquebrantável que o jogar deve manifestar. Dissertação de Licenciatura. Não Publicado. Porto: FCDEF-UP, 2004.
OLIVEIRA, J.G. Conhecimento Específico em Futebol – Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do processo ensino-aprendizagem/treino do jogo. Dissertação de Mestrado. Porto: FCDEF-UP, 2004.
MOURINHO, J. Entrevista. In: A Bola, 26 de Julho de 2002.
MOURINHO, J. Entrevista. In: Defesa à zona no futebol: a (des) Frankensteinização de um conceito: uma necessidade face à inteireza inquebrantável que o jogar deve manifestar. Dissertação de Licenciatura. Não Publicado. Porto: FCDEF-UP, 2004.

Aposentadoria dos Campos



Aposentadoria dos Campos:

O difícil processo de transição na vida de um atleta profissional.

Idade, novos interesses, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio e problemas de lesão são razões importantes para a decisão.



Marcelo Iglesias

Um dos pontos cruciais na carreira de um atleta profissional é estabelecer o momento certo para se aposentar. Por ser uma atividade que exige muita dedicação e preparo, são poucos os casos de atletas que conseguem atuar em bom nível até mais do que 30 anos de idade. Por isso, é importante que passem por um processo correto de ajuste nas esferas de vida ocupacional, financeira, social e psicológica, pois esse processo pode ser acompanhado por problemas emocionais.
Atualmente, não são incomuns os exemplos de ex-jogadores que, sabendo da sua condição inapropriada para seguirem dentro de campo, decidem permanecer ligados ao futebol de outra maneira, seja como técnicos, dirigentes, preparadores de goleiros, etc. Outro ramo procurado por alguns é o da política, visto o carisma que certas figuras da modalidade possuem.
Para tornar-se um atleta de elite, no mundo moderno, é necessário ter disciplina para treinar por muitos anos, dedicação quase que exclusiva para o esporte e, em geral, iniciar a carreira em idade muito precoce.

Em “O lado mental do futebol”, capítulo do livro "Ciência do Futebol", de autoria da nutricionista Isabel Guerra, doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os autores afirmam que é grande a expectativa dos jogadores de alto nível de se tornarem atletas de sucesso nacional e internacional, já que essa conquista mobiliza a atenção de investimentos financeiros e tem grande espaço na mídia.

Nesse contexto, os atletas profissionais ganham como consequência, vantagens econômicas, notoriedade e, de fato, prestígio. Para os atletas de alto rendimento, o esporte é a energia que move a vida, é o marco de sua identidade.
Entretanto, após anos de dedicação, por razões diversas, defrontam-se com o processo final de carreira do esporte. É quando a maioria dos jogadores se conscientiza de não ter sido preparado para enfrentar a vida pós-esporte, pois negligenciou esse processo. Dessa forma, a aposentadoria pode gerar uma situação de estresse e de crise de identidade para muitos atletas.
Para a Federação Européia de Psicologia do Esporte e Atividades Corporais (FEPSAC), identidade esportiva deve ser conceituada como a força e a exclusividade em que o esportista identifica a si mesmo com o esporte; essa identificação exclusiva é fortalecida pelo reconhecimento social e sucesso econômico que acompanham os resultados positivos da carreira esportiva. Sendo assim, terminar a carreira esportiva pode se tornar um dos momentos mais difíceis da vida de um atleta, já que a mudança no estilo de vida requer uma adaptação de papéis sociais e profissionais.

A maioria dos atletas não percebe a importância de outras fontes de identificação em outros âmbitos da vida (outra profissão ou atividade), indispensáveis para a manutenção do equilíbrio durante e ao término da carreira. Essa percepção errada da realidade, em muitos casos, é ratificada por técnicos, dirigentes e membros da família. Em “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, Kátia Rubio afirma: “na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais, muitas vezes o atleta se vê identificado com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista, aquele capaz de realizar grandes feitos, dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais”.
A transição de carreira esportiva significa mudança de uma fase da carreira para outra, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta, e da necessidade de recursos para lidar com o momento. De acordo com o que é apresentado em “Career transition and concomitant changes in athletes” (“Transição de carreira e concomitantes mudanças em atletas”, em tradução livre), a carreira esportiva é composta de uma sequência de sucessivas fases, com períodos de transição, identificadas como: a transição do esporte infantil para o juvenil, seguida da transição para o júnior e, finalmente, para o adulto; a transição do esporte amador para o profissional e a transição para o término da carreira esportiva.

