Pliometria no Futebol
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Técnica para aumentar a
potência muscular e melhorar o rendimento também atua na prevenção e na
reabilitação de lesões
Thiago Corrêa,Roberto Lampert,Jefferson
Loss
Resumo
A pliometria é uma técnica conhecida
para aumentar a potência muscular e melhorar o rendimento atlético, porém, só
recentemente, sua importância na prevenção e na reabilitação de lesões está
sendo discutida no âmbito do futebol. Os exercícios pliométricos são definidos
como aqueles que ativam o ciclo excêntrico-concêntrico do músculo esquelético,
provocando sua potenciação mecânica, elástica e reflexa. Esse ciclo refere-se
às atividades concêntricas precedidas por uma ação excêntrica rápida, cujo
propósito é aumentar a força reativa do músculo pelo armazenamento de energia
elástica na fase de pré-alongamento e sua reutilização durante a contração
concêntrica, além da ativação do reflexo miotático. Esse trabalho de revisão de
literatura tem como objetivo descrever as bases mecânicas, elásticas e
neurofisiológicas da pliometria. Observa-se que esses exercícios são usados na
fase final da reabilitação de vários tipos de lesões músculo-esqueléticas,
tanto dos membros inferiores, quanto dos superiores e também na prevenção de
alguns tipos de lesões, pois, acredita-se que eles são capazes de desenvolver
força reativa, aumentar a resposta muscular e melhorar a coordenação
neuromuscular. Conclui-se, que é fundamental para a comissão técnica de um
clube de futebol conhecer o conceito e a aplicação da pliometria para o treinamento
físico, na prevenção e no tratamento das lesões esportivas para poder elaborar
uma periodização adequada com as necessidades do desporto.
PALAVRAS-CHAVE: Futebol, Pliometria e Treinamento.
INTRODUÇÃO
No futebol ações motoras como saltar e pequenos
deslocamentos em altas velocidades utilizam uma alternância de contrações
musculares, denominada de ciclo alongamento-encurtamento, ou seja, um mecanismo
fisiológico cuja função é aumentar a eficiência mecânica dos movimentos, nos
quais ocorre uma contração muscular excêntrica rápida, seguida, imediatamente,
por uma ação concêntrica (VOIGHT et al, 2002).
Um dos meios pelo qual se aperfeiçoa o ciclo alongamento-encurtamento é a
pliometria. A potência representa o componente principal de uma excelente forma
física, que pode ser o parâmetro mais representativo do sucesso no futebol, um
desporto que necessita força reativa e explosiva (BOMPA, 2004).
Os exercícios pliométricos são definidos como aqueles que ativam o ciclo
excêntrico-concêntrico do músculo esquelético, provocando sua potenciação
elástica, mecânica e reflexa (MOURA et al, 2001). O propósito dos exercícios de
ciclo alongar-encurtar ou de contra movimento é melhorar a capacidade de reação
do sistema neuromuscular e armazenamento de energia elástica durante o
pré-alongamento, para que esta seja utilizada durante a fase concêntrica do
movimento (DESLANDES et al, 2003). Esses exercícios promovem a estimulação dos
proprioceptores corporais para facilitar o aumento do recrutamento muscular
numa mínima quantidade de tempo (WILK et al, 1993).
Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo descrever as bases mecânicas,
elásticas e neurofisiológicas, formas de treinamento da pliometria, assim como,
o seu papel e sua relevância no futebol, enquanto desporto competitivo.
Exercícios pliométricos
Existe uma grande variedade de exercícios pliométricos, os quais devem ser
combinados e aplicados de acordo com a necessidade de cada esporte, um exemplo
é o futebol, no qual o atleta deverá realizar exercícios para membros
inferiores, pois esses atletas requerem força de impulsão para o salto e
aceleração para os deslocamentos. A pliometria pode ser aplicada de forma
simples, utilizando-se materiais de fácil aquisição, como caixas de madeira,
cones, bolas e elásticos (BATISTAet al, 2003).
Os principais tipos de exercícios para membros inferiores são os saltos no
lugar, ou seja, os membros inferiores aterrissam no mesmo lugar de onde
saltaram e saltos com mudança de direção, nos quais os membros inferiores
aterrissam em um ponto diferente de onde saltaram, que pode ser para o lado,
para frente ou na diagonal e saltos em profundidade que utilizam caixas e
requerem maior experiência, pois são mais agressivos, exigindo mais das
qualidades reativas e de explosão muscular (BOMPA, 2004; CISSIK, 2004).
