FUNDAMENTOS TÁTICOS NO FUTEBOL
A Tática no Futebol
Embora não seja uma guerra, o futebol
é o confronto entre duas nações representadas pelos seus “guerreiros” no
campo.
Por isso, mesmo sendo um esporte, ele
adapta o conceito de tática utilizado nas guerras: tática é a arte de dispor
e ordenar tropas para combate.
Restringindo-se agora apenas ao futebol, dá para acrescentar outro conceito.
Como as equipes são compostas por
pelo menos três setores – defesa, meio-campo e ataque – é preciso aplicar um sistema,
responsável pela coordenação das partes entre si, transformando o que poderia
ser um emaranhado de 11 jogadores em uma estrutura organizada.
Para isso, a partir da década de 1930, o futebol passou a evoluir com a criação de diversos sistemas táticos, responsáveis pela organização das equipes.
TÁTICA NO FUTEBOL
É preciso diferenciar três aspectos que contribuem para a execução do sistema tático adotado pela equipe.
Existem três tipos de táticas, e
todas elas devem ser levadas em consideração pelo treinador de futebol.
Tática Individual: é a função desempenhada pelo jogador. Dentro da proposta coletiva, o técnico precisa estabelecer de maneira clara e eficiente o papel de cada um. Envolve as orientações sobre a movimentação do jogador, a postura ofensiva e a postura defensiva. Tática de grupo: é o planejamento dirigido a um setor específico. Envolvem as atribuições de cobertura, apoio à marcação, linhas de passe e triangulações, ocupação e abertura de espaços.
Exemplo: tática de grupo para defesa
e ataque no lado direito do campo, envolvendo o lateral-direito, o primeiro
volante e o meia-articulador.
Conforme suas táticas individuais,
todos precisam saber como auxiliar uns aos outros na marcação, e como se
movimentar organizadamente nas investidas de ataque.
Tática coletiva: é o planejamento adotado para todo o time, aquele “dos números”, responsável por interligar e coordenar as táticas de grupo.
Mas o sucesso da tática coletiva
depende da maneira como o treinador define as funções de cada jogador
(táticas individuais) e a movimentação ordenada de cada setor (táticas de
grupo).
Apenas definir o sistema tático, sem
o cuidado de organizar as partes e as individualidades, não é suficiente.
ESTRATÉGIA
A estratégia não pode ser confundida com o sistema tático. Ela na verdade é a maneira como vai se comportar a equipe em campo.
Independentemente do sistema tático,
o time pode adotar uma postura mais ofensiva ou mais defensiva.
Com o mesmo sistema tático, um time
pode modificar a estratégia dentro de um jogo – invertendo jogadores de
posição, por exemplo, ou alterando o sistema de marcação.
Mais ligada às táticas individual e
de grupo, a estratégia leva em consideração a movimentação dos jogadores na
marcação (cobertura, antecipação) e na articulação (antecipação, criação de
espaços, formação de linhas de passe), e a característica dos atletas.
Times que se enfrentam com o mesmo
esquema tático podem ter estratégias diferentes.
Por isso, é importante que os
jogadores tenham capacidade para compreender as atribuições de cada função
dentro da tática coletiva, assimilando mais de uma tática individual.
Isso oferece a oportunidade para que
o treinador altere a estratégia com a bola rolando, sem a necessidade de
fazer substituições, apenas modificando a função dos jogadores.
ZONAS DE MARCAÇÃO
A definição do sistema de marcação é fundamental dentro da estratégia de cada equipe. Mas também é preciso levar em consideração o preparo físico e a movimentação do adversário na definição do sistema de marcação.
De nada adiantaria, por exemplo,
definir uma marcação-pressão se a equipe não tem condições físicas de
aguentar essa exigência por muito tempo.
Zona: é a marcação utilizada principalmente nos clubes da Inglaterra. Delimitada a zona de atuação de cada jogador (tática individual), ele vai dar combate nos adversários que por ali transitarem.
Exige muita visão periférica para
antecipar as jogadas e fazer a abordagem correta no momento em que for
exigido.
Pressão: adiantam-se todos os setores (tática de grupo) e a marcação é feita no campo do adversário.
Os atacantes entram em combate direto
com os zagueiros para induzir o adversário à ligação direta.