Cada uma requer exigências específicas e ajustes nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta e, fundamentalmente, sempre será necessário o esforço pessoal para a adaptação à nova fase.
Dessa forma, a natureza desse ajustamento à aposentadoria, para cada atleta, dependerá da interação de múltiplos fatores. Entretanto, um fator isolado não garante se um ajustamento será fácil e tranquilo. Somente uma análise da complexa interação entre diversos fatores é que levará à compreensão de como determinado atleta conviverá com o fato de se aposentar.
Um dos pontos que deve ser levado em consideração é que, por vezes, o jogador encerrará a sua carreira de maneira voluntária, mas, em outras ocasiões, isso poderá ocorrer forçadamente. Com isso posto, pode-se citar como algumas das causas das aposentarias de atletas profissionais: a idade, novos interesses emergentes, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio, problemas de contusão ou de saúde, e a ausência do seu nome entre os relacionados para os jogos.
Partindo do fato de que a transição de carreira esportiva é um processo, Jim Taylor e Bruce Ogilvie desenvolveram o “Modelo Conceitual da Transição de Carreira”, que integra, além da informação teórica da Psicologia do Esporte, a investigação empírica. De acordo com os estudiosos, as características da transição incluem: duração, mudanças de posição social, grau de estresse, desafios enfrentados e, fundamentalmente, a percepção de estresse nesse momento.
Determinadas áreas específicas, consideradas moduladoras do ajustamento ao momento da aposentadoria e facilitadoras de adaptação adequada, também podem ser avaliadas: percepção de controle; identidade esportiva; suporte social; experiências anteriores (outras transições); envolvimento com atividades relacionadas com esporte depois da aposentadoria; grau de planejamento profissional; status socioeconômico; habilidades (persistência, competitividade, metas, etc.); objetivos relacionados com esportes; e foco depois da aposentadoria.
Portanto, toda transição de carreira tem o potencial de ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte, em dezembro de 2008, com 79 ex-atletas de futebol e basquete, por meio de entrevistas semi-estruturadas, apontou que 75,9% dos indivíduos avaliados decidiram encerrar a carreira esportiva de forma voluntária. A transição de carreira ocorreu de maneira gradativa e natural, como eles mesmos citaram nas entrevistas. Para a maioria dos ex-atletas (68,4%), esse momento foi oportuno, ou seja, aconteceu na época certa, enquanto que, para 27,9% dos entrevistados, a decisão de parar de competir profissionalmente ocorreu muito cedo e de forma prematura.
Ainda segundo esse estudo, as causas mais frequentes relacionadas à saída do esporte em ordem decrescente foram: idade (49,4%), surgimento de outros interesses (43,0%), mudanças no estilo de vida (17,7%), problemas de saúde (16,5%), problemas de lesões (15,2%), ausência de perspectivas futuras (13,9%), problemas de relacionamento com dirigentes (13,9%), "declínio dos resultados" (12,7%), cansaço psicológico (11,4%), relacionamento com o técnico (10,1%), cansaço físico (7,6%), relacionamento com a família (7,6%) e relacionamento com a equipe (3,8%).
Em relação às consequências emocionais por conta do processo de finalização da carreira esportiva, algumas emoções preponderaram. Em ordem decrescente: 50,6% dos ex-jogadores sentiram tristeza no momento da transição esportiva para uma nova carreira e 36,7 % se sentiram conformados. Além disso, a pesquisa apontou que 17,7% da amostra sentiram felicidade nesse momento, 6,3% se sentiram tensos, 5,1% sentiram medo, 5,1% ficaram deprimidos, 3,8% sentiram raiva, 3,8% ficaram ressentidos, 1,3% sentiram culpa e nenhum dos entrevistados fez referência a sentimentos de desespero.
Por fim, no que tange os aspectos físicos, a pesquisa indicou que, ao encerrar a carreira esportiva, 43% dos entrevistados tiveram a percepção de que a aptidão física piorou. Segundo dados coletados, o peso dos sujeitos aumentou e eles tornaram-se quase que totalmente inativos. A condição física não melhorou para nenhum dos avaliados.
Portanto, deixar a arena esportiva tende a ser um momento difícil da vida de um atleta, pois sempre requer adaptação de papéis sociais e profissionais. Fica claro que essa adaptação torna-se ainda mais difícil quando o atleta tem forte identificação com a figura de esportista. Em geral, apresenta dificuldades psicológicas e vivencia momentos de tristeza, depois de anos de exclusiva dedicação à carreira competitiva.

