domingo, 23 de outubro de 2016

Porque o treino deve ser bem preparado e planejado?


Porque o treino deve ser bem preparado e planejado?

Desconheço, hoje, que treinadores possam ter sucesso sem um planejamento correto do seu trabalho. Quando realizamos determinadas tarefas, o conhecimento da tarefa em causa e a experiência são suficientes para realizar a tarefa. Por exemplo, quando precisamos de um exercício de posse de bola, facilmente desenhamos um em nossa mente, distribuímos o material pelo campo e pelos jogadores, explicamos o exercício e começa a atividade. Mas, planejar um treino é mais complexo, pois é a preparação de múltiplas tarefas, que dependem de vários fatores. Não podemos organizar o treino como queremos, pois existem limitações, que já vamos perceber quais.

  1. Preparação prévia de todos os detalhes

O tempo de treino é limitado. Isso quer dizer que o treinador não tem tempo de estudar todas as condições de treino na mesma hora que o treino vai começar. Excitem condicionantes no treino, como o que queremos e o que precisamos treinar, que não podemos simplesmente escolher em cima da hora. Antes do treino, qualquer treinador deve reunir todas as informações possíveis, como condições para o treino, o que pretende treinar a equipe nesse dia, o adversário e o calendário, entre outras condicionantes. Por exemplo, se o treino é feito numa segunda ou terça-feira após um jogo, devemos planejar para recuperar os jogadores; numa quinta ou sexta-feira, já com o relatório na mão do próximo adversário, o treino deve estar mais focado na preparação do jogo. Tempo é precioso, e se um treinador organizar todo treino antes do mesmo começar, logo terá condições para correr bem do inicio ao fim.

  1. Os jogadores evoluem muito mais.

Um treino bem pensado, planejado é bem mais eficiente que um treino apenas dado. Ainda se vê treinador mandar os jogadores correr em volta do campo, logo em seguida um jogo formal e pronto, está feito. Se perceberem pouco ou nada de futebol, e os jogadores até acreditam que estão evoluindo, mas essa evolução não existe. O treino engloba varias vertentes, e o treinador precisa ter domínio em todas elas. Afinal de contas, ele é o responsável pelos jogadores durante o treino. Por exemplo, se tem um modelo de jogo a ser desenvolvido, correr em volta do campo e pedir que façam e ou aquilo aos jogadores, não basta, a não ser que sejam extremamente inteligentes para desenvolverem sozinhos (mas aí, seriam bastante mais inteligentes do que o treinador). Nem todos os exercícios servem para determinado modelo de jogo, logo o treinador precisa procurar os exercícios que mais convém para esse modelo de jogo.

Assim, o treino está focado em um objetivo e como tal a evolução dos jogadores está perdida.

 

  1. Trabalhar sem pressão é trabalhar com qualidade.

Quem não gosta de trabalhar sem pressão e que tudo aconteça naturalmente e bem feito?

Pois nem sempre é fácil trabalhar sem pressão, seja em que profissão for. Qual o jogador que sentirá confortável em ver o seu treinador nervoso como o que tem que fazer? Será que isso passa confiança aos jogadores? Obviamente não. Se o treinador fizer o seu trabalho como se tudo parecesse natural, os jogadores nem notam que o trabalho está sendo bem feito e a única coisa que pretendem é treinar. Já se o treinador não souber o que fazer em campo, meio perdido, os jogadores facilmente notam isso, e não sentem que o treino tem a qualidade que deveria ter. Um treinador com uma postura correta, confiante, e com um plano de treino bem organizado, transmite muito mais confiança aos jogadores acerca do seu método de treino. Por exemplo, por alguma razão Mourinho afirma que gosta do que faz. É a confiança que o treinador português tem no seu trabalho que em muito influencia a qualidade do mesmo.

  1. Conseguimos gastar muito tempo em planejar treino

Nos escalões inferiores, com pouco trabalho semanal, onde até muitos treinadores e jogadores tem outra profissão além o futebol, isso não é notório. Mas em clubes grandes, os treinadores tem o seu próprio escritório, tem muita informação para tratar (como relatório do departamento médico, do departamento de scouting, objetivos da direção, etc.), que condiciona bastante o trabalho do treinador. Logo, para que o treino corra bem por inteiro, deve estar tudo planejado ao máximo possível. Primeiro, isto, depois aquilo, depois outra coisa. Fazemos assim, dura tanto tempo, recupera tanto tempo. “Enquanto eu recupero os jogadores, você prepara o exercício tal, e você aproveita para preparar o material do exercício seguinte”.