Bases fisiológicas do exercício pliométrico
A fisiologia do ciclo alongar-encurtar é baseada na combinação dos reflexos de
estiramento muscular e nas propriedades mecânicas e, principalmente, elásticas
do sistema músculo-tendíneo. Quando o músculo contrai concentricamente a maior
parte da força produzida é proveniente do componente contrátil, ou seja, da
interação entre os filamentos de actina e miosina e pouca energia elástica é
armazenada. Como se sabe, a eficiência mecânica do trabalho muscular é de
aproximadamente 25%, ou seja, somente esse valor da energia química gasta se
converte em energia mecânica, movimento, e os outros 75% são transformados em
energia térmica, uma energia que não interessa em termos de desempenho (MOURA, 1994).
Com o ciclo excêntrico-concêntrico, o rendimento muscular é 25% a 40% maior,
devido à "energia gratuita" fornecida pelo armazenamento e
recuperação da energia elástica, contribuindo para a economia do gesto
esportivo (BISCIOTTI et al, 2002). Porém, para que isso aconteça é necessário
que se realize um pré-alongamento de pequena amplitude, grande velocidade e
tempo de amortecimento bastante curto, caso contrário, muita dessa energia será
dissipada em calor(MOURA et al, 2001).
Dessa forma, o exercício pliométrico é um meio que pode melhorar a força e
potência muscular com recrutamento seletivo de fibras tipo IIb, haja visto que
essas fibras respondem melhor ao pré-alongamento de alta velocidade e pequena
amplitude (MOURA et al, 2001; COHEN et al, 2003). Portanto, os atletas de
futebol necessitam o recrutamento de fibras musculares de contração rápida, o
que lhes confere uma pré-qualificação importante para o desencadeamento da
potenciação muscular através de exercícios pliométricos (BATISTA et al, 2003).
Segundo Wilk et al (1993), a pliometria é capaz de melhorar a eficiência neural
e aumentar o controle neuromuscular. A utilização do pré-alongamento pode
permitir que o atleta de futebol adquira uma melhor coordenação das atividades
de específicos grupos musculares, a qual causa uma adaptação neural capaz de
incrementar a produção de força reativa. O aumento da força reativa conseguida
com o ciclo alongamento-encurtamento resulta tanto do armazenamento de energia
elástica durante o pré-estiramento e sua reutilização como energia mecânica
durante a contração concêntrica, como da ativação do reflexo miotático, porém,
a porcentagem de cada um desses fatores não é conhecida (VOIGHT et al, 2002).
Utilização da pliometria na reabilitação
Os exercícios pliométricos são usados no treinamento de atletas para
desenvolver força reativa, melhorar a reatividade muscular através da
facilitação do reflexo miotático e da dessenssibilização dos OTGs e melhorar a
coordenação intra e extra articular (MYERS et al, 2000; DESLANDES et al, 2003;
HOWARD, 2005). Analisando os efeitos desses exercícios, acredita-se que estes
podem ser benéficos na prevenção de lesões e também na reabilitação,
principalmente de atletas de futebol (HILLBOM et al, 2005).
Esses exercícios passaram a fazer parte dos programas de reabilitação há pouco
tempo (HOWARD, 2005). Os exercícios para membros inferiores, como os saltos em
profundidade, são mais populares e bem mais descritos na literatura do que os
para membros superiores, porém, o uso desses exercícios na reabilitação de
atletas é cada vez mais comum (DAVIES et al, 2004), principalmente para
goleiros de futebol. Incorpora, com isso, movimentos de específicos grupos
musculares necessários para o melhor rendimento do atleta (FRONTERAet al,
2003). Esse treinamento recria o tipo de contração excêntrico-concêntrica
vivida durante atividades atléticas e é parte vital da reabilitação do ombro do
atleta (MYERSet al, 2000).
Bisciotti, Vilardi e Manfio (2002) relataram haver diminuição da capacidade
elástica da musculatura, após lesão muscular, demonstrando a importante perda
das características elásticas da musculatura extensora de joelho após a lesão e
cirurgia de reconstrução de ligamento cruzado anterior, LCA, bem como,
afirmaram que o elemento elástico em série possui função protetora das
estruturas articulares e periarticulares em caso de brusca e repentina
contração muscular, portanto, aqueles atletas que não promovem a potenciação
muscular, limitam a estocagem e a restituição da energia elástica, se expondo a
maiores riscos de lesões, principalmente traumáticos e na fase excêntrica do
movimento.
Prentice e Voight (2003) afirmam que um fuso muscular com nível de
sensibilidade baixo possui menor capacidade para superar o estiramento rápido e
assim, produz uma resposta menos vigorosa. Deslandes et al. (2003) relatam que
o indivíduo que realiza atividades com ciclo alongar-encurtar, ocorre uma
melhor sincronização da atividade muscular e da atividade miotática, portanto,
um programa de exercícios pliométricos, aumenta a eficiência neural, corrigindo
déficits proprioceptivos e melhorando o desempenho neuromuscular.