Além disso, nota-se que a idade é um fator limitador da performance e desencadeador da aposentadoria, o que acaba levando a um sentimento de conformismo e, ao mesmo tempo, motivando para outros interesses e objetivos emergentes, tais como o desejo de poder passar mais tempo com a família.

Outro ponto relevante é a piora na saúde física dos ex-atletas e o quanto a diminuição planificada e gradativa da carga física a que foram submetidos durante o período ativo é necessária, ao se pensar na qualidade de vida pós-esporte.

Portanto, seria interessante que, tanto do campo científico, como por meio de uma iniciativa da direção dos clubes de futebol, fossem desenvolvidos programas de aposentadoria que tenham como objetivo principal capacitar atletas em transição de carreira a lidarem melhor com esse momento e, principalmente, utilizar esses programas no início da carreira para minimizar a ansiedade com relação ao futuro.


Bibliografia

Orlick T. From hero to zero. In: In pursuit of excellence: how to win in sport and life through mental training.
2nd ed. Champaign: Human Kinetics, 1990;167-75.
Brandão MRF. O lado mental do futebol. In: Barros Neto TL, Guerra I, editores. Ciência do futebol.
Barueri: Manole, 2004;203-20.
FEPSAC. Position statement: sports career termination, 1999. Biel: FEPSAC; c2003a [cited 2006 Jan 9]. Available from: http://www.smartstep.se/ssp/ sportpsychology/module.asp?page=detail& XModuleId=8243& ProductId=2670.
Rubio K. O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.
Alfermann D. Career transition and concomitant changes in athletes. In: Proceedings of the 11th World Congress of Sport Psychology; 2005 Aug 5-19; Sidney, Austrália. Sidney: International Society of Sport Psychology, 2005.
Taylor J, Ogilvie BC. A conceptual model of adaptation to retirement among athletes. J Appl Sport Psychol 1994;6:1-20.
Sinclair DA, Orlick T. Positive transitions from high-performance sport. Sport Psychol 1993;7:138-50.
Lavallee D. The effect of a life development intervention on sports career transition adjustment.
Sport Psychol 2005;19:193-202.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Evolução do Futebol Brasileiro: elementos para uma reflexão política



Sem investimentos em capacitação e política mais clara, que defina metas dentro de visão sistêmica e integrada dos fenômenos do esporte, seremos apenas coadjuvantes desse grande espetáculo globalizado

João Paulo Medina*

Via de regra, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, com mais ou menos importância. Mas o dia 18 de dezembro de 2011 poderia ser considerado um marco, um divisor de águas para o futebol brasileiro. A derrota da equipe do Santos – considerada por muitos, a melhor do Brasil – para o Barcelona por 4 a 0, pela final do Mundial de Clubes, foi uma aula de futebol, como afirmou de forma madura o talentoso e promissor jogador santista Neymar. Contudo, mais do que uma aula, bem que este jogo poderia ser também um ponto de partida para uma verdadeira mudança de paradigma da ainda tradicional e arcaica estrutura do futebol brasileiro.

Costuma-se dizer que o futebol imita a vida, como também se afirma que o vigor da economia de um país define sua saúde em todos os outros aspectos. Há tempos que comemoramos vários e importantes progressos em nossa economia, com reflexos sociais mais diretos na ascensão de milhões de brasileiros que estão saindo da miséria ou da linha da pobreza para níveis de vida mais dignos.