Então, vamos pensar no planejamento do Treino?

FUNDAMENTOS TÁTICOS NO FUTEBOL


FUNDAMENTOS TÁTICOS NO FUTEBOL
A Tática no Futebol
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Embora não seja uma guerra, o futebol é o confronto entre duas nações representadas pelos seus “guerreiros” no campo.
Por isso, mesmo sendo um esporte, ele adapta o conceito de tática utilizado nas guerras: tática é a arte de dispor e ordenar tropas para combate.

Restringindo-se agora apenas ao futebol, dá para acrescentar outro conceito.
Como as equipes são compostas por pelo menos três setores – defesa, meio-campo e ataque – é preciso aplicar um sistema, responsável pela coordenação das partes entre si, transformando o que poderia ser um emaranhado de 11 jogadores em uma estrutura organizada.

Para isso, a partir da década de 1930, o futebol passou a evoluir com a criação de diversos sistemas táticos, responsáveis pela organização das equipes.
TÁTICA NO FUTEBOL

É preciso diferenciar três aspectos que contribuem para a execução do sistema tático adotado pela equipe.
Existem três tipos de táticas, e todas elas devem ser levadas em consideração pelo treinador de futebol.

Tática Individual: é a função desempenhada pelo jogador. Dentro da proposta coletiva, o técnico precisa estabelecer de maneira clara e eficiente o papel de cada um. Envolve as orientações sobre a movimentação do jogador, a postura ofensiva e a postura defensiva.

Tática de grupo: é o planejamento dirigido a um setor específico. Envolvem as atribuições de cobertura, apoio à marcação, linhas de passe e triangulações, ocupação e abertura de espaços.
Exemplo: tática de grupo para defesa e ataque no lado direito do campo, envolvendo o lateral-direito, o primeiro volante e o meia-articulador.
Conforme suas táticas individuais, todos precisam saber como auxiliar uns aos outros na marcação, e como se movimentar organizadamente nas investidas de ataque.

Tática coletiva: é o planejamento adotado para todo o time, aquele “dos números”, responsável por interligar e coordenar as táticas de grupo.
Mas o sucesso da tática coletiva depende da maneira como o treinador define as funções de cada jogador (táticas individuais) e a movimentação ordenada de cada setor (táticas de grupo).
Apenas definir o sistema tático, sem o cuidado de organizar as partes e as individualidades, não é suficiente.
 
ESTRATÉGIA

A estratégia não pode ser confundida com o sistema tático. Ela na verdade é a maneira como vai se comportar a equipe em campo.
Independentemente do sistema tático, o time pode adotar uma postura mais ofensiva ou mais defensiva.
Com o mesmo sistema tático, um time pode modificar a estratégia dentro de um jogo – invertendo jogadores de posição, por exemplo, ou alterando o sistema de marcação.
Mais ligada às táticas individual e de grupo, a estratégia leva em consideração a movimentação dos jogadores na marcação (cobertura, antecipação) e na articulação (antecipação, criação de espaços, formação de linhas de passe), e a característica dos atletas.
Times que se enfrentam com o mesmo esquema tático podem ter estratégias diferentes.
Por isso, é importante que os jogadores tenham capacidade para compreender as atribuições de cada função dentro da tática coletiva, assimilando mais de uma tática individual.
Isso oferece a oportunidade para que o treinador altere a estratégia com a bola rolando, sem a necessidade de fazer substituições, apenas modificando a função dos jogadores.
 
ZONAS DE MARCAÇÃO

A definição do sistema de marcação é fundamental dentro da estratégia de cada equipe. Mas também é preciso levar em consideração o preparo físico e a movimentação do adversário na definição do sistema de marcação.
De nada adiantaria, por exemplo, definir uma marcação-pressão se a equipe não tem condições físicas de aguentar essa exigência por muito tempo.

Zona: é a marcação utilizada principalmente nos clubes da Inglaterra. Delimitada a zona de atuação de cada jogador (tática individual), ele vai dar combate nos adversários que por ali transitarem.
Exige muita visão periférica para antecipar as jogadas e fazer a abordagem correta no momento em que for exigido.

