Sou professor de Educação Física, aposentado. Preparador Físico de Futebol, Técnico de Futebol formado pela Universidade da Gama Filho, RJ.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Jogos Reduzidos e Adaptados
Jogos Reduzidos e Adaptados
Prof. Ocimar Esteves
Introdução:
Jogos reduzidos e adaptados são muito úteis no processo de aprendizado
do futebol, mas utilizá-los no processo de treinamento não é uma tarefa
simples. Com o intuito de facilitar o planejamento do treino e o entendimento das
demandas de cada faixa etária, desde a iniciação até ao profissional, os jogos
serão divididos em quatro estágios, de acordo com a complexidade de suas regras
e seus objetivos. Os quatro estágios foram divididos, didaticamente, da
seguinte forma:
- Estágio 1 -
Desenvolvimento Técnico Contextualizado em Situações Simples
- Estágio 2 -
Aspectos Táticos Individuais e Aprimoramento Técnico Contextualizado
- Estágio 3 -
Aspectos Táticos Conceituais e Tomados de Decisão em Pequenos Grupos.
- Estágio 4 -
Construção, Desenvolvimento e Aprimoramento do Modelo de Jogo.
Estágio 1 - Desenvolvimento Técnico
Contextualizado em Situações Simples
·
Este estágio é composto pelos jogos menos complexos, com regras simples
e que enfatizam o aprendizado técnico relacionado ao jogar. Em outras palavras,
os jogos que o compõe, buscam o aprendizado das ações técnicas (passe, domínio,
condução, finalização, etc.) de forma contextualizada ao jogo. As ações
técnicas não serão treinadas de forma isolada e segmentada. A técnica será
desenvolvida usando jogos que apresentem situações mais simples de serem
solucionadas do que as situações do jogo formal.
·
Algumas características dos jogos deste estágio são: superioridade
numérica para a equipe em posse da bola (de 3 a 7 jogadores contra 1 ou 2);
espaço e movimentação limitados; jogos com uma ou mais bolas; regras de baixa
complexidade; ênfase no aspecto técnico, entre outros. Os jogos deste estágio
se relacionam ao jogo formal, mas ainda possuem muitas diferenças com o mesmo.
·
Neste estágio, os jogos não precisam ser, necessariamente, da mesma
família do que o futebol. Como a ênfase é no desenvolvimento técnico, basta que
sejam jogos que utilizem habilidades necessárias ao futebol - em contextos
semelhantes.
Na verdade, e dependendo da idade do grupo em questão, podem ser até mesmo brincadeiras de bola com os pés.
Na verdade, e dependendo da idade do grupo em questão, podem ser até mesmo brincadeiras de bola com os pés.
Estágio 2 - Aspectos Táticos
Individuais e Aprimoramento Técnico Contextualizado.
·
Neste estágio, os jogos enfatizam o aprimoramento técnico dos jogadores
e o desenvolvimento de aspectos táticos individuais como cobertura, pressão,
linhas de passe, etc. Os jogos ainda podem contar com superioridade numérica
para a equipe em posse de bola, mas não com a mesma proporção do estágio 1.
·
Além de jogos com igualdade numérica, este estágio, também, conta com
jogos com inferioridade numérica para quem ataca. As decisões terão de ser
tomadas com maior velocidade e os jogadores terão menos tempo para completar as
tarefas técnicas e táticas. Mais uma vez, a ação técnica nunca é treinada de
forma isolada e descontextualizada do jogo.
Estágio 3 - Aspectos Táticos
Conceituais e Tomados de Decisão em Pequenos Grupos.
·
O foco deste estágio é o desenvolvimento de conceitos como posse
de bola, proteção ao alvo, recuperação da posse de bola, marcação individual e
zonal, amplitude, profundidade, ultrapassagem, entre outros. Em outras
palavras, este estágio conta com jogos que visam ao aprendizado de conceitos
importantes para diversos modelos de jogo, princípios estruturais e princípios
operacionais.
·
Estes conceitos serão aprendidos, independentemente, de esquemas
táticos. O objetivo principal é fazer com que os jogadores experimentem
diversas situações-problema que demandem decisões rápidas e importantes para o
jogo. Esses conceitos serão trabalhados em grupos pequenos ou médios, quando
comparados ao jogo formal.
·
Os jogos deste estágio, normalmente, possuem regras que não
restringem as decisões dos jogadores, mas estimulam os mesmos a encontrarem
soluções para os problemas propostos. Regras novas serão, gradualmente,
adicionadas aos jogos reduzidos. As soluções aos problemas apresentados
estarão, muitas vezes, relacionadas aos princípios estruturais e operacionais
do jogo.
Estágio 4 - Construção,
Desenvolvimento e Aprimoramento do Modelo de Jogo.
·
Os jogos deste estágio se relacionam, diretamente, com o modelo
de jogo da equipe. Serão trabalhados aspectos e referências táticas como o
esquema tático, princípios estruturais e operacionais em grandes grupos, sempre
buscando a especificidade da forma de jogar da equipe.
