terça-feira, 21 de abril de 2015

A Importância da Formação do Treinador de Futebol-III


Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol –

 Parte III

 

O que já existe consolidado no Brasil? Entenda a legislação específica, o projeto da CBF e um paralelo com as principais peculiaridades das federações da Europa.

 

Equipe Universidade do Futebol

A regulamentação da profissão de treinador de futebol no Brasil vem sendo debatida há muitos anos. Nesta disputa estão, de um lado, as entidades que representam os profissionais de Educação Física, em especial CONFEF (Conselho Federal de Educação Física) e CREF's (Conselhos Regionais de Educação Física) e do outro, instituições sindicais representativas dos treinadores que não são certificados pelas Escolas de Educação Física, geralmente liderados por ex-atletas que pleiteiam ou já exercem a função de treinadores em clubes ou outras instituições futebolísticas.

Nesta queda de braços, nenhuma das duas esferas leva vantagem. Em muitos campeonatos, as instituições que representam os profissionais formados em Educação Física conseguem aplicar a fiscalização, interferindo até no regulamento da competição que exige o CREF por parte do treinador.

Já em outros, como é o caso do Campeonato Paulista, regido pela Federação Paulista de Futebol, por exemplo, exige-se o CREF apenas do preparador físico, sendo que o treinador pode apresentar-se para o jogo apenas dotado do RG.

Sendo assim, percebe-se que esta disputa ainda está longe de encontrar um vencedor, apesar dos argumentos pontuais. Recentemente, por exemplo, o SITREFESP (Sindicato dos Treinadores de Futebol do Estado de São Paulo) deu um “golpe” na instituição que representa os graduados em Educação Física, o CREF4/SP (Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região), como veremos nesta matéria.

A partir do Decreto-Lei 3.199 de 1.941, reconheceu-se a presença de um profissional qualificado para trabalhar como treinador o indivíduo formado pela Escola de Educação Física e Desporto da Universidade do Rio de Janeiro. Trinta e cinco anos mais tarde, a Lei 6.354 de 1.976 dizia em seu artigo 27: "Todo ex-atleta profissional de futebol que tenha exercido a profissão durante 3 (três) anos consecutivos ou 5 (cinco) anos alternados, será considerado, para efeito de trabalho, monitor de futebol" (Brasil, 1976).


Na disputa pela regulamentação da profissão de treinador de futebol no Brasil, ainda não se tem um vencedor.

Entretanto, a regulamentação da ocupação de treinador profissional de futebol onde se estabeleceram as mesmas legislações do trabalho e da previdência social, se oficializou pela Lei 8.650 de 1.993, que dizia no seu artigo 3:

O exercício da profissão de “Treinador Profissional de Futebol” ficará assegurado preferencialmente:

I - aos portadores de diploma expedido por Escolas de Educação Física ou entidades análogas, reconhecidas na forma da lei;

II - aos profissionais que, até a data do início da vigência desta Lei, hajam, comprovadamente, exercido cargos ou funções de treinador de futebol por prazo não inferior a seis meses, como empregado ou autônomo, em clubes ou associações filiadas às Ligas ou Federações, em todo o território nacional".

Atualmente, a Lei Nº 9.696, de 1º de setembro de 1.998, que regulamenta a profissão de Educação Física, diz no Art. 3º:

"Compete ao Profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto" (Brasil, 1.998).

Apesar da lei 9696/98, a própria CBF publicou um documento no qual declara (com base nas leis anteriores especialmente a 8650/93) que no entender da entidade o Conselho Federal de Educação Física não possui amparo legal para fiscalizar a atuação do treinador de futebol sendo, portanto dispensável ao mesmo a habilitação do CREF.

No entanto, a própria CBF, entidade que rege o futebol no Brasil, não desconsidera a importância da formação para a atuação como treinador de futebol. Com base nisso, a entidade promove um projeto educacional que pretende, com o apoio de FIFA e Uefa, tornar-se o curso oficial que permita o exercício da profissão de treinador de futebol no Brasil. A situação, porém, ainda permanece indefinida.

