segunda-feira, 26 de março de 2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2


Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2



Confira a continuação do material especial que discute o desenvolvimento do trabalho desenvolvido pelos principais clubes do país, a partir da opinião de diversos profissionais da nova geração

Equipe Universidade do Futebol

Nesta segunda parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a segunda pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, que destaca a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro:

Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?

Wladimir Braga
– Para o preparador físico da base do Atlético Mineiro, “é importante destacar que a gestão do conhecimento é o que mais falta aos diretores e gerentes de futebol de base dos clubes do futebol brasileiro, de uma forma geral”. E conclui: “a formação de um conceito de trabalho torna-se, portanto, a principal carência neste sentido, e todo trabalho de formação de atletas fica prejudicado, por que as categorias [de base] do futebol não têm um 'norte' e permanecem seguindo no escuro no processo de 'tentativa e erro' até acertarem em alguma promessa isolada”.

Leandro Zago – Para este jovem treinador e estudioso do futebol, “a competência é um termo abstrato quando não está direcionada a algo. Ser competente em algo é ter sucesso em algumas tarefas que contribuem para a execução de um projeto maior. Enquanto as diretrizes não estiverem determinadas, os profissionais trabalharão cada um em uma direção e o produto final desse 'processo' (desenvolvimento pleno do atleta de futebol) será a soma das intenções dos profissionais que tiveram contato com o atleta durante o período de formação. Quando na verdade, os clubes deveriam ter uma definição bem clara sobre qual o tipo de atleta que seria desejável na equipe profissional e a partir daí tomar todas as outras decisões relacionadas às categorias de base, desde a captação de atletas até a contratação dos profissionais competentes para sustentar o processo já delineado".

 “Quanto às metodologias, enquanto todas as equipes que se enfrentam trabalharem na mesma perspectiva, não sentirão necessidade de mudar. É necessário alguma equipe ter êxito por um período prolongado para criar a necessidade de mudança”.



Sandro Sargentim
– Este pesquisador das ciências do futebol revela que “temos dois [tipos de] profissionais que aplicam treino: um, os ex-atletas que não se preocupam com nada de novo e acham que nada tem muita importância além daquilo fizeram quando jogavam, sem inclusão de nenhuma atualização. Outro, os professores de Educação Física, que não aprendem nada na universidade de como se montar sessões de treino [especificamente aplicados ao futebol]”. Portanto, na opinião do Prof. Sandro Sargentim, os profissionais do futebol entram no mercado despreparados, recebem seus salários, mas investem pouco em cursos de formação ou especialização no futebol.

Eduardo Barros – Na opinião deste gestor técnico de campo e colunista da Universidade do Futebol, “a principal questão é administrativa. Geralmente, dirigentes do futebol brasileiro assumem que sabem tudo acerca da modalidade. Presos à crença do domínio (apenas aparente) do jogo e suas interações e inter-relações, realizam uma sequência de decisões equivocadas em toda a cadeia produtiva de um clube de futebol. Não exigem integração entre categorias e comissões técnicas, não acreditam que o bom jogador possa ser formado, ‘mimam’ os potenciais (habilidosos) jogadores, contratam e demitem sem critérios, enfim, desconsideram atitudes fundamentais para o exercício de um projeto de futebol sustentável”.

Diante da postura inadequada dos gestores, Eduardo Barros acredita que ela “gera um movimento em cadeia no ambiente/contexto do clube em que cada profissional age com absoluta insegurança, faz somente o seu trabalho, busca a vitória a qualquer custo e que evita o novo, pois, por desconhecê-lo, teme o fracasso. Comportamentos que não combinam com um trabalho integrador e interdisciplinar”.


Rodrigo Bellão – Para o treinador da base da Portuguesa de Desportos, há muitos dogmas e paradigmas no futebol que precisam ser mudados. Um dos mais importantes deles é aquele que prega o resultado em primeiro lugar, desconsiderando-se os processos. Ele afirma: “Não se considera qualquer trabalho no futebol, até mesmo nas categorias de base, se não houver bons resultados de jogos em um espaço de no máximo até um ano”.

