sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Emcruzilhada do Futebol Brasileiro


A Encruzilhada do Futebol Brasileiro



Em fechamento de série especial da Universidade do Futebol, Paulo André critica ensino no processo de formação de atletas e círculo fechado a novas idéias.

Paulo André Cren Benini*

Zagueiro do Corinthians.

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:
tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;
fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;
e taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.
Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.
Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.
Até aí, tudo bem.
Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.
Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparado naquela época era vender atletas à Europa para resolver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.
Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.
Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente.
Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.
Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.
Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc.… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.
Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.
A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.
A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.
Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos seqüência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.
Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemo-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.
Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc.…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc.…).
Estamos atrasados.
Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.
O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas idéias.
Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.
Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.
Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.
Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.
Talvez seja à hora de quebrarmos outros paradigmas.
Admitir que o modelo esteja ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.
Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!
O Brasil se encontra em uma encruzilhada.
Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.
Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.
Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.
Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.
Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.
Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.
Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar...

Paulo André

*Nascido em 20 de agosto de 1983, Paulo André Cren Benini iniciou sua carreira como infantil do São Paulo Futebol Clube, em 1998, onde permaneceu até 2001, conquistando dois títulos paulistas de categoria de base (2000 e 2001). Em dezembro de 2001, foi transferido para o Centro Sportivo Alagoano, ficando por apenas três meses.

Em março de 2002, Paulo André voltou para o estado de São Paulo, desta vez para atuar no Águas de Lindóia Esporte Clube. Lá, foi campeão paulista de juniores da Série A-2 e teve sua primeira chance como profissional, ajudando o clube a subir da quinta para a quarta divisão estadual. Em janeiro de 2003, transferiu-se para os juniores do Guarani Futebol Clube, onde foi promovido aos profissionais. Em julho de 2004, sofreu com uma contusão no púbis, que o deixou afastado por seis meses.

Em junho de 2005, Paulo André foi transferido para o Clube Atlético Paranaense, onde foi consagrado como um dos cinco melhores zagueiros do Brasil, pela Revista Placar. Em 2006, recebeu o título de Melhor Zagueiro do Estado, pela Federação Paranaense de Futebol.

Aos 22 anos, em junho de 2006, o atleta firmou contrato de quatro anos com o Le Mans Football Club, onde participou por três anos dos campeonatos: Francês, Copa da França e Copa da Liga. Em julho de 2009, Paulo André foi apresentado como nova contratação do Sport Club Corinthians Paulista, em um empréstimo que iria até agosto de 2010.
Mesmo atuando como reserva, o zagueiro destacou-se nas jogadas aéreas, marcou três gols, e teve seus direitos econômicos comprados pelo time paulista, firmando novo contrato que vai até julho de 2012.

O texto foi retirado na íntegra do site oficial do jogador.

Aposentadoria dos Campos




Aposentadoria dos Campos:

O difícil processo de transição na vida de um atleta profissional.

Idade, novos interesses, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio e problemas de lesão são razões importantes para a decisão.