Um dos casos que exemplifica bem a disputa entre CREFs e Sindicatos foi o ocorrido com o ex-jogador Fernandão ao assumir o comando do Internacional. Houve uma manifestação e uma tentativa do CREF de impedi-lo de trabalhar, o que acabou não acontecendo.





 

 


O curso de treinadores da CBF

Como vimos na parte II deste especial, a Uefa e suas respectivas federações possuem cursos de formação bem organizados com conteúdos e formatações bem definidos, além de diversas outras ações que objetivam a formação dos treinadores europeus. E no Brasil, qual é a proposta da CBF?

A entidade máxima do futebol brasileiro, em parceria com a faculdade PUC-Minas, criou um curso com os moldes europeus, dividido em quatro níveis e, com uma carga horária de 720 horas, procura fazer uma progressão similar à dos países do velho continente.

Na primeira etapa, voltada à iniciação (120h), uma noção básica aos treinadores é conferida.

Os pré-requisitos para o nível 2 (160h) são ter ensino médio completo, o nível 1 feito ou uma experiência comprovada de três temporadas à frente de uma equipe de base. Ou, ainda, ter jogado futebol profissional por pelo menos cinco anos.

O nível 3 (180h), ligado ao futebol profissional, fornece conhecimentos ao interessado para atuar em equipes de todos os níveis competitivos.

Por fim, o nível 4 (260h), voltado a excelência na modalidade, pode ser feito por aqueles qualificados na etapa anterior e ainda treinadores com comprovada experiência de cinco temporadas nas séries A e B do Campeonato Brasileiro.



Contudo, apesar da iniciativa e da tentativa de organização da formação dos treinadores brasileiros, a mesma ainda possui um alcance limitado devido a diversos fatores, como:

1) Leis: Como vimos, as leis são confusas e em muitos campeonatos não se exige a formação para atuar, o que faz com que poucas pessoas procurem o curso da CBF ou até mesmo cursos de Educação Física;

2) Falta de capacidade para atender a interessados: Mesmo quando o interesse é maior, a CBF ainda limita o número de alunos – por volta de 35 por turma – o que impossibilita formar mais treinadores com qualidade;

3) Falta de parceria com federações estaduais: A falta de parceria com as federações estaduais faz com não haja uma ação conjunta e pulverizada por todo o Brasil, o que incorre no item listado acima;

4) Falta de parceria com universidades e faculdades de Educação Física: a distância entre a CBF e as Federações com as faculdades de Educação Física faz com que as instituições não se beneficiem dos pontos fortes das outras, como por exemplo, pulverizar um conteúdo de qualidade de futebol nos mais diferentes setores permitindo a troca de informações.

5) Distância geográfica: As dimensões do território brasileiro e os itens relacionados reafirmam a pouca capacidade de formação do curso atual da CBF. Para se ter uma noção dessa distância, um treinador que reside no Ceará e deseja realizar o curso oferecido pela CBF terá que ir à Granja Comary no Rio de Janeiro, ou seja, será obrigado a viajar 2.296 Km, mais do que a distância, por exemplo, entre Lisboa, capital de Portugal, e Paris, capital francesa que é de 1.742 Km.



6) Falta de cultura de formação: Além de todos os problemas citados, talvez o maior deles seja outro: a falta de cultura e de entendimento dos profissionais do futebol sobre a necessidade de formação. Esse fator faz com que não exista uma política consistente que coloque a formação do treinador como prioridade no trabalho das confederações e federações e dos treinadores que estão atuando ou desejam atuar no futebol.