·
Os jogos vão desde jogos médios até jogos de 11 contra 11
jogadores, onde serão trabalhadas as funções específicas de cada posição e
todos os conteúdos que englobam o modelo de jogo da equipe.
·
Os jogos deste estágio são bastante complexos e utilizam
múltiplas regras e alvos para pontuação. Por essa razão, são mais apropriados
para categorias de idade mais avançada e para o profissional. Porém, algumas
variações simplificadas podem ser introduzidas em todas as categorias, desde
que a complexidade das regras cresça, gradativamente.
·
Jogos deste estágio são muito importantes para que os jogadores
entendam os esquemas táticos e as regras de ação durante os jogos, sendo,
diretamente, relacionados ao modelo de jogo da equipe.
Distribuição
dos Estágios nas Categorias de Base e Profissional.
·
A divisão dos jogos em
quatro estágios proposta, anteriormente, não tem como objetivo segmentar o
processo de aprendizado. Todos os estágios contêm aspectos importantes para o
aprendizado do futebol e aparecerão, em menor ou maior escala, desde a
iniciação até o profissional, ao longo de toda a formação do jogador.
·
Por outro lado, a idade do jogador e a sua bagagem motora são
determinantes no tipo de treinamento que deve ser aplicado e, portanto, no
tempo que deve ser dedicado a cada estágio.
·
Em outras palavras, não queremos dizer que um determinado aluno
só vai fazer as atividades do estágio 2, quando tiver "dominado" as
atividades do estágio 1, por exemplo. Todos os estágios serão trabalhados em
quase todas as faixas etárias, com algumas exceções. De acordo com a idade e
com o nível de treinamento, um ou outro estágio receberá maior ênfase.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Treinamento de Futebol - II parte
Agora, vamos a um exemplo prático.
Imagine um grupo de atletas que está iniciando no futebol e que, portanto,
ainda não domina os fundamentos técnicos. Um exercício bastante comum é o
zigue-zague entre cones, buscando aperfeiçoar o controle de bola durante a
condução.
De forma geral, exercícios
analíticos retiram a imprevisibilidade do jogo, treinando apenas um elemento
que o compõe. No caso do exemplo acima, este elemento é a condução de bola.
Desde o início, o aluno ou jogador que realiza a atividade, já sabe todo
trajeto que deverá percorrer, ou seja, não existem influências de fatores
imprevisíveis.
Contudo, exercícios
analíticos não são aplicados apenas na iniciação, mas ao longo de todo o
processo de formação do jogador - inclusive no profissional. Abaixo, você pode
acompanhar uma animação construída baseada em uma atividade realizada por um
treinador de uma equipe de São Paulo.
Durante esta atividade, o
treinador orientava que todos os jogadores realizassem as ações da mesma
maneira, buscando perfeição no movimento. Frases como "por este lado",
"com a parte de fora do pé", "coloca curva na bola" foram
escutadas a todos os momentos.
Nosso objetivo com a animação acima
não é discutir sua eficiência ou aplicabilidade desta atividade em especial,
mas apresentar elementos que constituem a metodologia tradicional de
treinamento e as características dos exercícios analíticos. Neste exemplo, as
habilidades de conduzir, driblar, cruzar e cabecear são trabalhadas de formas
previsíveis e isoladas do contexto de jogo, caracterizando o exercício
analítico.
Na metodologia tradicional, a técnica
do movimento não é o único foco do treinamento no futebol. Treinamentos físicos
e táticos também são realizados, pautados em exercícios analíticos. Iniciaremos
com um exemplo do trabalho físico realizado de forma segmentada. Assista ao
vídeo abaixo, com trechos de treinamentos de uma equipe da Itália.
Num jogo de futebol, um jogador
realiza diversos saltos, corridas em alta e baixa velocidade, mudanças de
direção, etc. Baseados nestas informações, preparadores físicos que acreditam
em exercícios analíticos, trabalham as capacidades físicas separadamente,
através de circuitos, treinamentos intervalados e contínuos, saltos sobre
cones, etc., para que estas capacidades adquiridas sejam aproveitadas durante o
jogo de futebol.
Neste sentido, as avaliações físicas também são realizadas com testes analíticos e buscam medir o desempenho dos atletas.
Neste sentido, as avaliações físicas também são realizadas com testes analíticos e buscam medir o desempenho dos atletas.
Porém, trabalhar os aspectos
físicos de forma segmentada, baseados na quantificação das demandas do jogo não
é única forma de preparar o jogador para uma partida.