Meia-pressão: a defesa e o meio-campo adiantam-se, mas a pressão é exercida apenas pelos atacantes, na saída de bola dos adversários. Individual: um jogador marca apenas um adversário, acompanhando o atleta em qualquer parte do campo.
Utilizada para anular algum jogador
diferenciado de criação ou finalização.
Mista: é diferenciada por setor (tática de grupo).
Pode ser adotada pressão no ataque, a
zona no meio e a individual na defesa, por exemplo.
SISTEMAS TÁTICOS
A evolução das regras e do preparo físico levou os treinadores a criar novos sistemas de acordo com a exigência de cada época.
No início, o futebol se resumia a um
grande número de atletas no ataque.
A estratégia era a ligação direta.
Mas, com a regra do impedimento, os times precisaram se organizar.
O enfoque passou do ataque para o meio, onde a bola precisaria permanecer por maior tempo em busca da articulação.
Cada sistema, entretanto, surge como
oposição ao antecessor, exatamente pela necessidade de vencê-lo.
A FIFA reconhece apenas seis sistemas táticos. Os demais são considerados variações destes já existentes:
W.M – Arsenal -
1925
É o primeiro sistema tático
identificado na história do futebol. Tem três zagueiros em linha, dois
volantes, dois meias de ligação e três atacantes. Fez tanto sucesso que todos
passaram a usá-lo, “espelhando” os confrontos. Quem quisesse vencer teria de
aumentar o número de atacantes.
CURIOSIDADE: Dele surgiu o termo “zagueiro central”, utilizado até hoje.
4-2-4 (utilizado
pelo Brasil nas Copas de 58 e 62)
Com o objetivo de criar dificuldades para o W.M surgiu o 4-2-4. Com relação ao antecessor, um volante virou o 4º zagueiro, e um meia virou o 4º atacante. E no confronto com o W.M, ficaram 4 zagueiros para marcar 3 atacantes, e 4 atacantes contra três zagueiros. CURIOSIDADE: Dele surgiu o termo “quarto zagueiro”, utilizado até hoje.
4-3-3 (utilizado
pelo Brasil na Copa de 1970)
A simplificação do 4-2-4 reduziu a
permanência da bola no meio-campo, resumindo-se o jogo à ligação direta. Aos
poucos, entretanto, a atenção dos confrontos passou do ataque e da defesa
para o meio-campo. E assim, o 4-3-3 é o primeiro sistema que busca aumentar a
posse de bola no setor de criação. Pode variar de um volante e dois meias
para dois volantes e um meia, modificando-se ainda mais com as estratégias de
ataque ou defesa (laterais ofensivos ou defensivos, sistema de marcação e
movimentação dos atacantes). Hoje, por exemplo, o Barcelona utiliza um 4-3-3
com laterais quase fixos à defesa, em linha, e atacantes de movimentação que
jogam em diagonal, ao contrário dos antigos pontas, que corriam para o fundo
e faziam cruzamentos. É o mesmo sistema, mas com uma estratégia diferente.
4-4-2 (utilizado
pelo Brasil na Copa de 1994)
Cada vez mais as atenções voltaram-se
para o meio-campo. E então um dos atacantes passou para o setor de criação,
eliminando a existência dos pontas. É um dos sistemas táticos que mais
permite variações, dependendo da tática individual dos homens de meio e de
ataque: variam o número de volantes e articuladores, o posicionamento de
todos, e a característica dos atacantes. No meio, o desenho pode ser o
quadrado, o losango, a linha, variando de um até quatro volantes. No ataque,
também podem ser dois centroavantes fixos, ou dois atacantes de movimentação,
ou então uma combinação entre o centroavante e o atacante.
CURIOSIDADE: Dele nasceu o termo “quarto homem de meio-campo”.
3-5-2 (nascido na
Itália)
Este é o esquema que mais sofre
distorções. Nasceu na Itália com o conceito de líbero. O líbero (em italiano,
“livre”), está originalmente localizado na defesa, mas é um jogador “livre”
para se posicionar conforme as exigências da partida. Dentro do mesmo jogo
pode estar atrás da linha de zagueiros – como homem da sobra, à frente deles
– como volante, investir pelo meio ou pelas laterais, e até mesmo aparecer na
área para concluir. Baresi é o maior exemplo de líbero bem sucedido pela
inteligência com a qual se posicionava em campo, sempre atento à hora de
modificar a própria posição.