Pressão: adiantam-se todos os setores (tática de grupo) e a marcação é feita no campo do adversário.
Os atacantes entram em combate direto com os zagueiros para induzir o adversário à ligação direta.

Meia-pressão: a defesa e o meio-campo adiantam-se, mas a pressão é exercida apenas pelos atacantes, na saída de bola dos adversários.

Individual: um jogador marca apenas um adversário, acompanhando o atleta em qualquer parte do campo.
Utilizada para anular algum jogador diferenciado de criação ou finalização.

Mista: é diferenciada por setor (tática de grupo).
Pode ser adotada pressão no ataque, a zona no meio e a individual na defesa, por exemplo.
 
SISTEMAS TÁTICOS

A evolução das regras e do preparo físico levou os treinadores a criar novos sistemas de acordo com a exigência de cada época.
No início, o futebol se resumia a um grande número de atletas no ataque.
A estratégia era a ligação direta. Mas, com a regra do impedimento, os times precisaram se organizar.

O enfoque passou do ataque para o meio, onde a bola precisaria permanecer por maior tempo em busca da articulação.
Cada sistema, entretanto, surge como oposição ao antecessor, exatamente pela necessidade de vencê-lo.

A FIFA reconhece apenas seis sistemas táticos. Os demais são considerados variações destes já existentes:
W.M – Arsenal - 1925
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É o primeiro sistema tático identificado na história do futebol. Tem três zagueiros em linha, dois volantes, dois meias de ligação e três atacantes. Fez tanto sucesso que todos passaram a usá-lo, “espelhando” os confrontos. Quem quisesse vencer teria de aumentar o número de atacantes.
CURIOSIDADE: Dele surgiu o termo “zagueiro central”, utilizado até hoje.
4-2-4 (utilizado pelo Brasil nas Copas de 58 e 62)
Com o objetivo de criar dificuldades para o W.M surgiu o 4-2-4. Com relação ao antecessor, um volante virou o 4º zagueiro, e um meia virou o 4º atacante. E no confronto com o W.M, ficaram 4 zagueiros para marcar 3 atacantes, e 4 atacantes contra três zagueiros. 
CURIOSIDADE: Dele surgiu o termo “quarto zagueiro”, utilizado até hoje.
4-3-3 (utilizado pelo Brasil na Copa de 1970)
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A simplificação do 4-2-4 reduziu a permanência da bola no meio-campo, resumindo-se o jogo à ligação direta. Aos poucos, entretanto, a atenção dos confrontos passou do ataque e da defesa para o meio-campo. E assim, o 4-3-3 é o primeiro sistema que busca aumentar a posse de bola no setor de criação. Pode variar de um volante e dois meias para dois volantes e um meia, modificando-se ainda mais com as estratégias de ataque ou defesa (laterais ofensivos ou defensivos, sistema de marcação e movimentação dos atacantes). Hoje, por exemplo, o Barcelona utiliza um 4-3-3 com laterais quase fixos à defesa, em linha, e atacantes de movimentação que jogam em diagonal, ao contrário dos antigos pontas, que corriam para o fundo e faziam cruzamentos. É o mesmo sistema, mas com uma estratégia diferente.
4-4-2 (utilizado pelo Brasil na Copa de 1994)
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Cada vez mais as atenções voltaram-se para o meio-campo. E então um dos atacantes passou para o setor de criação, eliminando a existência dos pontas. É um dos sistemas táticos que mais permite variações, dependendo da tática individual dos homens de meio e de ataque: variam o número de volantes e articuladores, o posicionamento de todos, e a característica dos atacantes. No meio, o desenho pode ser o quadrado, o losango, a linha, variando de um até quatro volantes. No ataque, também podem ser dois centroavantes fixos, ou dois atacantes de movimentação, ou então uma combinação entre o centroavante e o atacante.
CURIOSIDADE: Dele nasceu o termo “quarto homem de meio-campo”.
3-5-2 (nascido na Itália)
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Este é o esquema que mais sofre distorções. Nasceu na Itália com o conceito de líbero. O líbero (em italiano, “livre”), está originalmente localizado na defesa, mas é um jogador “livre” para se posicionar conforme as exigências da partida. Dentro do mesmo jogo pode estar atrás da linha de zagueiros – como homem da sobra, à frente deles – como volante, investir pelo meio ou pelas laterais, e até mesmo aparecer na área para concluir. Baresi é o maior exemplo de líbero bem sucedido pela inteligência com a qual se posicionava em campo, sempre atento à hora de modificar a própria posição.
Mas no Brasil o sistema é mal compreendido. No 3-5-2 tupiniquim, o líbero virou o “homem da sobra”, ou pior: o “terceiro zagueiro”. Atua fincado atrás da linha de zaga, sem liberdade para apoiar nem sequer de posicionar-se à frente deles, como um volante. E assim, o time perde volume no meio-campo.
Compreender a função do líbero é fundamental para o sucesso do 3-5-2, porque apenas com um jogador capaz de assimilar essa tática individual de extrema alternância de funções, com posicionamento, noção de cobertura e movimentação constante, pode exercê-la. Do contrário, o líbero seguirá sendo apenas um rebatedor atrás da linha de zaga.
Outro conceito trazido pelo 3-5-2 é o de alas, abolindo os laterais. Os alas têm na origem a função de não apenas jogar pelos lados, mas também ocupar os espaços de meio-campo na articulação das jogadas.
 