Marcelo Iglesias



Um dos pontos cruciais na carreira de um atleta profissional é estabelecer o momento certo para se aposentar. Por ser uma atividade que exige muita dedicação e preparo, são poucos os casos de atletas que conseguem atuar em bom nível até mais do que 30 anos de idade. Por isso, é importante que passem por um processo correto de ajuste nas esferas de vida ocupacional, financeira, social e psicológica, pois esse processo pode ser acompanhado por problemas emocionais.
Atualmente, não são incomuns os exemplos de ex-jogadores que, sabendo da sua condição inapropriada para seguirem dentro de campo, decidem permanecer ligados ao futebol de outra maneira, seja como técnicos, dirigentes, preparadores de goleiros, etc. Outro ramo procurado por alguns é o da política, visto o carisma que certas figuras da modalidade possuem.
Para tornar-se um atleta de elite, no mundo moderno, é necessário ter disciplina para treinar por muitos anos, dedicação quase que exclusiva para o esporte e, em geral, iniciar a carreira em idade muito precoce. Em “O lado mental do futebol”, capítulo do livro "Ciência do Futebol", de autoria da nutricionista Isabel Guerra, doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os autores afirmam que é grande a expectativa dos jogadores de alto nível de se tornarem atletas de sucesso nacional e internacional, já que essa conquista mobiliza a atenção de investimentos financeiros e tem grande espaço na mídia. Nesse contexto, os atletas profissionais ganham como conseqüência, vantagens econômicas, notoriedade e, de fato, prestígio. Para os atletas de alto rendimento, o esporte é a energia que move a vida, é o marco de sua identidade.
Entretanto, após anos de dedicação, por razões diversas, defrontam-se com o processo final de carreira do esporte. É quando a maioria dos jogadores se conscientiza de não ter sido preparado para enfrentar a vida pós-esporte, pois negligenciou esse processo. Dessa forma, a aposentadoria pode gerar uma situação de estresse e de crise de identidade para muitos atletas.
Para a Federação Européia de Psicologia do Esporte e Atividades Corporais (FEPSAC), identidade esportiva deve ser conceituada como a força e a exclusividade em que o esportista identifica a si mesmo com o esporte; essa identificação exclusiva é fortalecida pelo reconhecimento social e sucesso econômico que acompanham os resultados positivos da carreira esportiva. Sendo assim, terminar a carreira esportiva pode se tornar um dos momentos mais difíceis da vida de um atleta, já que a mudança no estilo de vida requer uma adaptação de papéis sociais e profissionais.
A maioria dos atletas não percebe a importância de outras fontes de identificação em outros âmbitos da vida (outra profissão ou atividade), indispensáveis para a manutenção do equilíbrio durante e ao término da carreira. Essa percepção errada da realidade, em muitos casos, é ratificada por técnicos, dirigentes e membros da família. Em “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, Kátia Rubio afirma: “na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais, muitas vezes o atleta se vê identificado com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista, aquele capaz de realizar grandes feitos, dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais”.
A transição de carreira esportiva significa mudança de uma fase da carreira para outra, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta, e da necessidade de recursos para lidar com o momento. De acordo com o que é apresentado em “Career transition and concomitant changes in athletes” (“Transição de carreira e concomitantes mudanças em atletas”, em tradução livre), a carreira esportiva é composta de uma seqüência de sucessivas fases, com períodos de transição, identificadas como: a transição do esporte infantil para o juvenil, seguida da transição para o júnior e, finalmente, para o adulto; a transição do esporte amador para o profissional e a transição para o término da carreira esportiva. Cada uma requer exigências específicas e ajustes nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta e, fundamentalmente, sempre será necessário o esforço pessoal para a adaptação à nova fase.
Dessa forma, a natureza desse ajustamento à aposentadoria, para cada atleta, dependerá da interação de múltiplos fatores. Entretanto, um fator isolado não garante se um ajustamento será fácil e tranqüilo. Somente uma análise da complexa interação entre diversos fatores é que levará à compreensão de como determinado atleta conviverá com o fato de se aposentar.