Concorda com a tese de que “a falta de conhecimento de quem comanda e dirige o futebol também é um grande problema”. E conclui: “Ainda há preferência de muitos [dirigentes] por recrutarem profissionais que foram bons ex-atletas para trabalhar na função de treinador. Às vezes me perguntam onde eu joguei para ser treinador. É difícil de ser aceita, mas a minha resposta é: ‘na academia’, estudando o futebol. Não que o ex-atleta não possa ser um bom treinador, mas acredito que somente a sua experiência, hoje em dia, não é tudo o que se necessita para ser um bom treinador. Os estudos são importantes também”.

Bruno Pivetti –
Este profissional e autor do livro Periodização Tática é bastante crítico e contundente sobre o tema em questão: “Precisamos de uma reforma urgente! Mas para isto é necessário sair do senso comum. Afinal, como dizia a já batida frase de Albert Einstein, ‘Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes’. Ou seja, precisamos sair do senso comum! Porém, não acredito que isto seja um dever exclusivo dos treinadores, mas sim de todos aqueles que estão inseridos no meio esportivo, a começar pelos acadêmicos formadores de profissionais e de opiniões. Digo isto porque por experiência: os profissionais inseridos na prática já se deram conta da necessidade vital do conhecimento teórico para auxiliar no processo organizacional coerente do cotidiano do futebol tanto na formação, quanto no profissional. E isto é evidenciado pela presença cada vez mais constante de profissionais jovens, recém saídos da universidade em clubes de futebol brasileiros".



"Infelizmente, em nosso país, existe um verdadeiro abismo entre a teoria, formada pelos membros da academia, e a prática, formada em sua maioria por ex-jogadores e/ou profissionais de característica mais empírica, que suportam sua rede de conhecimento pelas experiências vividas e não em um aporte de cunho mais científico", acrescenta.

O Prof. Bruno Pivetti detecta preconceitos e um conseqüente distanciamento entre os considerados práticos (ex-atletas) e os teóricos (acadêmicos que trabalham ou estudam o futebol). Estes, muitas vezes, assumem um ar de superioridade, por conta de sua formação e aqueles, protegidos pelas suas experiências como atleta, não aceitam teorias que possam fundamentar ou modificar as suas práticas, impedindo a conquista de novas aprendizagens e evolução. Por isso, conclui: “Pronto! Está feito o distanciamento provocando a ausência de trocas de experiências e informações que potencialmente beneficiariam ambos os lados”.

Bruno Baquete – Este treinador da base do Corinthians e também colunista da
Universidade do Futebol adota a constatação de René Simões sobre o Barcelona (“banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo e metodologia de trabalho”) para solucionar também os problemas do futebol brasileiro. Embora seguir este caminho de solução seja algo óbvio, entende que esta visão “está muito distante da visão limitada que os gestores brasileiros (de campo ou não) têm sobre o jogo”. E Bruno Baquete bota ainda o dedo na ferida do trabalho realizado por muitos treinadores conservadores nas categorias de base dos clubes brasileiros:

 “Hoje mesmo na base temos muitos treinadores que não enxergam além de seus palavrões e se orgulham em dizer que tudo isso que a
Universidade do Futebol discute é coisa da Europa e que não se aplica ao nosso futebol. Isso é triste! E mais triste ainda é ver certos profissionais fazendo as mesmas coisas há 20, 30, 40 anos e quando um profissional chega com novas idéias é massacrado e não tem espaço!”.

Baquete finaliza comentando sobre os avanços que ocorrem em muitas outras áreas, comparando com o que ocorre no futebol. E questiona: “Por que isso [avanço] não ocorre em nosso futebol? Por que não pegamos os exemplos e seguimos ao invés de ficarmos parados no tempo?”.

Augusto Moura – Já para o membro do departamento de captação de atletas do Coritiba, “é altamente complexo apontar motivos e críticas aos clubes nacionais quanto ao sucesso ou não das metodologias utilizadas em suas categorias de formação.” Mas aponta alguns aspectos que considera importantes e que trariam benefícios ao futebol de forma geral. São eles: “valorização profissional; infraestrutura adequada; recursos financeiros e materiais; revisão de regras e regulamentos dos torneios de base e escolas de futebol no Brasil; constante oportunização aos cursos e eventos de capacitação e reciclagem; plano de cargos e salários; profissionalização das ferramentas de observação, captação e promoção de talentos; e abastecimento contínuo do banco de dados.”