 
 
 
3-4-3 (Dinamarca 2002/Ájax 1995)
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É um sistema quase misto, que se utiliza dos conceitos de defesa do 3-5-2 (líbero, cobertura e posicionamento) de meio-campo do 4-4-2 (diversas possibilidades de desenhos e estratégias) e de ataque do 4-3-3 (retorno do 3º atacante).
Os demais esquemas são considerados pela FIFA variações destes seis reconhecidos. Portanto, o 3-6-1 pode ser visto como uma variação do 3-5-2, o 4-5-1 como uma alternativa ao 4-4-2 e assim por diante.
 
O FUTURO

O futebol está cada vez mais dependente da força física e da velocidade dos jogadores.
E isso vai se refletir nas opções relativas ao sistema tático – incluindo as táticas coletiva, de grupo e individual, à estratégia e ao sistema de marcação.

Dentro das estratégias, haverá cada vez mais variação de posicionamento tático dentro da mesma partida.
E por isso o jogador precisará ser cada vez mais inteligente e de raciocínio rápido.

Essas variações táticas vão exigir jogadores capazes de entender a necessidade da partida, com inteligência para cumprir mais de uma função tática individual e de assimilar diversos sistemas e estratégias, tanto de grupo como coletivas.
E assim esse jogador também terá autonomia para tomar decisões em campo.
O TREINADOR
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Guss Hiddink - Um dos treinadores mais estrategistas do Futebol Moderno
Com estes argumentos, fica muito claro porque sou tão crítico com os treinadores.
Muitos defendem que o poder de decisão está com os jogadores, que é a qualidade deles quem determina os vitoriosos, mas eu discordo.
Os méritos e as cobranças devem sim serem mais direcionadas ao treinador.

Neste pequeno resumo de apenas sete páginas expus uma diversidade de atribuições do treinador, mesmo as relacionadas ao desempenho do atleta.
Por muitas vezes, um jogador apresenta-se mal porque não tem uma tática individual clara, ou pior: foi escalado para cumprir uma função equivocada.
É o treinador quem define todas as táticas individuais, dos 10 jogadores de linha – e até do goleiro (reposição de bola, posicionamento como “homem da sobra”...), todas as táticas de grupo e encaixa essas definições na tática coletiva e na estratégia.
É o treinador quem faz o time jogar, e quando o técnico é limitado, não tem inteligência para definir táticas individuais coerentes com as táticas de grupo, integrada à tática coletiva e de acordo com a melhor estratégia, o time torna-se um emaranhado de atletas chocando-se dentro de campo como baratas desgovernadas.
"SEMPRE NO ESPORTE COLETIVO VENCERÁ A COLETIVIDADE QUE ESTIVER MELHOR ORGANIZADA"
"UM GÊNIO DENTRO DE UMA EQUIPE EMBARALHADA CAI DE PRODUÇÃO, ENQUANTO UM JOGADOR LIMITADO FAZENDO PARTE DE UMA ENGRENAGEM INTELIGENTE TORNA-SE ÚTIL”.
 