Mas no Brasil o sistema é mal compreendido. No 3-5-2 tupiniquim, o líbero virou o “homem da sobra”, ou pior: o “terceiro zagueiro”. Atua fincado atrás da linha de zaga, sem liberdade para apoiar nem sequer de posicionar-se à frente deles, como um volante. E assim, o time perde volume no meio-campo. Compreender a função do líbero é fundamental para o sucesso do 3-5-2, porque apenas com um jogador capaz de assimilar essa tática individual de extrema alternância de funções, com posicionamento, noção de cobertura e movimentação constante, pode exercê-la. Do contrário, o líbero seguirá sendo apenas um rebatedor atrás da linha de zaga. Outro conceito trazido pelo 3-5-2 é o de alas, abolindo os laterais. Os alas têm na origem a função de não apenas jogar pelos lados, mas também ocupar os espaços de meio-campo na articulação das jogadas.
3-4-3 (Dinamarca
2002/Ájax 1995)
É um sistema quase misto, que se
utiliza dos conceitos de defesa do 3-5-2 (líbero, cobertura e posicionamento)
de meio-campo do 4-4-2 (diversas possibilidades de desenhos e estratégias) e
de ataque do 4-3-3 (retorno do 3º atacante).
Os demais esquemas são considerados pela FIFA variações destes seis reconhecidos. Portanto, o 3-6-1 pode ser visto como uma variação do 3-5-2, o 4-5-1 como uma alternativa ao 4-4-2 e assim por diante.
O FUTURO
O futebol está cada vez mais dependente da força física e da velocidade dos jogadores.
E isso vai se refletir nas opções
relativas ao sistema tático – incluindo as táticas coletiva, de grupo e
individual, à estratégia e ao sistema de marcação.
Dentro das estratégias, haverá cada vez mais variação de posicionamento tático dentro da mesma partida.
E por isso o jogador precisará ser
cada vez mais inteligente e de raciocínio rápido.
Essas variações táticas vão exigir jogadores capazes de entender a necessidade da partida, com inteligência para cumprir mais de uma função tática individual e de assimilar diversos sistemas e estratégias, tanto de grupo como coletivas.
E assim esse jogador também terá
autonomia para tomar decisões em campo.
O TREINADOR
Com estes argumentos, fica muito
claro porque sou tão crítico com os treinadores.
Muitos defendem que o poder de
decisão está com os jogadores, que é a qualidade deles quem determina os
vitoriosos, mas eu discordo.
Os méritos e as cobranças devem sim
serem mais direcionadas ao treinador.
Neste pequeno resumo de apenas sete páginas expus uma diversidade de atribuições do treinador, mesmo as relacionadas ao desempenho do atleta.
Por muitas vezes, um jogador
apresenta-se mal porque não tem uma tática individual clara, ou pior: foi
escalado para cumprir uma função equivocada.
É o treinador quem define todas as táticas individuais, dos 10 jogadores de linha – e até do goleiro (reposição de bola, posicionamento como “homem da sobra”...), todas as táticas de grupo e encaixa essas definições na tática coletiva e na estratégia.
É o treinador quem faz o time jogar,
e quando o técnico é limitado, não tem inteligência para definir táticas
individuais coerentes com as táticas de grupo, integrada à tática coletiva e
de acordo com a melhor estratégia, o time torna-se um emaranhado de atletas
chocando-se dentro de campo como baratas desgovernadas.
"SEMPRE NO
ESPORTE COLETIVO VENCERÁ A COLETIVIDADE QUE ESTIVER MELHOR ORGANIZADA"
"UM GÊNIO
DENTRO DE UMA EQUIPE EMBARALHADA CAI DE PRODUÇÃO, ENQUANTO UM JOGADOR
LIMITADO FAZENDO PARTE DE UMA ENGRENAGEM INTELIGENTE TORNA-SE ÚTIL”.
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Sou professor de Educação Física, aposentado. Preparador Físico de Futebol, Técnico de Futebol formado pela Universidade da Gama Filho, RJ.
domingo, 23 de outubro de 2016
FUNDAMENTOS TÁTICOS NO FUTEBOL
ATACAR DEFEDENDO
ATACAR DEFENDENDO
Atacar defendendo: Defesa à Zona Pressionante – parte I
“... Quando esse país 'se defende', como se costuma dizer (pois isso
significa atacar; 'defesa' e 'ataque' não são coisas separadas: é a mesma
coisa) e tem início a carnificina...”