Ele acredita também que podemos alcançar vantagens competitivas aplicando consagrados princípios empresariais, como por exemplo: “análises de cenário que destrinchem ameaças e oportunidades, além de pontos fortes e fracos existentes.” Neste sentido afirma que “vale traçar um paralelo com o futebol e também pesquisarmos como estão atuando e se organizando nossos concorrentes nacionais, sul-americanos e europeus. Certamente, esse prognóstico nos proporcionará discussão, reflexão e revisão de mecanismos metodológicos.”

E complementa: “Por isso, a iniciativa de estabelecer princípios e criar hábitos administrativos dentro dos departamentos que compõem um clube de futebol é extremamente necessário no intuito de sistematizar e padronizar metodologias, criando assim, maneiras de controlar e monitorar as variáveis.”



quinta-feira, 22 de março de 2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 1


Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 1



René Simões, que assume o departamento de formação de atletas do São Paulo como diretor técnico, cobra avanço metodológico e uma reflexão filosófica sobre o trabalho desenvolvido no Brasil



Equipe Universidade do Futebol

O São Paulo Futebol Clube anunciou recentemente a contratação de René Simões como novo diretor técnico do departamento de formação de atletas. Este conhecido treinador, formado em Educação Física e membro do painel de instrutores da FIFA, está iniciando o seu trabalho no Centro de Formação de Atletas (CFA) Laudo Natel, em Cotia (SP), e futuramente, espera-se, será o responsável pela integração entre o elenco profissional e as equipes de base.

Logo em sua primeira entrevista ao site oficial do São Paulo, Simões enalteceu a estrutura excepcional já existente, mas sem deixar de destacar a necessidade da correta aplicação dos conhecimentos dos profissionais envolvidos no projeto do clube.

Na avaliação dele, o clube deve retomar o seu padrão de qualidade próprio, desenvolvendo um “jogo bonito”, mas acima de tudo coletivo, com o objetivo da vitória.

 “O São Paulo é uma marca grande e por isso tem que ter projeto grande. Vou ter que ouvir muito. Talvez eu saiba como fazer, tenho minhas idéias, mas preciso conversar e ouvir muito todos os profissionais envolvidos. Conversei com o presidente, com os diretores, com o Leão. Quero conversar muito com ele e com todos os treinadores da base”, acrescentou Simões, que disse já vir se preparando para essa mudança na nova gestão de sua carreira.

Semanas atrás, o experiente gestor técnico fez uma visita às estruturas do Barcelona na Espanha. E, durante os quatro dias conhecendo profundamente La Masia, o local cada vez mais famoso onde o clube forja seus jovens talentos, e o departamento de futebol principal, Simões teceu alguns comentários em sua página pessoal de uma importante rede social a respeito da experiência:

“...um banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo, e metodologia de trabalho. Me entristece ao verificar que tudo isso no Brasil é considerado fútil, inútil e teórico demais. Paciência! Eles estão dando banho de futebol. Assisti à goleada de 5 x 0 da Espanha na Venezuela. Parecia profissionais contra juvenis tamanha a diferença. A bola era escondida ao adversário. Só podiam correr e dar a saída depois dos gols. Ainda há tempo para voltarmos a fazer o que fazíamos com tanta facilidade. Brasil e brasileiros, queiramos mais”.

Espanha 5 x 0 Venezuela - Amistoso Internacional - 29/02/2012

Com base nestas considerações de René Simões, a Universidade do Futebol ouviu uma nova geração de profissionais brasileiros que atua em clubes e instituições acadêmicas, propondo uma reflexão crítica sobre a atual realidade do futebol brasileiro. Para isso, formulou a todos eles as três seguintes questões abertas:

1) Qual é o seu sentimento ao tomar contato com o depoimento de René Simões comparando o que é feito no Barcelona e aqui no Brasil?

2) Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?

3) Como você avalia que poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos nossos atletas, em função das altas exigências competitivas deste século XXI?


Confira o que pensam Wladimir Braga, preparador físico da equipe sub-17 do Atlético-MG; Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians; Sandro Sargentim, coordenador do curso de pós-graduação em Ciências do Futebol da FMU; Eduardo Barros, assistente técnico do Paulínia; Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa de Desportos, Bruno Pivetti, preparador físico da equipe principal do Audax São Paulo; Bruno Baquete, assistente técnico da equipe sub-17 do Corinthians e Augusto Moura, membro do departamento de captação do Coritiba.

Dividimos esta matéria especial em três partes. A seguir, a primeira delas, contendo a opinião destes oito profissionais em relação à primeira pergunta*:

Qual é o seu sentimento ao tomar contato com o depoimento do René Simões comparando o que é feito no Barcelona e aqui no Brasil?

Wladimir Braga – Compartilha da opinião do professor Renê Simões e acha que um dos motivos de nossa decadência “está relacionado à falta de conhecimento e entendimento dos gestores do futebol brasileiro a respeito do processo de formação. Não entendem que o foco no processo é que deve predominar frente aos resultados passageiros”.

Leandro Zago – Acredita que “não há um sentimento; tudo está muito claro. É preciso buscar em um curto prazo a real identidade do futebol brasileiro e [definir] que tipo de atleta queremos. Devemos respeitar também a questão cultural ligada a cada região do país e entender como ela influencia no atleta que estamos recebendo e no processo que vamos desenvolver.” Ele acredita também que devemos fazer com que os nossos atletas sejam o melhor que puderem ser e que não devemos "construir" jogadores europeus – devemos buscar "construir" grandes jogadores brasileiros.

E complementa: “Diz-se que o futebol brasileiro é um futebol de passes rápidos, dribles, baseado no talento individual. Com isso eu não concordo. Podemos até ter sido um dia, mas atualmente nossos atletas não conseguem manifestar essas capacidades no alto nível, fora do país, quando enfrentam jogadores com outra formação e os jogos dentro do país apresentam uma velocidade inferior ao alto nível europeu. Isso sim penso que possa ser mudado com metodologias mais específicas ao futebol, e não com aquelas que têm origem no atletismo”.

Sandro Sargentim – Para este profissional o grande problema do futebol brasileiro é a desatualização de seus profissionais. “Não temos formação para os profissionais que aplicam treinos para os futebolistas brasileiros, seja na formação, ou no alto rendimento”.

Eduardo Barros – Expressa um sentimento de esperança, porém alerta que “a metodologia de treinamento desatualizada, o privilégio à vertente física do jogo, o imediatismo das vitórias em detrimento ao bom futebol e, acima de tudo, a gestão incompetente voltada ao interesse individual são fatores determinantes em nosso posicionamento atual no futebol mundial.” E complementa: “René Simões e todos os demais profissionais do futebol que se propuserem a reverter este cenário terão muito trabalho pela frente”.



Rodrigo Bellão – Ao concordar com as inquietações de René Simões, afirma que “com o passar dos anos, paramos no tempo; acomodamo-nos”. E alerta para o perigo de acreditarmos que o Brasil é um celeiro inesgotável de craques e que “a todo o momento, irão aparecer atletas com extrema qualidade técnica e que isso basta para continuarmos no topo”. Constata ainda que o futebol e a maneira de jogar mudaram. O futebol evoluiu e fizemos pouco para nos adaptar. E recorre a Charles Darwin para provar sua afirmação:

“Não é o mais forte ou o mais inteligente da espécie que sobrevive, mas sim o que melhor se adapta”. Neste sentido cita o Barcelona como um clube que soube se adaptar aos novos tempos. E completa, comentando sobre as categorias de base dos clubes, que segundo ele “já estão se adaptando e mudando diversos conceitos e paradigmas”. Mas acredita que apenas em “mais uns cinco ou seis anos começaremos a perceber algumas mudanças no nosso futebol”.