 

ATACAR DEFEDENDO


ATACAR DEFENDENDO

Atacar defendendo: Defesa à Zona Pressionante – parte I

 

“... Quando esse país 'se defende', como se costuma dizer (pois isso significa atacar; 'defesa' e 'ataque' não são coisas separadas: é a mesma coisa) e tem início a carnificina...”
Krishnamurti (1965)
 Para entender o que é a Defesa à Zona Pressionante no Futebol, temos primeiro que conceituá-la, e mais do que isso, temos que conceituar os outros métodos de defesa, para que deixemos claro o que é e o que não é Defesa à Zona Pressionante, descobrir suas vantagens e desvantagens. A partir desse momento poderemos discutir como utilizá-la, treiná-la e evolui-la!
Durante a primeira parte do artigo iremos discutir o que é Defesa Individual e Defesa Homem a Homem para, na segunda parte, desvendar os conceitos das Defesas à Zona Pressionante
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Defesa Individual como o nome diz é um método de defesa que se pauta, principalmente, na busca pelos ‘indivíduos’, ou seja, os adversários. Mas neste método defensivo cada jogador tem um adversário pré-determinado para marcar; por exemplo, antes de começar um jogo o treinador define claramente que o jogador 5 irá marcar o jogador 10 da equipe adversária
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Ou seja, a referência posicional (referência pela qual nosso jogador define o seu posicionamento) e a referência alvo de marcação (referência para quais os nossos jogadores ficarão atentos para marcar) são os jogadores adversários pré-determinados, mas não um jogador qualquer, um jogador que foi pré-determinado pelo treinador. Castelo (1996) afirma que “é a lei do um contra um.”.
Se fizermos isso, um dos nossos jogadores terá como objetivo anular o jogador 10, suas referências durante o jogo serão simplesmente o jogador 10. O nosso jogador irá se posicionar de acordo com o jogador 10 (referência posicional) e o nosso jogador terá como objetivo apenas anular este jogador (referência-alvo).
Aparentemente, sacrificamos o jogador 5, já que absolutamente tudo que ele fizer em termos defensivos é consequência do que fez o 10 adversário. E atentem-se ao tempo verbal: o jogador 5 responderá ao que o 10 já fizeram. Será que reagir à ação do outro é o melhor meio de defender? Deixemos isso para mais tarde.
Este método de defesa dificilmente é utilizado em toda a dimensão do campo, mas é comumente utilizado no futebol brasileiro para anular determinados jogadores que são considerados “mais importantes”.
Como prova disso temos a fala do atacante Lucas do São Paulo após um jogo contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ano passado: “Vou ser mais visado, os adversários vão chegar mais firme e sempre pode ter marcação individual. Mas eu tenho de escapar disso aí, me movimentar mais, criar espaço para meus companheiros. Vou precisar fazer alguma coisa.” Já na Defesa Homem a Homem, cada um dos nossos jogadores é responsável por uma zona que é determinada pelo treinador e quando um adversário entrar nessa zona ele será de inteira responsabilidade do “dono” da zona.