Esta discussão
será retomada ao longo deste curso.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, o treinamento tático também é feito de forma segmentada, a partir de exercícios analíticos. Busca-se, através de movimentações pré-definidas e previsíveis, a repetição de padrões de movimentação da equipe. O objetivo, com esse tipo de trabalho, é que estes padrões treinados apareçam durante o jogo. Observe abaixo um vídeo de um treino de um treinador de uma equipe de Minas Gerais, buscando ultrapassagens e jogadas pela lateral.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, o treinamento tático também é feito de forma segmentada, a partir de exercícios analíticos. Busca-se, através de movimentações pré-definidas e previsíveis, a repetição de padrões de movimentação da equipe. O objetivo, com esse tipo de trabalho, é que estes padrões treinados apareçam durante o jogo. Observe abaixo um vídeo de um treino de um treinador de uma equipe de Minas Gerais, buscando ultrapassagens e jogadas pela lateral.
Em suma, os principais conceitos do
treinamento tradicional foram resumidos e apontados a seguir.
A partir
destes conceitos, no quadro abaixo, discutiremos algumas possíveis conclusões a
respeito do treinamento tradicional.
Porém, o objetivo deste curso não é
discutir a metodologia tradicional de treinamento. O que você viu até agora
servirá de base para alguns contrapontos, críticas e novas propostas que virão
a seguir.
Formação do Jogador
A
partir de agora, depois de feita a análise da metodologia tradicional,
passaremos a buscar alternativas sobre o que pode ser feito para aperfeiçoar os
treinamentos no futebol. Como preencher as lacunas deixadas pelos exercícios
analíticos? Se a ênfase na formação não deve estar na técnica, mas no jogar - o
que deve fazer parte do processo de formação?
Para dar início a esta discussão, assista ao vídeo - um trecho da entrevista realizada pela Universidade do Futebol com o Prof. Dr. Júlio Garganta, renomado estudioso do futebol da Universidade do Porto (Portugal).
Para dar início a esta discussão, assista ao vídeo - um trecho da entrevista realizada pela Universidade do Futebol com o Prof. Dr. Júlio Garganta, renomado estudioso do futebol da Universidade do Porto (Portugal).
Competências Essenciais para jogar:
O que é Jogo?
Os jogos possuem estruturas que
organizam os jogadores, as regras, as estruturas motrizes e as condições
externas. Esses elementos se interagem de maneira complexa, ou seja, todos eles
influenciam um ao outro, continuamente, enquanto o jogo se desenrola, gerando,
ao mesmo tempo, emergências. Essas emergências são as novas aprendizagens que
possibilitam o surgimento de novas adaptações emocionais, físicas, cognitivas e
motoras.
Temos
que pensar no objetivo do jogo proposto e se ele criará, realmente, um ambiente
propício para a aprendizagem. O jogo tem que ter significado para quem pratica,
senão ele pode acabar não sendo jogo. Para ser jogo, precisa ter regras
definidas que absorvam os participantes para o mundo do jogo, que é (quase)
outra realidade. Se for jogo, traz imprevisibilidade e incerteza; exige o
enfrentamento de situações-problema pelo jogador, que não sabe exatamente o que
está por vir.
Portanto, o
professor/treinador que utiliza um jogo precisa pensar muito bem em como esse
jogo funcionará e o que causará em seus alunos. Além disso, como veremos mais
adiante neste curso, para que os jogos tragam os efeitos desejados, é
necessário que estejam incluídos em um processo de aprendizagem maior.
Treinamento Tecnicista ou Tradicional - I parte
O Treinamento
Tradicional e a Formação do Jogador.
O Fim da
Metodologia Tecnicista?
Inteligência de
Jogo: O Coração da Metodologia Através de Jogos.
Assim, esperamos que aproveite bem seus estudos.
Neste capítulo, temos como principal objetivo colocar as características
e diferenças entre a metodologia tradicional e o treinamento através de jogos.
De acordo com o título desta aula, neste momento enfocaremos o treinamento tradicional
e a formação do jogador.
Porém, por que estudar o treinamento tradicional agora, se o objetivo do
curso é o treinamento através de jogos reduzidos?
É muito importante entender que para compreender as principais vantagens
do trabalho através de jogos, é necessário, primeiramente, mostrarmos os
conceitos, vantagens e desvantagens do treinamento tradicional. A metodologia
de treinamento, pautada na complexidade e na integração dos conceitos físicos,
técnicos e táticos, surge para tentar resolver alguns problemas existentes no
treinamento tradicional do futebol.
Antes de iniciarmos as discussões sobre jogos reduzidos, vamos analisar
um pouco da metodológica tradicional de treino, frequentemente em pregada no Brasil
em clubes das mais variadas expressões.
De maneira geral,
a metodologia mais utilizada no futebol é baseada no treinamento “Tecnicista”.
Como o próprio nome já diz neste tipo de trabalho é dada ênfase na técnica, ou
seja, nos fundamentos do jogo de futebol. Alguns exemplos deste fundamentos são
o passe, domínio, condução, drible, finalização, etc.
Segundo esta metodologia, para que seja possível jogar o
jogo é necessário, previamente, aprender a realizar os movimentos técnicos, que
são considerados como as "bases para o jogar". Busca-se, portanto, a
execução perfeita do movimento para que, em um segundo momento, estas
habilidades adquiridas possam ser treinadas em jogo.
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