Tais conquistas, entretanto, não podem esconder o enorme atraso que ainda temos em muitos indicadores sociais, culturais, educacionais, bem como esportivos. Ou seja, não podemos nos enganar, pois ainda somos um país pobre em muitos aspectos. E para comprovar isso, basta atentarmos para o nosso nível de educação, em que somente 10% da população economicamente ativa possui um diploma universitário. Isso é muito mais baixo do que se pode encontrar, por exemplo, em países como Rússia, Índia e China, que, como o Brasil, são considerados emergentes.
Sem contar os números de nosso analfabetismo funcional, cujos dados são muito imprecisos, mas que devem chegar próximo à casa dos 50% de nossa população total. O que é trágico e vergonhoso, para dizer o mínimo.
Mas vamos, nesta breve reflexão crítica, apenas tentar entender o cenário em que se assenta o nosso atraso futebolístico atual. E não gostaria que o leitor entendesse minhas considerações como de alguém com visão pessimista que não valoriza o que é nosso e não quer enxergar nosso progresso. Não significa também que tenhamos que reassumir, diante de nações mais desenvolvidas, nosso histórico complexo de “vira-lata”. Não se trata disso, mas sim de entender que, apesar de nossas virtudes e enorme potencial, se não fizermos um correto diagnóstico de nossas mazelas, jamais nos instrumentalizaremos no sentido de superá-las de forma consistente e sustentável.
Nossas lentas, porém evidentes conquistas democráticas, têm nos permitido denunciar, contestar e debater criticamente nossos problemas sociais, talvez como nunca tenhamos conseguido em nossa história enquanto país institucionalizado. Portanto, estamos em um momento adequado para questionarmos alguns dos nossos pressupostos que nos fizeram ser o que somos. E isso vale para o país, como também para o nosso futebol pentacampeão mundial.
Não acredito mais que possamos recuperar todo o nosso atraso nos próximos dois, três ou quatro anos, até que cheguem a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016) a serem realizados no Brasil. Mas é preciso começar de verdade. E o começo começa com consciência. Em se tratando de futebol, enquanto continuarmos em dúvida se ainda somos ou não os melhores do mundo, estaremos perdendo tempo.
E uma das primeiras evidências que temos que enxergar é que nada muda do dia para a noite. Principalmente se estivermos falando de evolução social, cultural e esportiva. Não podemos resumir o desenvolvimento de um país apenas com construção de aeroportos, rodovias, ferrovias e belos estádios de futebol. Isso representa apenas uma parte, pequena – diga-se de passagem – de nosso crescimento. O principal é entender que temos condições objetivas de mudanças e isso nos permitirá tomar consciência de que para termos uma nação forte é preciso muito mais do que simplesmente algumas melhorias em nossa infraestrutura.
Mas para ficarmos apenas no terreno esportivo, cabem aqui algumas questões que teremos que resolver nos próximos anos, se é que ainda temos pretensões de estar entre os grandes do futebol mundial.
Um dos principais aspectos que tem atrapalhado muito nosso progresso nesta área é a visão empírica e superficial que ainda prevalece no futebol. Se ela foi suficiente para nossas conquistas anteriores e para sermos o que somos hoje, fica cada vez mais evidente que sem investimentos na capacitação profissional e em uma política mais clara, que defina metas de médio e longo prazos para o futebol brasileiro dentro de uma visão mais sistêmica e integrada dos fenômenos que compõem este esporte, seremos dentro de algum tempo apenas coadjuvantes dos grandes espetáculos globalizados em que se está transformando o altamente competitivo futebol profissional. Ou não foi este o papel desempenhado pelo Brasil, representado pelo Santos, na partida com o Barcelona?
Para evitarmos que isso se torne rotina é preciso que comecemos a responder algumas perguntas, urgentemente:
• Quando os nossos dirigentes vão se profissionalizar ou pelo menos se atualizar para darem conta das demandas do futebol globalizado deste século XXI, deixando de olhar apenas para o seu entorno mais próximo e cuidando apenas de seus interesses particulares?
• Quando os órgãos de comunicação vão entender o seu papel estratégico nestas mudanças e os jornalistas esportivos se prepararem melhor antes de formular seus elogios e críticas, muitas vezes estéreis e descontextualizados?
• E os treinadores? Será que vão perceber que, dentro deste novo cenário, não basta mais ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um profissional bem sucedido? Quando vão entender que esta função, hoje em dia, além de certas características de personalidade, exige profundos conhecimentos sobre liderança de grupos, tática e estratégia de jogo, metodologia científica de treinamento, cultura geral, “media training”, entre outros requisitos?
• Quando os clubes, através de seus dirigentes, serão capazes de estabelecer uma política clara para seus departamentos de futebol, não só no terreno da gestão, como também no terreno técnico (sim, o dirigente tem que entender o suficiente deste aspecto para poder contratar e acompanhar seus treinadores e funcionários dentro do perfil desejado pela política estabelecida).
• E a formação de nossos jovens atletas? Será que vamos finalmente compreender que é preciso superar urgentemente a visão tecnicista que ainda predomina nas categorias de base e nas escolas de futebol espalhadas pelo Brasil, para adotarmos uma abordagem interdisciplinar formando o atleta integralmente e preparando-os para a vida profissional, pessoal e social?
• E quando as instituições que dirigem o nosso futebol (CBF, Federações, Sindicatos, Associações) serão pressionadas o suficiente para entenderem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro? E o governo, através do Ministério do Esporte, será que não poderia ajudar na formulação de uma política esportiva mais atuante para o país?
Enfim, estes são alguns dos questionamentos que precisam entrar na pauta de todos aqueles que desejam e torcem por um futebol melhor, mesmo que estas providências cheguem tarde demais para podermos disputar de igual para igual a próxima Copa do Mundo.