Será que estes diversos limitadores contribuem para que não tenhamos treinadores nas grandes equipes do mundo e continuamente estejamos perdendo a hegemonia do futebol mundial? No entender da
Universidade do Futebol, sim. Devido a isto tentamos diariamente divulgar um grande número de notícias, artigos, entrevistas, cursos e outros materiais, de modo a oferecer aos profissionais do futebol a possibilidade de se capacitarem melhor.

Porém, como já relatamos, muitos profissionais no Brasil compactuam com esta ideia, por exemplo, a declaração de Carlos Alberto Parreira à Universidade do Futebol.

Mas, quais as possibilidades e caminhos para o Brasil? Entrevistamos alguns estudiosos e treinadores de futebol, e apresentamos as reflexões propostas por elas nas duas partes finais deste material especial. Não perca!

 

A Importância da Formação do Treinador de Futebol


Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol

 

Espanha faz sucesso no mundo e condiciona títulos e formação de jogadores ao longo processo de qualificação dos gestores técnicos de campo.

 

Equipe Universidade do Futebol

A Espanha fez história na edição de 2012 da Eurocopa. Na realidade, assinou com letras douradas mais um capítulo no processo que a consolida como a maior força do futebol mundial. Dois anos antes, na África do Sul, a equipe comandada por Vicente Del Bosque vencera de maneira inédita a Copa do Mundo, título que já sucedera o triunfo da equipe comandada por Luis Aragonés no principal torneio entre seleções do Velho Continente, em 2008.



Se traçarmos um paralelo, esta geração pode ser comparada ao Brasil durante a “Era Pelé”, podendo até ser considerada superior, pois, entre as vitórias nos Mundiais de 1958 e 1962, o melhor resultado da equipe canarinho foi um segundo lugar no sul-americano, em 1959.

No mesmo momento em que a supremacia da Fúria é destacada, o Brasil cai para o 13º lugar no ranking dos melhores do mundo, em atualização feita em novembro de 2012.

Mas o que tem de especial a equipe que mescla jogadores consagrados como Casillas, Albiol, Iniesta, Xavi, Fernando Torres, Fàbregas, Xabi Alonso, Sérgio Ramos, etc. (todos campeões europeus quatro anos atrás), e novatos como Jordi Alba, Juan Mata, Javi Martinez, Pedro Rodrigues, etc., com média de idade inferior a 24 anos? Será uma sorte de campeão? Um presente do destino que reuniu estas pérolas em uma mesma geração? Para o Técnico espanhol Vicente Del Bosque, os resultados não são mera coincidência e o caminho é muito mais trabalhoso do que se pensa.

“O nosso sucesso não é uma coincidência e tem origem em muitas coisas: na estrutura do futebol, nas academias e na formação dos treinadores. Os clubes [espanhóis] estão empenhados na formação de jovens. Antes viajávamos para França, Rússia e Alemanha para procurar talentos nas suas academias”, referiu o selecionador espanhol ao site da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF).



Na mesma linha, Ginés Melendez, diretor-técnico da RFEF (Real Federação Espanhola de Futebol), crê que o segredo do sucesso do futebol espanhol tem um ponto crucial que não começou no campo, mas sim nas salas de aula:



Para se ter a noção da dimensão que envolve a formação espanhola é só observarmos os dados: na temporada 2010/2011, a RFEF emitiu mais de 53 mil licenças para treinadores futebol e futsal que realizaram os cursos dos quatro níveis propostos pela federação espanhola.

Isso permite supor que, na Espanha, cada escolinha de futebol e futsal, equipe de iniciação ou alto rendimento possui um profissional formado sob a chancela da federação espanhola.

É importante salientar que aqui tomamos a Espanha apenas como um recente exemplo de sucesso, porém este trabalho de formação vem sendo realizado em todo continente europeu como mostraremos durante o especial.

Os dados apresentados chamam a atenção para uma nova realidade no cenário futebolístico mundial, no qual, devido à profissionalização do esporte, ao aumento e desenvolvimento das demandas atreladas ao jogo e ao contexto que o envolve, o cargo de treinador exige capacidades e qualidades não contempladas apenas pelo contato significativo com a modalidade como ex-jogador.