Um dos pontos que deve ser levado em consideração é que, por vezes, o jogador encerrará a sua carreira de maneira voluntária, mas, em outras ocasiões, isso poderá ocorrer forçadamente. Com isso posto, pode-se citar como algumas das causas das aposentarias de atletas profissionais: a idade, novos interesses emergentes, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio, problemas de contusão ou de saúde, e a ausência do seu nome entre os relacionados para os jogos.
Partindo do fato de que a transição de carreira esportiva é um processo, Jim Taylor e Bruce Ogilvie desenvolveram o “Modelo Conceitual da Transição de Carreira”, que integra, além da informação teórica da Psicologia do Esporte, a investigação empírica. De acordo com os estudiosos, as características da transição incluem: duração, mudanças de posição social, grau de estresse, desafios enfrentados e, fundamentalmente, a percepção de estresse nesse momento.
Determinadas áreas específicas, consideradas moduladoras do ajustamento ao momento da aposentadoria e facilitadoras de adaptação adequada, também podem ser avaliadas: percepção de controle; identidade esportiva; suporte social; experiências anteriores (outras transições); envolvimento com atividades relacionadas com esporte depois da aposentadoria; grau de planejamento profissional; status socioeconômico; habilidades (persistência, competitividade, metas, etc.); objetivos relacionados com esportes; e foco depois da aposentadoria.
Portanto, toda transição de carreira tem o potencial de ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte, em dezembro de 2008, com 79 ex-atletas de futebol e basquete, por meio de entrevistas semi-estruturadas, apontou que 75,9% dos indivíduos avaliados decidiram encerrar a carreira esportiva de forma voluntária. A transição de carreira ocorreu de maneira gradativa e natural, como eles mesmos citaram nas entrevistas. Para a maioria dos ex-atletas (68,4%), esse momento foi oportuno, ou seja, aconteceu na época certa, enquanto que, para 27,9% dos entrevistados, a decisão de parar de competir profissionalmente ocorreu muito cedo e de forma prematura.
Ainda segundo esse estudo, as causas mais freqüentes relacionadas à saída do esporte em ordem decrescente foram: idade (49,4%), surgimento de outros interesses (43,0%), mudanças no estilo de vida (17,7%), problemas de saúde (16,5%), problemas de lesões (15,2%), ausência de perspectivas futuras (13,9%), problemas de relacionamento com dirigentes (13,9%), "declínio dos resultados" (12,7%), cansaço psicológico (11,4%), relacionamento com o técnico (10,1%), cansaço físico (7,6%), relacionamento com a família (7,6%) e relacionamento com a equipe (3,8%).
Em relação às conseqüências emocionais por conta do processo de finalização da carreira esportiva, algumas emoções preponderaram. Em ordem decrescente: 50,6% dos ex-jogadores sentiram tristeza no momento da transição esportiva para uma nova carreira e 36,7 % se sentiram conformados. Além disso, a pesquisa apontou que 17,7% da amostra sentiram felicidade nesse momento, 6,3% se sentiram tensos, 5,1% sentiram medo, 5,1% ficaram deprimidos, 3,8% sentiram raiva, 3,8% ficaram ressentidos, 1,3% sentiram culpa e nenhum dos entrevistados fez referência a sentimentos de desespero.
Por fim, no que tange os aspectos físicos, a pesquisa indicou que, ao encerrar a carreira esportiva, 43% dos entrevistados tiveram a percepção de que a aptidão física piorou. Segundo dados coletados, o peso dos sujeitos aumentou e eles tornaram-se quase que totalmente inativos. A condição física não melhorou para nenhum dos avaliados.
Portanto, deixar a arena esportiva tende a ser um momento difícil da vida de um atleta, pois sempre requer adaptação de papéis sociais e profissionais. Fica claro que essa adaptação torna-se ainda mais difícil quando o atleta tem forte identificação com a figura de esportista. Em geral, apresenta dificuldades psicológicas e vivencia momentos de tristeza, depois de anos de exclusiva dedicação à carreira competitiva. Além disso, nota-se que a idade é um fator limitador da performance e desencadeador da aposentadoria, o que acaba levando a um sentimento de conformismo e, ao mesmo tempo, motivando para outros interesses e objetivos emergentes, tais como o desejo de poder passar mais tempo com a família.
Outro ponto relevante é a piora na saúde física dos ex-atletas e o quanto a diminuição planificada e gradativa da carga física a que foram submetidos durante o período ativo é necessária, ao se pensar na qualidade de vida pós-esporte.
Portanto, seria interessante que, tanto do campo científico, como por meio de uma iniciativa da direção dos clubes de futebol, fossem desenvolvidos programas de aposentadoria que tenham como objetivo principal capacitar atletas em transição de carreira a lidarem melhor com esse momento e, principalmente, utilizar esses programas no início da carreira para minimizar a ansiedade com relação ao futuro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 3