Krishnamurti (1965)
Para entender o que é a Defesa à Zona Pressionante no Futebol, temos primeiro que conceituá-la, e mais do que isso, temos que conceituar os outros métodos de defesa, para que deixemos claro o que é e o que não é Defesa à Zona Pressionante, descobrir suas vantagens e desvantagens. A partir desse momento poderemos discutir como utilizá-la, treiná-la e evolui-la!
Durante a primeira parte do artigo iremos discutir o que é Defesa Individual e Defesa Homem a Homem para, na segunda parte, desvendar os conceitos das Defesas à Zona Pressionante.
Defesa Individual como o nome diz é um método de defesa que se pauta, principalmente, na busca pelos ‘indivíduos’, ou seja, os adversários. Mas neste método defensivo cada jogador tem um adversário pré-determinado para marcar; por exemplo, antes de começar um jogo o treinador define claramente que o jogador 5 irá marcar o jogador 10 da equipe adversária.
Ou seja, a referência posicional (referência pela qual nosso jogador define o seu posicionamento) e a referência alvo de marcação (referência para quais os nossos jogadores ficarão atentos para marcar) são os jogadores adversários pré-determinados, mas não um jogador qualquer, um jogador que foi pré-determinado pelo treinador. Castelo (1996) afirma que “é a lei do um contra um.”.
Se fizermos isso, um dos nossos jogadores terá como objetivo anular o jogador 10, suas referências durante o jogo serão simplesmente o jogador 10. O nosso jogador irá se posicionar de acordo com o jogador 10 (referência posicional) e o nosso jogador terá como objetivo apenas anular este jogador (referência-alvo).
Aparentemente, sacrificamos o jogador 5, já que absolutamente tudo que ele fizer em termos defensivos é consequência do que fez o 10 adversário. E atentem-se ao tempo verbal: o jogador 5 responderá ao que o 10 já fizeram. Será que reagir à ação do outro é o melhor meio de defender? Deixemos isso para mais tarde.
Este método de defesa dificilmente é utilizado em toda a dimensão do campo, mas é comumente utilizado no futebol brasileiro para anular determinados jogadores que são considerados “mais importantes”.
Como prova disso temos a fala do atacante Lucas do São Paulo após um jogo contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ano passado: “Vou ser mais visado, os adversários vão chegar mais firme e sempre pode ter marcação individual. Mas eu tenho de escapar disso aí, me movimentar mais, criar espaço para meus companheiros. Vou precisar fazer alguma coisa.” Já na Defesa Homem a Homem, cada um dos nossos jogadores é responsável por uma zona que é determinada pelo treinador e quando um adversário entrar nessa zona ele será de inteira responsabilidade do “dono” da zona.
Como os adversários não são pré-determinados, nossos jogadores não estarão sempre marcando os mesmos jogadores durante toda a partida, mas é muito provável que alguns jogadores se “enfrentarão” mais vezes, por exemplo, o nosso lateral direito vai marcar, na maioria das situações, o meia direito adversário, e o nosso zagueiro pela esquerda vai marcar, na maioria das vezes, o atacante direito adversário e assim por diante.
Apesar de parecer algo bem diferente da Defesa Individual, este método é, na verdade, bem parecido. Aqui também acontece a “lei do um contra um”, mas ela apenas acontece quando um adversário invade a zona de um dos nossos jogadores. A partir deste momento toda a atenção do nosso jogador volta-se para o adversário direto e ele passa a acompanhá-lo por toda a dimensão da zona.
Amieiro (2004) afirma que “ao ser, simultaneamente, a grande “referência de posicionamento” e a única “referência alvo” de “marcação”, a referência adversário direto é aquela que baliza a Defesa Homem a Homem”. Veja que Amieiro coloca que o adversário direto é a grande referência de posicionamento, mas não única, a zona também é uma referência posicional do nosso jogador, mas a maior é o adversário e por isso acontece o chamado “encaixe” das equipes, ou “jogo de pares”.