Para isto existe hoje a necessidade fundamental dos profissionais que objetivam trabalhar no futebol buscarem uma formação de qualidade. E é necessário dedicar-se com o intuito de melhorar sempre as metodologias de treino, a capacidade de liderança e muitas outras capacidades que fazem diferença no caminho para o sucesso.

Como comenta Tostão, ex-jogador e colunista esportivo: "É essencial uma formação acadêmica para ex-jogadores e outros profissionais. Para ser um bom técnico de futebol, o ideal é unir a experiência do passado a uma formação técnica e teórica", atesta Tostão, ex-jogador e colunista esportivo.

Patric Bonie, diretor técnico da Federação Irlandesa de Futebol, segue com a mesma ideia: "Começar por baixo, de preferência jovem, num clube onde ainda seja também jogador. E, depois, fazer um curso de treinador baseado na prática porque, embora a experiência enquanto jogador ajude, as técnicas de treino não se aprendem do ar. Tem de se realizar os cursos, de forma a estar preparado para o dia em que se assuma um importante cargo de treinador e para a inerente pressão".

José Mourinho, um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol afirma ainda, que não ter sido jogador de futebol profissional o ajudou em seu trabalho como treinador, porém reitera a necessidade de vivenciar o ambiente desse esporte não contemplado em toda a magnitude nos livros:
José Mourinho e a necessidade da relação entre teoria e prática para a formação do treinador de futebol

A ideia que o treinador deve ter uma formação de qualidade também é compartilhada por alguns profissionais no Brasil, como é o caso do diretor das categorias de base do São Paulo Futebol Clube em depoimento para a Universidade do Futebol.



Com base neste polêmico e complexo assunto, a Equipe Universidade do Futebol preparou um especial com o tema: “A importância da formação de treinadores de futebol.”

Este especial tem o intuito de gerar reflexões a partir de algumas questões norteadoras como: qual é o atual estágio da formação desses profissionais em alguns dos principais países continente europeu? Qual a importância do processo? E no Brasil, em que estágio estamos? Qual é a opinião de treinadores e estudiosos do futebol a respeito do assunto?

Essas são algumas das perguntas que buscaremos responder neste especial.

domingo, 5 de abril de 2015

Por do Sol na Madeira Mamoré


































http://www.futbol-tactico.com/data/edicion/futbol/96/pt/articulo/96_borusia-monchengladbach-suas-jogadas-e-seu-treinamento_auto_port.jpg


Treino Contextualizado


Atividade em ambiente não específico pode trazer ganhos na evolução das questões tático-técnicas da equipe?

Otávio Baggiotto Bettega

 

No futebol como em outras modalidades esportivas voltadas para o alto rendimento, o treino surge como ponto crucial da preparação das equipes para atuação em ambiente competitivo. Tratando-se do futebol brasileiro e do fatídico jogo contra a seleção alemã na Copa do Mundo de Futebol de 2014, a má atuação da seleção nacional trouxe a tona uma enxurrada de apreciações vinculadas à preparação dos futebolistas brasileiros, tanto em curto, como em longo prazo.

Dentre essa disposição, as condições do treino estabelecidas pelos treinadores brasileiros, tanto nas equipes formativas, quanto no grupo profissional foram fortemente questionadas. A preparação vinculada aos aspectos tático-técnicos foi tema de muitas considerações, reportando-se especificamente na falta de coerência entre o modelo de jogo e os procedimentos de treino.

Nessa relevância, o treino realizado em consonância com o modelo de jogo da equipe visa à criação de hábitos de ordem individual e coletivo, assim elevando o nível organizacional da equipe em meio à complexidade sistêmica do jogo. O desenvolvimento de competências específicas do futebol surge como ponto prioritário no treino, no qual o jogador deve compreender os comportamentos utilizados pela equipe em momentos defensivos e ofensivos, sem e com a posse da bola e nos mais diferentes setores do campo, bem como atrelados a oposição do adversário.