Bruno Pivetti – Considera René Simões “um dos treinadores mais dotados de discernimento do futebol brasileiro.” E pensa que declarações como esta significam “uma luz de esperança acerca do futuro do futebol brasileiro.” Afirma que “apesar do René representar uma geração de treinadores que se acomodou e se apoiou na resolução individual dos problemas de jogo de jogadores fora de série existentes à época, sem se preocupar com a organização global do processo de formação e das vertentes mais coletivas do jogo”, acredita que este treinador tenha notado o atual ostracismo em que está entregue o futebol brasileiro. E reclama de uma urgente e melhor preparação de dirigentes e treinadores.

“No Brasil, acostumamo-nos a pensar que o fora de série é quem ganha e resolve o jogo.” Enquanto isso, em países com Espanha, Portugal e Alemanha, por exemplo, “não só o jogo e suas variações táticas são matéria de estudo, mas também o processo de operacionalização do jogo em si.” É da opinião de que estamos muito atrasados em relação a estes países. “Não consigo conceber um país de quase 200 milhões de pessoas, em que pelo menos boa parte está inserida na cultura do futebol, e uma significativa quantia pratica o futebol na maior parte de seu dia desde a infância, ter uma eficiência tão baixa no que concerne a formação futebolística”.

Pivetti acredita que “se não fosse o futebol de rua, que fornece um vasto repertório cognitivo-emocional e sensório-motor aos jogadores, estaríamos em um quadro de sucateamento muito mais agravado”. Considera ainda que, por mais paradoxal que seja, “o que está salvando nosso futebol é a desgraça de muitas famílias inseridas na pobreza, em que as condições fundamentais de educação e lazer não são respeitadas e por isto a criança/jovem fica a jogar 6-8 horas por dia.”

Sobre os treinadores brasileiros, também é enfático: “Se dependêssemos de nossos treinadores, acredito que o Brasil estaria equiparado ao fenômeno que acontece na Itália, por exemplo, em que o futebol é normatizado por uma cultura fisicista, na qual a vertente arte da modalidade é sufocada por indivíduos que anseiam o perfeccionismo físico sobrevalorizado nas falidas culturas soviéticas, nazistas e fascistas. Louvado seja o nosso futebol de rua, que apesar de decadente, ainda existe! E conclui com uma afirmação de impacto: “É mais fácil, nos dias de hoje, um jovem futebolista ser ‘estragado’ nos clubes do que propriamente formado.”

Bruno Baquete – Afirma categoricamente: “Há algum tempo estamos discutindo os resultados e o futebol bonito apresentado pelo Barcelona e pela seleção da Espanha. Alguns atribuem ao fato de ambos terem excelentes jogadores, porém se esquecem de olhar para o que realmente importa que é o treino e de como ele influencia na formação de uma real cultura de jogo que explicita nessas equipes muito mais que um jogar, uma filosofia que tem embasamento na cultura, religião, história do clube e país.”

Augusto Moura
– Destaca o fato de um profissional como René Simões, formado em Educação Física, com vasta experiência prática e passagens em dezenas de clubes nacionais e internacionais, além de seleções, acaba de receber uma bela e desafiadora oportunidade de auxiliar no processo de gestão das categorias de base de um clube brasileiro. “René Simões possui experiência e discernimento suficientes para as constatações feitas.” E enaltece a visita deste profissional ao Barcelona, conhecendo seu plano de ação e sua metodologia aplicada ao longo dos anos, porém sem deixar de salientar que “o Brasil possui incontáveis centros de formação de atletas, milhares de profissionais capacitados e dezenas de clubes que possuem departamento de categorias de base amplamente estruturados.”