Parâmetros para o
desenvolvimento do programa de exercícios pliométricos
A especificidade do exercício é um dos principais fatores para se obter um
resultado eficaz com os exercícios pliométricos. Os movimentos específicos de
cada esporte devem ser analisados pelo treinador e um programa de exercícios
pliométricos deve seguir as exigências de cada desporto (PRENTICE et al, 2003;
BOMPA, 2004).
Para elaborar um plano de tratamento usando a pliometria, o preparador deve
estar ciente das inúmeras variáveis que afetam esses exercícios e dos objetivos
que se quer alcançar com cada esporte e com cada indivíduo (DAVIES et al,
2004). As principais variáveis que devem ser estipuladas são: intensidade,
volume e freqüência, porém outras variáveis, como o sentido do movimento
corporal, a carga externa e o repouso, devem ser consideradas (PRENTICE et al,
2003).
O aumento da velocidade de execução do exercício aumenta a demanda de
treinamento sobre ele, portanto, quando um novo exercício pliométrico é
iniciado, deverá ser feito em velocidade e em um tempo de amortização menores,
até que o atleta esteja pronto para progredir (NUTTING, 2004).
Não há consenso quanto ao volume, intensidade e freqüência ideais tanto para
treinamento ou a reabilitação de atletas, porém é sabido que diferentemente do
treinamento desportivo, no qual os exercícios chegam a um nível máximo, os
exercícios pliométricos na reabilitação podem chegar a níveis submáximos
(DAVIES et al, 2004).
Andrews, Harrelson e Wilk (2000) orientam a aplicação desses exercícios numa
freqüência de no máximo 2 a
3 vezes por semana. O tempo de repouso é uma variável muito importante a ser
considerada, haja visto que a pliometria pode causar fadiga, que é o resultado
do esgotamento de energia contida nos músculos, como o ATP e o fosfato de
creatina e também pela produção e acúmulo de ácido lático (BOMPA, 2004). No
momento em que ocorre a fadiga, o controle motor fica deficitário e os efeitos
do treinamento se perdem (PRENTICE et al, 2003). Por ser a pliometria um
exercício de impacto, que envolve várias articulações, o alinhamento corporal
correto deve ser orientado e corrigido pelo preparador. O excesso de exercícios
sem um período de repouso adequado, assim como a aplicação da pliometria em
fase inicial do tratamento são fatores que podem piorar a lesão ou até mesmo
causar novas lesões (DESLANDES et al, 2003).
Na pliometria, podem ser geradas cargas biomecânicas extremas e o tecido
conjuntivo dos pés, tornozelo, quadril e discos intervertebrais amortecem o
choque para dissipar o estresse imposto por um salto. As lesões ocorrem quando
forças exteriores agem nas articulações, excedendo a integridade estrutural dos
músculos, ossos, e tecidos conjuntivos, por isso um programa de treinamento de
força deve ser realizado antes do início dos exercícios pliométricos e deve
envolver tanto a musculatura dos membros, como os estabilizadores da postura,
como os abdominais e extensores da coluna (BOMPA, 2004).
Conclusão
A literatura tem demonstrado que o treinamento pliométrico influência na
resposta reativa muscular, melhorando a sincronização da atividade muscular e
da atividade miotática. Nesta perspectiva, um programa de exercícios
pliométricos, deve aumentar a eficiência neural, corrigindo déficits
proprioceptivos e aprimorando o controle neuromuscular.
A literatura destaca a pliometria, além de um importante instrumento na
reabilitação de lesões, como efetiva na prevenção destas, pois um bom controle
motor atua como um mecanismo protetor capaz de ativar as vias de estabilização
reflexas, feed foward, ocasionando uma resposta motora mais veloz diante de
forças ou traumas inesperados. A pliometria é, portanto, uma forma de se obter
força reativa e melhorar a propriocepção ao mesmo tempo.
A possibilidade de utilizar a pliometria como atividade estimuladora da
potenciação muscular, surge como uma alternativa interessante aos treinadores
de futebol. Entretanto, é fundamental para o preparador físico conhecer o
conceito e a aplicação da pliometria no treinamento, na prevenção e no
tratamento das lesões esportivas, para que possa elaborar um programa seguro e
eficiente.
*Thiago Corrêa Duarte,
Acadêmico, ESEF/ UFRGS
Roberto Lampert Ribas,
Acadêmico, ESEF/ UFRGS
Jefferson Fagundes Loss,
Ph.D., ESEF/ UFRGS