Com esse propósito, emanam algumas propostas de ensino e treino esportivo (Teaching Games for Understanding – TGfU, BUNKER e THORPE, 1982 - Inglaterra; Tactical Decision Making Approach - JOHN et al., 2000 - França; Tactical Approach – CARMEL e AGARWAL, 2001 - EUA; Game Sense - LIGHT, 2004 – Austrália; Game Concept Approach, ROSSI et al., 2007 - Singapura) que vinculam o jogo como mote balizador do processo, buscando aproximar situações específicas do jogo para o ambiente de treino. No caso do futebol, a Periodização Tática (Portugal) surge como uma nova perspectiva de treino no âmbito nacional, mas que ainda não se consolida no campo prático.

A periodização tática visa desenvolver o treinamento atrelado aos propósitos inerentes ao modelo de jogo da equipe, ampliando o conhecimento através da construção de princípios de ação em meio à funcionalidade do jogo. No contexto do futebol brasileiro, a inserção da periodização tática no campo prático ainda é dificultada, devido principalmente às condições operacionais e culturais.

Todavia, a periodização tática compreende na sua totalidade, o treinamento de conteúdos específicos do jogo e vinculados ao modelo de jogo da equipe, visualizando os jogadores como sistemas lineares, no qual potencializam conhecimentos e competências, criando hábitos e logo os reproduzindo no jogo. No entanto, o comportamento humano não se dissipa de forma linear, pois sua interação com outros indivíduos e em variados ambientes cria perturbações e modifica suas ações.

A operacionalização do treino contextualizado com o modelo de jogo certamente irá desenvolver comportamentos importantes para atuação dos jogadores no âmbito competitivo. No entanto, o jogo não permeia somente por nuances de previsibilidade, aloca-se em momentos menos previsíveis, no qual as soluções para as diversas situações-problema podem estarem “suspensas” na variabilidade do contexto.

Nesse sentido, o treino deve permitir o desenvolvimento de atividades fora das particularidades do jogo, no qual os jogadores estabeleçam diferentes relações interpessoais, aguçando o prazer e a motivação para o enfrentamento da rotina de treinos e jogos. 

Para tanto, a criação de hábitos para um “jogar” organizado, estimulado a partir do treino contextualizado deve ser o aspecto prioritário, mas não totalitário, pois a complexidade do jogo interpõe as situações controláveis e condiciona-se também por outras influências internas e externas ao seu cerne processual.

Professor perde 20% da Aula...


Professor no Brasil perde 20% da aula com bagunça na classe, diz estudo.
Pesquisa da OCDE aponta que 60% dos docentes têm alunos-problemas.
Brasil lidera 'ranking' de intimidação verbal entre alunos e professores.
Uma pesquisa feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo de aula acalmando os alunos e colocando a classe em ordem para poder ensinar. Além disso, o estudo aponta que 60% dos professores brasileiros ouvidos têm mais de 10% de alunos-problemas em sua sala de aula, o maior índice entre os países participantes do estudo.
A pesquisa Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning Internacional Survey, Talis, na sigla em inglês) ouviu professores de 33 países.
O estudo aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo para por a classe em ordem e acabar com a bagunça, 13% do tempo resolvendo problemas burocráticos e 67% dando conteúdo. É o país que onde o professor mais perde tempo de aula. A média dos países da OCDE é de 13% do tempo para acabar com a bagunça.
O estudo perguntou aos professores se eles têm mais ou menos de 10% de alunos problemáticos na classe. O Brasil teve 60% dos docentes apontando terem mais de 10% de estudantes problemáticos. Chile, México e Estados Unidos aparecem depois. Na outra ponta, Dinamarca, Croácia, Noruega e Japão têm menos relatos de professores sobre alunos com mau comportamento.
Os dados foram levantados em 2013 com alunos do ensino fundamental e ensino médio (alunos de 11 a 16 anos), mas um relatório sobre a questão de comportamento dos alunos foi divulgado este ano. No Brasil, 14.291 professores e 1.057 diretores de 1.070 escolas completaram o questionário da pequisa.
A pesquisa Talis coleta dados sobre o ambiente de aprendizagem e as condições de trabalho dos professores nas escolas de todo o mundo. O objetivo é fornecer informações que possam ser comparadas com outros países para que se defina políticas para o desenvolvimento da educação.
VEJA ALGUNS DADOS DA PESQUISA:
Tempo para por a classe em ordem
No Brasil o professor perde 20% do tempo para acalmar os alunos, dar broncas e colocar a classe em ordem. A média da OCDE é de 13%.