Cada jogador tem sua “zona” para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando “encaixar” com o nosso adversário. É o chamado “Jogo de pares”. Sempre que acontece este “Jogo de pares”, acontece também do nosso jogador estar sempre tentando anular o seu par, mas isto, como dito sobre a Defesa Individual, implica que você está reagindo à ação do adversário, e reagir é estar sempre atrasado em relação a quem já agiu.
No vídeo há um exemplo bem recente desse método de Defesa, que é a defesa do Vasco no jogo contra o Corinthians em 05/08/12. Conseguimos observar facilmente que os jogadores do Vasco estão sempre marcando seus adversários diretos, e é esta reação que faz com que a chance de gol seja criada pelo ataque do Corinthians. O volante Nilton, do Vasco, está mais preocupado em seguir o meia Douglas, do Corinthians, do que ocupar o espaço vazio mais importante. E quando o Douglas percebe o espaço e se direciona a ele, o vascaíno não consegue acompanhá-lo. Além deste problema de reagir à ação do adversário, há também outro grande problema neste método defensivo que é: o que acontece quando há dois jogadores na mesma zona? Algum jogador teria que deixar sua zona para ir marcar o adversário, deixando livre o espaço que deveria estar protegido e isso pode desorganizar/desequilibrar nossa equipe.
Há também o fato de que se um dos nossos jogadores for ultrapassado, não há ninguém para lhe dar cobertura, já que cada jogador nosso está preocupado com um adversário direto. Claro que no caso de isso acontecer um dos nossos jogadores iria marcar o jogador com bola, mas deixaria livre o jogador que estava marcando antes, também podendo acarretar em uma desorganização/desequilíbrio da nossa equipe.
Krishnamurti (1965)
Para entender o que é a Defesa à Zona Pressionante no Futebol, temos primeiro que conceituá-la, e mais do que isso, temos que conceituar os outros métodos de defesa, para que deixemos claro o que é e o que não é Defesa à Zona Pressionante, descobrir suas vantagens e desvantagens. A partir desse momento poderemos discutir como utilizá-la, treiná-la e evolui-la!
Durante a primeira parte do artigo iremos discutir o que é Defesa Individual e Defesa Homem a Homem para, na segunda parte, desvendar os conceitos das Defesas à Zona Pressionante.
Defesa Individual como o nome diz é um método de defesa que se pauta, principalmente, na busca pelos ‘indivíduos’, ou seja, os adversários. Mas neste método defensivo cada jogador tem um adversário pré-determinado para marcar; por exemplo, antes de começar um jogo o treinador define claramente que o jogador 5 irá marcar o jogador 10 da equipe adversária.
Ou seja, a referência posicional (referência pela qual nosso jogador define o seu posicionamento) e a referência alvo de marcação (referência para quais os nossos jogadores ficarão atentos para marcar) são os jogadores adversários pré-determinados, mas não um jogador qualquer, um jogador que foi pré-determinado pelo treinador. Castelo (1996) afirma que “é a lei do um contra um.”.
Se fizermos isso, um dos nossos jogadores terá como objetivo anular o jogador 10, suas referências durante o jogo serão simplesmente o jogador 10. O nosso jogador irá se posicionar de acordo com o jogador 10 (referência posicional) e o nosso jogador terá como objetivo apenas anular este jogador (referência-alvo).
Aparentemente, sacrificamos o jogador 5, já que absolutamente tudo que ele fizer em termos defensivos é consequência do que fez o 10 adversário. E atentem-se ao tempo verbal: o jogador 5 responderá ao que o 10 já fizeram. Será que reagir à ação do outro é o melhor meio de defender? Deixemos isso para mais tarde.
Este método de defesa dificilmente é utilizado em toda a dimensão do campo, mas é comumente utilizado no futebol brasileiro para anular determinados jogadores que são considerados “mais importantes”.
Como prova disso temos a fala do atacante Lucas do São Paulo após um jogo contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ano passado: “Vou ser mais visado, os adversários vão chegar mais firme e sempre pode ter marcação individual. Mas eu tenho de escapar disso aí, me movimentar mais, criar espaço para meus companheiros. Vou precisar fazer alguma coisa.” Já na Defesa Homem a Homem, cada um dos nossos jogadores é responsável por uma zona que é determinada pelo treinador e quando um adversário entrar nessa zona ele será de inteira responsabilidade do “dono” da zona.