*João Paulo Medina é Diretor Executivo da Universidade do Futebol

Evolução do Futebol Brasileiro

Evolução do Futebol Brasileiro: elementos para uma reflexão política



Sem investimentos em capacitação e política mais clara, que defina metas dentro de visão sistêmica e integrada dos fenômenos do esporte, seremos apenas coadjuvantes desse grande espetáculo globalizado

João Paulo Medina*

Via de regra, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, com mais ou menos importância. Mas o dia 18 de dezembro de 2011 poderia ser considerado um marco, um divisor de águas para o futebol brasileiro. A derrota da equipe do Santos – considerada por muitos, a melhor do Brasil – para o Barcelona por 4 a 0, pela final do Mundial de Clubes, foi uma aula de futebol, como afirmou de forma madura o talentoso e promissor jogador santista Neymar. Contudo, mais do que uma aula, bem que este jogo poderia ser também um ponto de partida para uma verdadeira mudança de paradigma da ainda tradicional e arcaica estrutura do futebol brasileiro.
Costuma-se dizer que o futebol imita a vida, como também se afirma que o vigor da economia de um país define sua saúde em todos os outros aspectos. Há tempos que comemoramos vários e importantes progressos em nossa economia, com reflexos sociais mais diretos na ascensão de milhões de brasileiros que estão saindo da miséria ou da linha da pobreza para níveis de vida mais dignos.
Tais conquistas, entretanto, não podem esconder o enorme atraso que ainda temos em muitos indicadores sociais, culturais, educacionais, bem como esportivos. Ou seja, não podemos nos enganar, pois ainda somos um país pobre em muitos aspectos. E para comprovar isso, basta atentarmos para o nosso nível de educação, em que somente 10% da população economicamente ativa possui um diploma universitário. Isso é muito mais baixo do que se pode encontrar, por exemplo, em países como Rússia, Índia e China, que, como o Brasil, são considerados emergentes.
Sem contar os números de nosso analfabetismo funcional, cujos dados são muito imprecisos, mas que devem chegar próximo à casa dos 50% de nossa população total. O que é trágico e vergonhoso, para dizer o mínimo.
Mas vamos, nesta breve reflexão crítica, apenas tentar entender o cenário em que se assenta o nosso atraso futebolístico atual. E não gostaria que o leitor entendesse minhas considerações como de alguém com visão pessimista que não valoriza o que é nosso e não quer enxergar nosso progresso. Não significa também que tenhamos que reassumir, diante de nações mais desenvolvidas, nosso histórico complexo de “vira-lata”. Não se trata disso, mas sim de entender que, apesar de nossas virtudes e enorme potencial, se não fizermos um correto diagnóstico de nossas mazelas, jamais nos instrumentalizaremos no sentido de superá-las de forma consistente e sustentável.
Nossas lentas, porém evidentes conquistas democráticas, têm nos permitido denunciar, contestar e debater criticamente nossos problemas sociais, talvez como nunca tenhamos conseguido em nossa história enquanto país institucionalizado. Portanto, estamos em um momento adequado para questionarmos alguns dos nossos pressupostos que nos fizeram ser o que somos. E isso vale para o país, como também para o nosso futebol pentacampeão mundial.
Não acredito mais que possamos recuperar todo o nosso atraso nos próximos dois, três ou quatro anos, até que cheguem a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016) a serem realizados no Brasil. Mas é preciso começar de verdade. E o começo começa com consciência. Em se tratando de futebol, enquanto continuarmos em dúvida se ainda somos ou não os melhores do mundo, estaremos perdendo tempo.