Como os adversários não são pré-determinados, nossos jogadores não estarão sempre marcando os mesmos jogadores durante toda a partida, mas é muito provável que alguns jogadores se “enfrentarão” mais vezes, por exemplo, o nosso lateral direito vai marcar, na maioria das situações, o meia direito adversário, e o nosso zagueiro pela esquerda vai marcar, na maioria das vezes, o atacante direito adversário e assim por diante.
Apesar de parecer algo bem diferente da Defesa Individual, este método é, na verdade, bem parecido. Aqui também acontece a “lei do um contra um”, mas ela apenas acontece quando um adversário invade a zona de um dos nossos jogadores. A partir deste momento toda a atenção do nosso jogador volta-se para o adversário direto e ele passa a acompanhá-lo por toda a dimensão da zona
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Amieiro (2004) afirma que “ao ser, simultaneamente, a grande “referência de posicionamento” e a única “referência alvo” de “marcação”, a referência adversário direto é aquela que baliza a Defesa Homem a Homem”. Veja que Amieiro coloca que o adversário direto é a grande referência de posicionamento, mas não única, a zona também é uma referência posicional do nosso jogador, mas a maior é o adversário e por isso acontece o chamado “encaixe” das equipes, ou “jogo de pares”
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Cada jogador tem sua “zona” para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando “encaixar” com o nosso adversário. É o chamado “Jogo de pares”. Sempre que acontece este “Jogo de pares”, acontece também do nosso jogador estar sempre tentando anular o seu par, mas isto, como dito sobre a Defesa Individual, implica que você está reagindo à ação do adversário, e reagir é estar sempre atrasado em relação a quem já agiu.
No vídeo há um exemplo bem recente desse método de Defesa, que é a defesa do Vasco no jogo contra o Corinthians em 05/08/12. Conseguimos observar facilmente que os jogadores do Vasco estão sempre marcando seus adversários diretos, e é esta reação que faz com que a chance de gol seja criada pelo ataque do Corinthians. O volante Nilton, do Vasco, está mais preocupado em seguir o meia Douglas, do Corinthians, do que ocupar o espaço vazio mais importante. E quando o Douglas percebe o espaço e se direciona a ele, o vascaíno não consegue acompanhá-lo. Além deste problema de reagir à ação do adversário, há também outro grande problema neste método defensivo que é: o que acontece quando há dois jogadores na mesma zona? Algum jogador teria que deixar sua zona para ir marcar o adversário, deixando livre o espaço que deveria estar protegido e isso pode desorganizar/desequilibrar nossa equipe.
Há também o fato de que se um dos nossos jogadores for ultrapassado, não há ninguém para lhe dar cobertura, já que cada jogador nosso está preocupado com um adversário direto. Claro que no caso de isso acontecer um dos nossos jogadores iria marcar o jogador com bola, mas deixaria livre o jogador que estava marcando antes, também podendo acarretar em uma desorganização/desequilíbrio da nossa equipe.

 

Atacar defendendo: defesa à zona pressionante - parte II

 

"..com os anos, percebi que gostava mais que me marcassem homem a homem porque me livraria facilmente deles, e ficaria sozinho. Pelo contrário, na marcação à zona, era mais complicado." (Maradona, em 2011)

Nesta segunda parte, iremos debater o que consideramos mais importante e absolutamente fundamental sobre os métodos defensivos, a defesa à zona pressionante.

Na defesa por zona temos referências bem diferentes do que as citadas nos outros métodos defensivos. Segundo Amieiro (2004), aqui a "referência alvo" de "marcação" é o espaço, ou seja, nossos jogadores buscam sempre se posicionar nos espaços mais valiosos. E a grande referência posicional é a bola, o que significa que nossos jogadores se movimentam buscando fechar os espaços mais valiosos (espaços próximos à bola e onde ela não pode entrar).

A zona tem também outra grande referência posicional que são os companheiros, para que com essa referência haja coberturas sucessivas para os companheiros em todas as situações.

Ou seja, quando defendemos utilizando a zona, defendemos coletivamente, fechando diferentes espaços de acordo com a posição da bola e a posição dos nossos companheiros. Deste modo, fazemos com que o adversário tenha dificuldades de colocar a bola nos espaços mais valiosos do campo e oferecendo coberturas sucessivas aos companheiros.

A zona condiciona o adversário a jogar por onde queremos que ele jogue, atraindo-o para locais onde conseguimos imprimir mais pressão na bola (esses espaços chamaremos de zonas pressionantes ou zonas pressing) e condicionar o erro do adversário.

Apesar do espaço mais valioso do campo ser onde a bola está (pois na fase defensiva o objetivo é recuperar a bola), cada treinador deve saber onde seu time tem facilidade para recuperar a bola e condicionar o adversário até este local, onde fará a zona pressing (pressão mais intensa), ou seja, a pressão pode ocorrer nas laterais do campo, na zona intermediária e onde mais o treinador entender que será mais eficaz para sua equipe fazer uma zona pressing.

Quando estamos defendendo à zona, defendemos no nosso próprio desenho tático, logo não há o "jogo de pares" e não existe o tal "encaixe" na equipe adversária, muito pelo contrário, cada equipe tem a sua própria defesa à zona adaptada ao seu modelo de jogo.