Como os adversários não são pré-determinados, nossos jogadores não estarão sempre marcando os mesmos jogadores durante toda a partida, mas é muito provável que alguns jogadores se “enfrentarão” mais vezes, por exemplo, o nosso lateral direito vai marcar, na maioria das situações, o meia direito adversário, e o nosso zagueiro pela esquerda vai marcar, na maioria das vezes, o atacante direito adversário e assim por diante.
Apesar de parecer algo bem diferente da Defesa Individual, este método é, na verdade, bem parecido. Aqui também acontece a “lei do um contra um”, mas ela apenas acontece quando um adversário invade a zona de um dos nossos jogadores. A partir deste momento toda a atenção do nosso jogador volta-se para o adversário direto e ele passa a acompanhá-lo por toda a dimensão da zona.
Amieiro (2004) afirma que “ao ser, simultaneamente, a grande “referência de posicionamento” e a única “referência alvo” de “marcação”, a referência adversário direto é aquela que baliza a Defesa Homem a Homem”. Veja que Amieiro coloca que o adversário direto é a grande referência de posicionamento, mas não única, a zona também é uma referência posicional do nosso jogador, mas a maior é o adversário e por isso acontece o chamado “encaixe” das equipes, ou “jogo de pares”.
Cada jogador tem sua “zona” para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando “encaixar” com o nosso adversário. É o chamado “Jogo de pares”. Sempre que acontece este “Jogo de pares”, acontece também do nosso jogador estar sempre tentando anular o seu par, mas isto, como dito sobre a Defesa Individual, implica que você está reagindo à ação do adversário, e reagir é estar sempre atrasado em relação a quem já agiu.
No vídeo há um exemplo bem recente desse método de Defesa, que é a defesa do Vasco no jogo contra o Corinthians em 05/08/12. Conseguimos observar facilmente que os jogadores do Vasco estão sempre marcando seus adversários diretos, e é esta reação que faz com que a chance de gol seja criada pelo ataque do Corinthians. O volante Nilton, do Vasco, está mais preocupado em seguir o meia Douglas, do Corinthians, do que ocupar o espaço vazio mais importante. E quando o Douglas percebe o espaço e se direciona a ele, o vascaíno não consegue acompanhá-lo. Além deste problema de reagir à ação do adversário, há também outro grande problema neste método defensivo que é: o que acontece quando há dois jogadores na mesma zona? Algum jogador teria que deixar sua zona para ir marcar o adversário, deixando livre o espaço que deveria estar protegido e isso pode desorganizar/desequilibrar nossa equipe.
Há também o fato de que se um dos nossos jogadores for ultrapassado, não há ninguém para lhe dar cobertura, já que cada jogador nosso está preocupado com um adversário direto. Claro que no caso de isso acontecer um dos nossos jogadores iria marcar o jogador com bola, mas deixaria livre o jogador que estava marcando antes, também podendo acarretar em uma desorganização/desequilíbrio da nossa equipe.
Atacar
defendendo: defesa à zona pressionante - parte II
"..com os anos, percebi que gostava mais que me marcassem homem a
homem porque me livraria facilmente deles, e ficaria sozinho. Pelo contrário,
na marcação à zona, era mais complicado." (Maradona, em 2011)
Nesta segunda parte, iremos debater o que consideramos mais importante e
absolutamente fundamental sobre os métodos defensivos, a defesa à zona
pressionante.
Na defesa por zona temos referências bem diferentes do que as citadas
nos outros métodos defensivos. Segundo Amieiro (2004), aqui a "referência
alvo" de "marcação" é o espaço, ou seja, nossos jogadores buscam
sempre se posicionar nos espaços mais valiosos. E a grande referência
posicional é a bola, o que significa que nossos jogadores se movimentam
buscando fechar os espaços mais valiosos (espaços próximos à bola e onde ela
não pode entrar).
A zona tem também outra grande referência posicional que são os
companheiros, para que com essa referência haja coberturas sucessivas para os
companheiros em todas as situações.
Ou seja, quando defendemos utilizando a zona, defendemos coletivamente,
fechando diferentes espaços de acordo com a posição da bola e a posição dos
nossos companheiros. Deste modo, fazemos com que o adversário tenha
dificuldades de colocar a bola nos espaços mais valiosos do campo e oferecendo
coberturas sucessivas aos companheiros.