No fechamento desta série, profissionais discorrem sobre como poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos atletas

Equipe Universidade do Futebol

Nesta terceira e última parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a terceira pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, destacando a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro.

Como você avalia que poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos nossos atletas, em função das altas exigências competitivas deste século XXI?

Wladimir Braga – Para este professor e especialista do futebol é preocupante o que está acontecendo com a modalidade em nosso país. Afirma que não temos uma verdadeira “Escola de Futebol” e que hoje somos incapazes de definir o que seria a “Escola Brasileira de Futebol”. E conclui: “Penso ser este o ponto de partida. Se não mudarmos a concepção do futebol de base e retomarmos o desenvolvimento do esporte, estaremos fadados à mediocridade. Infelizmente este é o cenário”.

Leandro Zago – Sua proposta para este tema é bem ampla, porém apresentada de forma sucinta: “Temos que basear nosso processo de formação em uma permanente evolução da compreensão sobre o jogo e manifestação complexa (física - técnica - tática - mental) da performance. Todo o suporte das outras áreas que são fundamentais é também necessário. Precisamos criar na cultura de formação o aumento do interesse dos atletas em seu auto desenvolvimento permanente através do trabalho diário”.



Sandro Sargentim – Enfatiza que o despreparo e a falta de interesse de muitos profissionais “potencializam esse fenômeno de perda completa da hegemonia do futebol brasileiro dentro e fora das quatro linhas”. Também destaca que através de sua vivência e experiência em muitos clubes e com diversos profissionais de diferentes níveis, pôde chegar a uma conclusão: “aqueles que trabalham com o futebol brasileiro, em sua absoluta maioria, não aceitam nada de novo e atualizado, por medo ou por ignorância, e enquanto isso não mudar, esse abismo ficara cada dia maior”.

Eduardo Barros – Acredita que “para desenvolver esta tríade (inteligência, responsabilidade e qualidade) em função das altas exigências competitivas deste século, o treinamento da grande maioria das equipes necessitaria ser revisto e alterado de acordo com os principais referenciais teóricos que discutem a tendência da preparação do futebolista à luz da complexidade”.

Para o Prof. Eduardo Barros, “é fundamental que todas as pessoas direta ou indiretamente relacionadas à modalidade compreendam que para potencializar a evolução do nível de jogo de uma equipe (em qualquer escalão, da iniciação ao profissional), o treinamento necessariamente deve ser composto de "partes sistêmicas" do futebol e não de fragmentos do jogo de futebol”. E esclarece:

“Fragmentos do futebol são sessões de treino tradicionalmente realizadas, como: treinos físicos (resistência de sprint), treinos técnicos (finalização), treinos táticos (tático-sombra). Já as ‘partes sistêmicas’ do futebol compreendem sessões de treino que tem absoluta relação com o futebol. Exemplificando: treinamento com jogos, de diferentes situações do jogo (ataque, defesa, contra-ataque, bolas paradas, setores de recuperação da posse, setores de finalização, posse de bola etc.), que promovam melhorias individuais e coletivas dos comportamentos de jogo esperados pelo treinador”.

A conclusão do colunista da Universidade do Futebol é: “Como numa perspectiva sistêmica, treinam-se partes (fractais) do jogo de futebol, a inteligência de jogo é mais estimulada com um método de treino de maior qualidade e que pode promover grande responsabilidade na medida em que o ato de educar bem para a vida pode ser feito educando através do futebol e, assim, contribuir com a formação do cidadão, do possível jogador de futebol e, inclusive, do futebol brasileiro. Este, como diria René Simões, precisa de mais!”.



O que é um treino pautado na complexidade? Rodrigo Leitão explica!

Rodrigo Bellão – Este professor acredita muito na transformação do futebol através de investimentos na capacitação profissional de todos os seus agentes. “Os profissionais que atuam na nossa área não podem possuir ideias imutáveis em suas cabeças. Estudar e refletir acerca do jogo, do modelo do jogo, são coisas fundamentais para o futebol moderno. E para isso não basta somente ficar no jogo: é preciso trazer as novas ideias aos treinamentos. E sozinho ninguém faz nada. É necessário buscar o conhecimento, ir atrás de ajuda e opiniões de especialistas e estudiosos”.

Mas Rodrigo Bellão reconhece que existem barreiras entre os clubes e as universidades. “As discussões sobre a modalidade devem ocorrer sempre, por um bem maior da evolução do futebol em nosso país. As discussões nos levam a reflexão e, consequentemente, nos levam à evolução também”. E para justificar esta tese, cita Portugal como exemplo. “Basta verificar a evolução do jogo em um país como Portugal, onde a academia possui um espaço mais próximo aos clubes”.

Ele comenta que este país, inexpressivo em termos futebolísticos em décadas passadas, a partir dos anos 2000, cresceu, despontando entre as principais seleções e revelando diversos atletas de qualidade. Assim, projeta que no Brasil, “para crescermos, precisamos primeiramente derrubar alguns tabus”.