Mas complementa dizendo que quantidade não é sinônimo de qualidade. “Talvez esteja aqui nosso maior problema” adverte. Em relação ao futuro é otimista: “O aumento de simpósios, cursos de especialização, acesso aos livros, artigos e constantes debates tornam cada vez mais saudável a formação de opinião e construção do conhecimento no Brasil. Esses fatos servem como premissa para passos mais consistentes e seguros na caminhada rumo a otimização do processo de formação integral de atletas nas categorias de base em clubes brasileiros.”


terça-feira, 13 de março de 2012

O Sentimento Esportivo e a Educação


Rendimento escolar e rendimento esportivo para crianças: uma breve análise
Como trabalhar a paixão esportiva em benefício da vida escolar de jovens que são envolvidos na prática do futebol em escolinhas de iniciação e são movidos pelo sonho da profissionalização?
Jorge Efrahim Magalhães Berto*
O Brasil é o país do futebol onde uma paixão, que contagia milhões de pessoas em volta de um clube ou da nossa seleção, vem sendo transmitida de geração em geração; é muito comum encontrarmos situações diversas como a de pais que acompanham a emoção esportiva dos seus pais, filhos que transmitem o mesmo sentimento a seus filhos, sentimento este que mobiliza diversos pontos de discussão gerando debates acalorados e provocadores. Na medida em que a paixão transmitida de pai para filhos, de geração a geração contagia, em alguns casos enlouquece, bastando observar as reações das pessoas diante de finais de campeonato, sentimentos e emoções explicitamente demonstrados, bem observados nos anos que se realizam as Copas Mundiais de Futebol. Como explicar esta paixão? Esta maneira de estar ligado a uma modalidade esportiva?
“Marcel Mauss afirma que, pela imitação, os indivíduos de cada cultura constroem seus corpos e comportamentos [...] Esse corpo, que pode variar de acordo com o contexto histórico e cultural é adquirido pelos membros da sociedade por meio da imitação prestigiosa. Os indivíduos imitam atos, comportamento e corpos que obtiveram êxito e que são bem-sucedidos”. (Anjos, J.L. Educação Física, Corpo e Movimento, 2009, p.23)
Encontram-se aí envolvidos os aspectos históricos derivados de um esporte, como em um processo sócio-cultural.
“Ao transformar a natureza, os homens criam cultura, refinam, cada vez mais, técnicas, instrumentos – saber, enfim – e ao transformar a si mesmos: desenvolvem as suas funções mentais (percepção, atenção, memória e raciocínio) e a sua personalidade (sua maneira de sentir e atuar no mundo).” (Chicon, F. Educação Física, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano, 2009, p. 11)
Como trabalhar essa paixão esportiva em benefício da vida escolar de nossas crianças que apreciam e são envolvidas na prática do futebol em escolinhas de iniciação e que são movidos pelo sonho de um dia tornarem-se um jogador de futebol?
O abandono escolar é significativo do valor demonstrado por esta prática esportiva, como a repetência na escola; ao lado da presença na escola por imposição dos pais, convivem com o ideal de tornarem-se jogadores em grandes clubes e com retorno econômico fácil. Como motivar a vida escolar e provocar uma reflexão crítica da situação?
A opção por esse tema é a crença de que há importância em um bom rendimento escolar na vida das crianças, que muitas vezes não percebem a pseudo-ilusão a respeito da vida dos jogadores de futebol e que são influenciadas pela mídia, que expõe uma pequena porcentagem da real vida destes atletas; justifico desta forma o interesse particular em relatar uma realidade próxima, tema este que, proporcionado por experiência pessoal, por ter feito parte dessa realidade, se torna essencial.
A motivação para o rendimento escolar
O termo “rendimento” se aplica em áreas diversas, o que não deixa de ser interessante na medida em que o encontramos direcionado à Economia, à Educação e ao treinamento físico.
Paralelamente também encontramos em Figueiredo (2009, p.12) citando Pimenta (2000) que os caminhos de superação de um professor acontecem quando as necessidades pedagógicas são postas pelo real ou dia a dia escolares.