Aluno que chega atrasado
Este não chega a ser um grande problema em comparação a outros. O índice no Brasil é de 51,4%, menor que a média dos países, de 51,8%. Países mais desenvolvidos têm alunos que atrasam mais, como Finlândia (86,5%), Suécia (78,4% Holanda (75,7%), Estados Unidos (73,3%) e França (61,6%).
Falta às aulas
Também o Brasil está na média, com 38,4%. Suécia (67,2%), Finlândia (64%) e Canadá (61,8) têm números maiores. O menor índice é da República Checa (5,7%).
Vandalismo e roubo
O Brasil está em segundo lugar neste item, com 11,8% dos relatos dos professores, atrás do México, líder com 13,2% e à frente da Malásia, com 10,8%.
Intimidação verbal entre alunos
O Brasil lidera a pesquisa com 34,4% dos relatos de professores, seguido pela Suécia (30,7%) e Bélgica (30,7%).
Ferimentos em briga de alunos
O maior índice é do México (10,8%), seguido por Chipre (7,2%) e Finlândia (7%). O Brasil aparece em quarto com 6,7%.
Intimidação verbal de professores
O Brasil é primeiro lugar com 12,5%. Em seguida vem a Estônia (11%).
Uso e posse de drogas e/ou álcool
Nos relatos, o Brasil tem o mais índice (6,9%), seguido pelo Canadá (6%).
Formação do professor
A pesquisadora Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, participou do levantamento. Ela também fez pesquisas em Ontário, no Canadá, e na Inglaterra, e percebeu que a formação dos professores é melhor nestes países.
Ainda de acordo com o estudo, no Brasil, mais de 90% dos professores dos anos finais do ensino fundamental concluíram o ensino superior, mas cerca de 25% não fizeram curso de formação de professores. Em comparação, no Chile aproximadamente 9 entre 10 professores concluíram tais cursos, assim como quase todos os professores na Austrália e em Alberta (Canadá).
"No Brasil, por problemas de salários e outras atividades, se coloca um professor que não foi preparado para dar aquela disciplina. Além disso, a média no Brasil é de 31 alunos por classe, enquanto nos outros países é de 24 alunos", destaca Gabriela.
Segundo ela, é preciso criar um sistema de planejamento de políticas de apoio às escolas e aos professores para lidar com alunos que estão se desenvolvendo. "Todo mundo entende que na pré-adolescência os estudantes testam seus limites e estão aprendendo a ser autônomos", afirma a pesquisadora. "Antes de acharmos que nosso aluno é preciso ver que em outros países os estudantes têm muito apoio que no nosso não tem."
Em seu relatório, a pesquisadora conclui que "a construção de uma cultura escolar positiva pode ser uma forma de reduzir problemas de comportamento e absentismo, e, portanto, melhorar as condições de aprendizagem dos alunos". "Uma maneira de criar um ambiente mais positivo é envolver os alunos, pais e professores nas decisões da escola. Professores que trabalham em escolas com um maior nível de participação entre as partes interessadas têm menos relatos de alunos com problemas de comportamento em suas salas de aula."