A zona condiciona o adversário a jogar por onde queremos que ele jogue,
atraindo-o para locais onde conseguimos imprimir mais pressão na bola (esses
espaços chamaremos de zonas pressionantes ou zonas pressing) e condicionar o
erro do adversário.
Apesar do espaço mais valioso do campo ser onde a bola está (pois na
fase defensiva o objetivo é recuperar a bola), cada treinador deve saber onde
seu time tem facilidade para recuperar a bola e condicionar o adversário até
este local, onde fará a zona pressing (pressão mais intensa), ou seja, a
pressão pode ocorrer nas laterais do campo, na zona intermediária e onde mais o
treinador entender que será mais eficaz para sua equipe fazer uma zona
pressing.
Quando estamos defendendo à zona, defendemos no nosso próprio desenho
tático, logo não há o "jogo de pares" e não existe o tal
"encaixe" na equipe adversária, muito pelo contrário, cada equipe tem
a sua própria defesa à zona adaptada ao seu modelo de jogo.
Como aqui nós não temos como referências os jogadores adversários, nós
mesmos determinamos em quais posições defendemos, se defendemos no 1-4-3-3 ou
no 1-4-4-2 ou em qualquer outro desenho tático (coisa que não acontece nos
outros métodos defensivos). Dito isso, conseguimos ter posições definidas para
os contra-ataques, pois a equipe conhece os espaços que tem de estar ocupados
quando a recuperação de bola acontecer e saber que haverá um companheiro no
outro espaço. Logo, as transições podem ser feitas de forma muito mais
objetivas, enquanto nos outros métodos defensivos nos não sabemos onde nossos
jogadores estarão quando recuperarmos a bola, já que ele está preocupado com o
adversário e não com o espaço que deveria estar ocupando.
Defender bem para atacar melhor (Amieiro 2004). Essa frase define bem o
que se pretende com a defesa por zona, aqui não queremos destruir o adversário,
queremos construir o nosso jogo! Defendemos visando o ataque, que, por sua vez,
visa o gol. Por isso, o pensamento de simplesmente não levar gols não se
enquadra na zona. O objetivo é recuperar a bola. É atacar o adversário mesmo
quando estamos defendendo. Tudo tem a ver com tudo.
Neste ponto, entramos em um assunto bastante polêmico e que assola o
futebol brasileiro. Na zona, evita-se fazer falta, por quê? Porque aqui acreditamos
que defender é um processo em que nós estamos sob controle e não o adversário,
o adversário vai para onde deixamos ir e não para onde quer ir, pois aqui nós
condicionamos as ações. Nós não respondemos a elas, nós as fazemos. Então,
quando fazemos faltas, o processo de condução do adversário para locais onde
nossa equipe é mais forte é interrompido completamente.
Como visto, se nossas grandes referências são a bola e os nossos
companheiros é de se esperar que a equipe defenda de maneira compacta e próxima
à bola, já que estamos sempre procurando imprimir pressão ao portador da bola e
continuando com as coberturas.
Para conseguir manter esse bloco compacto quando a bola consegue
atravessar de um lado ao outro do campo nós utilizamos a chamada basculação,
que é o movimento do bloco de um lado para o outro. É a basculação para o lado
direito ou para o esquerdo. E note-se como falamos da equipe, sempre como um
bloco, não falamos de movimentos individuais para o mesmo lado e sim de um
movimento como equipe para o lado ou para o outro, procurando fechar sempre os
espaços considerados mais importantes.
Como dissemos anteriormente algumas equipes tem zonas pressionantes, que
são zonas onde a pressão exercida na bola será muito maior do que é nas outras
zonas do campo. Algumas equipes jogam sem zonas pressionantes. Mourinho (citado
por Amieiro) não acredita tanto na eficiência dessas defesas quando diz:
"Quando falamos em futebol de alto nível, eu diria que homem a
homem não existe, zonal existe, mas não me convence e a zona pressionante é o
futebol de hoje e o futebol de amanhã."
Apesar de conceitualmente a zona pressing parecer ser um método de
defesa que obrigatoriamente tem de acontecer na saída de bola do adversário,
isso não é necessariamente uma verdade. A zona pressing pode ser alta,
intermédia, baixa, pode acontecer no meio ou nas laterais ou em ambos. Ou seja,
depende completamente do modelo de jogo da equipe. O fato é que há inúmeras
maneiras de utilizar tanto a zona como a zona pressing.