A experiência acumulada em um professor e sua visão do mundo é importante e principalmente porque o sistema esportivo é alimentado pela mídia; encontramos em Bracht (2009) que nada é feito “[...] na perspectiva de orientar as políticas esportivas nacionais com vistas a garantir a plena cidadania dos indivíduos no plano das práticas corporais do movimento [...] “(Educação Física e Escola, p.55)
O todo desta problemática é importante, na medida em que serve de alerta, para que as crianças, que não terão a oportunidade de fazer uma carreira profissional futebolística, possam direcionar-se em outro rumo, de forma bem sucedida e menos dramática, da que acontece com muitos jogadores, que hoje sofrem com a realidade de terem optado por abandonar os estudos confiando no sucesso, fama e retorno financeiro que não conseguiram.
A nossa responsabilidade como professores é evidenciar a realidade existente às crianças em idade escolar, e a de despertar o interesse e motivação cultural e intelectual com o intuito de deixá-los mais conscientes e críticos para com a realidade do mundo do futebol, que não é evidenciado pela mídia, provocativa da mistura de sentimentos e sonhos das crianças, iludindo-as para uma realidade que, mesmo que não seja impossível, é muito difícil de alcançar.
Por outro lado, há exemplos de vários jogadores com uma vida escolar em nível acadêmico superior, que conseguiram conciliar a carreira com os estudos – é uma forma de exemplificar a necessidade de se resguardar perante o futuro com a possibilidade de dar continuidade a uma vida de forma estruturada, evitando as surpresas desagradáveis que muitos jogadores não pensam quando estão atuando.
Exemplos de atletas profissionais como Tostão, Sócrates, Falcão e Rogério Ceni, podem servir de parâmetro à necessidade de um rendimento escolar. Particularmente, lembranças pessoais trazem à memória a imposição de um bom rendimento na escola e o conhecimento de notas para que os treinamentos fossem levados adiante, alertando para a realidade da época em que o 2º grau era questão de sobrevivência, o que em nossos dias transformou-se para a importância de uma formação superior, devido ás exigências do mercado, onde a tensão mostra-se, não pela nota em si, mas pela possibilidade de ficar fora dos treinamentos.
Como usar exemplos de jogadores profissionais para estimular as crianças, que ainda estão em formação escolar?
Os ex-jogadores que encerram a vida esportiva muitas vezes não têm a oportunidade de continuar nos campos como diretores, supervisores ou treinadores. Na maioria das vezes não têm nem o direito de escolha, aceitando, assim, a primeira oportunidade de trabalho que aparece. Poderiam estes exemplos estimular atletas que ainda estão em formação, a explorarem como motivação o não seguimento do mesmo caminho? A vivência prática de um ex-jogador de futebol não proporciona nenhuma garantia de entidades, clubes ou mesmo do governo, que assegure uma continuidade em sua área de atuação.
Órgãos de controle, como o CREF, os taxam de leigos e os interditam de exercer a profissão por não serem formados em Educação Física, desprezando todo o aprendizado que receberam na prática.
Encontramos em Bracht (2009) que,
“[...] no intuito de realizar o Panamericano na cidade do Rio de Janeiro, não foram apresentados motivos educacionais, da saúde e, por incrível que pareça esportivos. Os motivos estão atrelados ao plano econômico: fomento do turismo; melhoria na infra-estrutura da cidade; geração de empregos; construção de estádios e arenas que no futuro, alimentarão negócios esportivos, etc...” (Educação Física e Escola, p.54)
Mas como usar esses exemplos para estimular nossos atletas que ainda estão em formação a explorarem esses exemplos e se motivarem a não seguir o mesmo caminho?
Algumas crianças com um simples diálogo entendem a mensagem e se esforçam mais na vida escolar; outros só entendem debaixo de imposição e até mesmo com alguns castigos. Uma forma de autoritarismo versus autoridade familiar.
A nossa responsabilidade como professores é evidenciar a realidade existente em crianças em idade escolar, é a de despertar o interesse e motivação cultural e intelectual com o intuito de deixá-los mais conscientes e críticos para com a realidade do mundo do futebol, que não é evidenciado pela mídia, provocativa da mistura de sentimentos e sonhos infantis, iludindo-as para uma realidade que, mesmo que não seja impossível, por vezes é muito difícil de alcançar. Ainda em Figueiredo (2009, p.27) encontramos que somos bastante responsáveis pela formação humana de nossos alunos.