Você trabalha ou pretende trabalhar com futebol? Quer se capacitar com qualidade? Conheça os cursos online oferecidos pela Universidade do Futebol

Bruno Pivetti – O depoimento deste profissional do clube-empresa Audax São Paulo é emblemático dentro do cenário atual do futebol brasileiro. Seu plano, desde que entrou na universidade, em 2003, era contribuir para atenuar o abismo entre o conhecimento e a preparação para se alcançar resultados efetivos. Em um primeiro momento dedicou-se a “entender bem o processo de preparação física e fisiologia a fim de conseguir uma brecha em um mercado tão restrito como o do futebol”. Porém, logo percebeu que sua formação na graduação “pautada essencialmente pelas adaptações neuromusculares ao treinamento de força e especialização em Fisiologia do Exercício” mostrou-se demasiadamente cartesiana e reducionista, uma vez que estava disposto a trabalhar em uma perspectiva muito mais ampliada. “Necessitava ir além, ou seja, precisava entender a fundo os problemas advindos do processo competitivo de futebol para auxiliar da maneira mais eficiente possível meus futuros jogadores”.

Esta meta fez com que Bruno Pivetti mudasse totalmente seus planos. Assim, decidiu fazer uma viagem que, segundo suas próprias palavras “mudaria minha vida para sempre”. Abdicou e adiou alguns sonhos para ir atrás da metodologia que acabou servindo de tema para o seu livro. Foi para Portugal, mais especificamente à cidade do Porto, em busca do conhecimento que imaginava necessitar. Lá, tomou contato com as ideias de Vitor Frade e mais especificamente sobre a Periodização Tática. A nova inserção entre os novos conhecimentos teóricos e a prática que resultou na publicação de seu livro, o fez identificar-se com as considerações do próprio Prof. Vitor Frade ao dizer que “esta publicação é antes de mais nada um ato de coragem, pois corro o risco de ser julgado como um teórico pelos profissionais de cunho mais prático e como um empirista sem valor científico algum para alguns membros da academia”.



Porém, Pivetti não se incomoda com os eventuais riscos desta postura, uma vez que “meu compromisso é com a contribuição para o resgate da vertente arte ao futebol brasileiro moderno. Entretanto uma arte alicerçada em princípios organizacionais bem definidos que permitam eficiência ao processo de construção de um modelo de jogo pautado sempre pela qualidade!”.

O que o professor pretende com esta publicação é atender à “necessidade dos acadêmicos se voltarem aos problemas de campo e aos práticos de se prepararem intelectualmente a fim de contribuir para a evolução não só do futebol, mas do esporte de uma maneira geral no Brasil”.

Qual a diferença entre Treinamento Analítico e Tecnicista?

Bruno Baquete – Considera que, resumidamente, “a grande questão é se adequar à nova realidade do futebol”. Isto significa “criar um ambiente de evolução e aprendizagem constante, pautado na complexidade e focado no jogo e para o jogo, onde a inteligência circunstancial do jogador é colocada à prova a cada momento!”.

E coloca algo que provoca uma reflexão crítica: “provavelmente o Barcelona e a Espanha ainda não atingiram todo o potencial de uma equipe de futebol. Acredito que há outras barreiras. Contudo, para quebrá-las, precisamos desenvolver fractalmente todo o jogo e criar uma cultura de jogo que transcenda o campo.”.

Bruno Baquete conclui seu depoimento com uma mensagem de esperança: “Espero que o depoimento do nosso querido René Simões não fique apenas na esfera teórica e se aplique na prática! Que ele seja a semente que necessitamos para transformar o futebol brasileiro. Que esta semente seja para valer, pois parece que todos nós já esquecemos a aula que o Barcelona deu no Santos”.

Augusto Moura – Defende que devemos desenvolver uma “‘inteligência metodológica’ que forneça suporte sólido para todos integrantes do departamento de futebol de base”. Neste sentido, Augusto Moura acredita que devido ao “fato de trabalharmos com conteúdos técnicos específicos, pré-estabelecidos por categoria, fomentar o processo de capacitação dos profissionais e utilizar a competição como meio formativo e não como fim nos dariam enormes ganhos em performance.”

Com uma nova postura, ele crê que conseguiremos ao longo dos anos resgatar o nosso prestígio.

Como trabalhar com Jogos quando seus jogadores não possuem um alto nível técnico?

 Obrigado.