E uma das primeiras evidências que temos que enxergar é que nada muda do dia para a noite. Principalmente se estivermos falando de evolução social, cultural e esportiva. Não podemos resumir o desenvolvimento de um país apenas com construção de aeroportos, rodovias, ferrovias e belos estádios de futebol. Isso representa apenas uma parte, pequena – diga-se de passagem – de nosso crescimento. O principal é entender que temos condições objetivas de mudanças e isso nos permitirá tomar consciência de que para termos uma nação forte é preciso muito mais do que simplesmente algumas melhorias em nossa infraestrutura.
Mas para ficarmos apenas no terreno esportivo, cabem aqui algumas questões que teremos que resolver nos próximos anos, se é que ainda temos pretensões de estar entre os grandes do futebol mundial.
Um dos principais aspectos que tem atrapalhado muito nosso progresso nesta área é a visão empírica e superficial que ainda prevalece no futebol. Se ela foi suficiente para nossas conquistas anteriores e para sermos o que somos hoje, fica cada vez mais evidente que sem investimentos na capacitação profissional e em uma política mais clara, que defina metas de médio e longo prazos para o futebol brasileiro dentro de uma visão mais sistêmica e integrada dos fenômenos que compõem este esporte, seremos dentro de algum tempo apenas coadjuvantes dos grandes espetáculos globalizados em que se está transformando o altamente competitivo futebol profissional. Ou não foi este o papel desempenhado pelo Brasil, representado pelo Santos, na partida com o Barcelona?
Para evitarmos que isso se torne rotina é preciso que comecemos a responder algumas perguntas, urgentemente:
• Quando os nossos dirigentes vão se profissionalizar ou pelo menos se atualizar para darem conta das demandas do futebol globalizado deste século XXI, deixando de olhar apenas para o seu entorno mais próximo e cuidando apenas de seus interesses particulares?
• Quando os órgãos de comunicação vão entender o seu papel estratégico nestas mudanças e os jornalistas esportivos se prepararem melhor antes de formular seus elogios e críticas, muitas vezes estéreis e descontextualizados?
• E os treinadores? Será que vão perceber que, dentro deste novo cenário, não basta mais ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um profissional bem sucedido? Quando vão entender que esta função, hoje em dia, além de certas características de personalidade, exige profundos conhecimentos sobre liderança de grupos, tática e estratégia de jogo, metodologia científica de treinamento, cultura geral, “media training”, entre outros requisitos?
• Quando os clubes, através de seus dirigentes, serão capazes de estabelecer uma política clara para seus departamentos de futebol, não só no terreno da gestão, como também no terreno técnico (sim, o dirigente tem que entender o suficiente deste aspecto para poder contratar e acompanhar seus treinadores e funcionários dentro do perfil desejado pela política estabelecida).
• E a formação de nossos jovens atletas? Será que vamos finalmente compreender que é preciso superar urgentemente a visão tecnicista que ainda predomina nas categorias de base e nas escolas de futebol espalhadas pelo Brasil, para adotarmos uma abordagem interdisciplinar formando o atleta integralmente e preparando-os para a vida profissional, pessoal e social?
• E quando as instituições que dirigem o nosso futebol (CBF, Federações, Sindicatos, Associações) serão pressionadas o suficiente para entenderem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro? E o governo, através do Ministério do Esporte, será que não poderia ajudar na formulação de uma política esportiva mais atuante para o país?
Enfim, estes são alguns dos questionamentos que precisam entrar na pauta de todos aqueles que desejam e torcem por um futebol melhor, mesmo que estas providências cheguem tarde demais para podermos disputar de igual para igual a próxima Copa do Mundo.

*João Paulo Medina é Diretor Executivo da Universidade do Futebol