Alguns pais recorrem ao professor, como que num pedido de socorro, percebendo afinidades e identificação de seus filhos, confiando à missão de auxiliá-los no resgate do ano letivo de seus filhos. Assumir essa missão acontece por termos a consciência da importância de uma vida escolar bem sucedida no futuro de nossos atletas, mas é necessária uma estratégia, mas também de resultados. Comprometer o trabalho profissional nos leva a ter cautela, pois alguns alunos podem ser indispensáveis no esquema tático da equipe. Situações especiais nos sugerem oportunidades diferenciadas para um professor.
A consciência da importância da vida escolar é uma estratégia necessária a nós professores e os resultados desta missão podem fazer com que os alunos conquistem melhores resultados em seu percurso escolar sem o abandono do mesmo. Na maioria das vezes, o conhecimento do rendimento escolar de cada criança, por falta de um profissional em Pedagogia para acompanhamento, implica em um posicionamento mais efetivo do professor e em períodos de transição, por vezes delicado, a falta de conhecimento do rendimento escolar do aluno leva o professor a atitudes diferenciadas.
Acreditamos que, uma das formas de conseguir êxito, pode ser aplicada da seguinte forma, em sete etapas que aqui descrevemos:
1- Ter em mãos as informações sobre as competições ou viagens a serem feitas pela equipe.
2- Verificar se existem atrativos suficientes para serem usados como forma de convencimento a um eventual sacrifício.
3- Ter o mínimo de aproximação possível ou o conhecimento de quem são os pais de cada atleta.
4- Reunir com a Diretora para esclarecimentos da real situação oferecendo auxílio.
5- Convocar uma reunião com os pais daqueles que estão com as notas comprometidas, respeitando se houver qualquer tipo de oposição à nossa ajuda.
6- Se reunir com os atletas que estão com as notas baixas e propor um acordo.
7- Seguir o acordo feito anteriormente para com aqueles que não o cumpriram, para garantir a eficácia do método nos próximos anos quando necessário.
Ao concluirmos, poderíamos afirmar a eficácia dessa estratégia aplicada ao futebol, utilizando os critérios descritos, como “moeda de troca”, na medida em que esse é realmente um item importante na vida do aluno, podendo ajudá-lo na obtenção de um melhor rendimento na vida escolar, orientando-o não somente no ambiente de treinos, mas também em sua rotina escolar, e não só com futebol, mas em qualquer outro esporte onde exista o amor pelo que se faz, o comprometimento com suas responsabilidades, mas também com seus sonhos e objetivos que ainda se deseja realizar e alcançar, e que sendo feitos ou buscados sem o amor necessário para alcançá-los, esses objetivos passam a estar comprometidos com o fracasso.
Afinal, encontramos em Della Fonte que, “[...] o professor não teria o intuito de, a partir da especificidade de sua área, levar os alunos a amarem o conhecimento? Mas como ele pode fazer isso, se ele próprio, muitas vezes, não tem uma relação amorosa com o saber?...” (Educação Física, Educação e Reflexão Filosófica, p. 16)
Conclusão
Esta é a realidade daqueles que não concluíram seus estudos e as dificuldades particulares de cada um para sobreviverem do pouco que recebem, por não terem escolaridade suficiente que proporcione lutar por melhores oportunidades e que não podem ser esquecidas nos momentos em que se mostra necessário dialogar e conscientizar os alunos.
Poucos serão aqueles que se apropriam de bons trabalhos com uma escolaridade comprometida e sem alguém que possa auxiliá-los.
Desta maneira, estamos convencidos de que os alunos têm de ser conscientizados daquilo que almejam, para que não se mostrem despreparados para uma possível mudança de planos na vida pessoal e escolar.
Bibliografia
ANJOS, J.L. Educação Física, Corpo e Movimento. Vitória: UFES-NEAAD, 2009
BRACHT, V. Educação Física e Escola. Vitória: UFES-NEAAD, 2009
CHICON, F. Educação Física, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano. Vitória: UFES-NEAAD, 2009
DELLA FONTE, S. Educação Física, Educação e Reflexão Filosófica. Vitória: UFES-NEAAD, 2010
FIGUEIREDO, Z. Educação Física, Formação Docente e Currículo. Vitória: UFES-NEAAD, 2009.