Como aqui nós não temos como referências os jogadores adversários, nós mesmos determinamos em quais posições defendemos, se defendemos no 1-4-3-3 ou no 1-4-4-2 ou em qualquer outro desenho tático (coisa que não acontece nos outros métodos defensivos). Dito isso, conseguimos ter posições definidas para os contra-ataques, pois a equipe conhece os espaços que tem de estar ocupados quando a recuperação de bola acontecer e saber que haverá um companheiro no outro espaço. Logo, as transições podem ser feitas de forma muito mais objetivas, enquanto nos outros métodos defensivos nos não sabemos onde nossos jogadores estarão quando recuperarmos a bola, já que ele está preocupado com o adversário e não com o espaço que deveria estar ocupando.

Defender bem para atacar melhor (Amieiro 2004). Essa frase define bem o que se pretende com a defesa por zona, aqui não queremos destruir o adversário, queremos construir o nosso jogo! Defendemos visando o ataque, que, por sua vez, visa o gol. Por isso, o pensamento de simplesmente não levar gols não se enquadra na zona. O objetivo é recuperar a bola. É atacar o adversário mesmo quando estamos defendendo. Tudo tem a ver com tudo.

Neste ponto, entramos em um assunto bastante polêmico e que assola o futebol brasileiro. Na zona, evita-se fazer falta, por quê? Porque aqui acreditamos que defender é um processo em que nós estamos sob controle e não o adversário, o adversário vai para onde deixamos ir e não para onde quer ir, pois aqui nós condicionamos as ações. Nós não respondemos a elas, nós as fazemos. Então, quando fazemos faltas, o processo de condução do adversário para locais onde nossa equipe é mais forte é interrompido completamente.

Como visto, se nossas grandes referências são a bola e os nossos companheiros é de se esperar que a equipe defenda de maneira compacta e próxima à bola, já que estamos sempre procurando imprimir pressão ao portador da bola e continuando com as coberturas.

Para conseguir manter esse bloco compacto quando a bola consegue atravessar de um lado ao outro do campo nós utilizamos a chamada basculação, que é o movimento do bloco de um lado para o outro. É a basculação para o lado direito ou para o esquerdo. E note-se como falamos da equipe, sempre como um bloco, não falamos de movimentos individuais para o mesmo lado e sim de um movimento como equipe para o lado ou para o outro, procurando fechar sempre os espaços considerados mais importantes.

Como dissemos anteriormente algumas equipes tem zonas pressionantes, que são zonas onde a pressão exercida na bola será muito maior do que é nas outras zonas do campo. Algumas equipes jogam sem zonas pressionantes. Mourinho (citado por Amieiro) não acredita tanto na eficiência dessas defesas quando diz:

"Quando falamos em futebol de alto nível, eu diria que homem a homem não existe, zonal existe, mas não me convence e a zona pressionante é o futebol de hoje e o futebol de amanhã."

Apesar de conceitualmente a zona pressing parecer ser um método de defesa que obrigatoriamente tem de acontecer na saída de bola do adversário, isso não é necessariamente uma verdade. A zona pressing pode ser alta, intermédia, baixa, pode acontecer no meio ou nas laterais ou em ambos. Ou seja, depende completamente do modelo de jogo da equipe. O fato é que há inúmeras maneiras de utilizar tanto a zona como a zona pressing.

Concluímos, então, que apenas o método defensivo defesa à zona pressing consegue realmente ‘atacar defendendo’, pois influencia os adversários a jogarem por onde queremos que joguem, mantém sempre a estrutura desejada para ter melhores transições e ainda oferece coberturas sucessivas. Mas temos de frisar que há defesas à zona que são ‘passivas’ e não têm zonas de pressão, acabam por ter as referências posicionais iguais (a bola e os companheiros), mas sem zonas de pressão, não impõem pressão na bola e não conduzem o adversário para lugares onde a equipe é mais forte.

Recomendamos agora, como forma de exercício, para compreender o que é uma defesa à zona pressionante, que assistam aos jogos: Barcelona x Real Madrid, em Barcelona, válido pela La Liga, no dia 21/04/12, no qual ambos jogam à zona pressionante, mas quando o assunto é transições rápidas, o Real Madrid é muito interessante para ser observado; e ao jogo Chelsea x Barcelona, em Londres, pela Uefa Champions League, no dia 18/04/12, no qual também ambos jogam à zona pressionante. Mas, no Chelsea temos um grande exemplo de zonas pressing bem definidas (principalmente à frente da área), transições organizadas, basculações e tudo que envolve a defesa à zona pressionante.