Concluímos, então, que apenas o método defensivo defesa à zona pressing
consegue realmente ‘atacar defendendo’, pois influencia os adversários a
jogarem por onde queremos que joguem, mantém sempre a estrutura desejada para
ter melhores transições e ainda oferece coberturas sucessivas. Mas temos de
frisar que há defesas à zona que são ‘passivas’ e não têm zonas de pressão,
acabam por ter as referências posicionais iguais (a bola e os companheiros),
mas sem zonas de pressão, não impõem pressão na bola e não conduzem o adversário
para lugares onde a equipe é mais forte.
Recomendamos agora, como forma de
exercício, para compreender o que é uma defesa à zona pressionante, que
assistam aos jogos: Barcelona x Real Madrid, em Barcelona, válido pela La Liga,
no dia 21/04/12, no qual ambos jogam à zona pressionante, mas quando o assunto
é transições rápidas, o Real Madrid é muito interessante para ser observado; e
ao jogo Chelsea x Barcelona, em Londres, pela Uefa Champions League, no dia
18/04/12, no qual também ambos jogam à zona pressionante. Mas, no Chelsea temos
um grande exemplo de zonas pressing bem definidas (principalmente à frente da
área), transições organizadas, basculações e tudo que envolve a defesa à zona
pressionante.
A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo
A compreensão do
futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude
Bayer I
Complexidade
do futebol é elemento fundamental para análises sobre o tema
Renato
Francisco Rodrigues Marques
Um jogo
de futebol é composto de 11 jogadores para cada lado, que disputam a posse de
bola com a finalidade de colocá-la dentro da baliza adversária. No entanto, a
presença desses jogadores não garante que acontecerá uma partida de futebol, é
necessária a interação dos atores com seus colegas e com a equipe adversária
para que isso ocorra. Ou seja, o futebol é um encontro complexo entre oponentes
e parceiros, e sua inter-relação forma o contexto do mesmo.
Nesse sentido, Scaglia (2003) aponta que as partes isoladas de um jogo permitem determinar comportamentos e não o jogo em si como um todo complexo e contextualizado. Não é apenas a fragmentação das ações e situações que possibilitam a compreensão do ato de jogar, mas sim, o estabelecimento de formas de relação entre razões (por que fazer) e ações (o que e como fazer).
Esse quadro faz do jogo de futebol, assim como qualquer outro esporte coletivo, um campo no qual se interagem ações individuais, o que gera uma ação grupal. Essa compreensão se faz importante porque não é a realização motora (técnica) que dá razão de ser ao jogo, mas sim, seus objetivos, regras e contextos, que norteiam as intenções e razões das ações (tática).
Por essa razão é que, num processo de ensino ou treinamento dessa modalidade, algumas questões devem ser consideradas por técnicos e professores. Em primeiro lugar, é preciso conhecer o que são os jogos coletivos, suas particularidades, objetivos e limites de ação. Segundo, como deve atuar o sujeito em jogos esportivos dessa natureza. E em terceiro, como ensinar ou como treinar jogadores da melhor maneira possível dentro dessas informações.
O segundo e terceiro tópicos dizem respeito, de forma mais específica, a questões pedagógicas e de conhecimento próprio da modalidade em questão, porém, só têm razão de ser baseadas no contexto elaborado pelo primeiro.
Nesse sentido é que se torna útil a busca pelo que deve ser ensinado, ou seja, uma maior exploração sobre a compreensão de o que são os esportes coletivos e o que dá sentido às ações no campo de jogo.
Existem inúmeros referenciais teóricos que exploram uma melhor compreensão dos esportes coletivos. Para esse trabalho será utilizada a obra de Claude Bayer, autor francês que desenvolveu uma teoria de compreensão e ensino desses jogos.
A premissa desse autor é que os jogos esportivos coletivos têm em comum uma série de princípios operacionais que podem ser compreendidos e exemplificados em diversas modalidades. A forma que Bayer (1994, p.32-33) aponta essa indicação é através da identificação de invariantes, ou seja, características em comum entre todas as modalidades esportivas coletivas:
- BOLA: esférica ou oval, as regras da modalidade determinarão como esta deverá ser manipulada;
- TERRENO DEMARCADO: dentro do qual se desenvolverá a partida;
- ALVO A ATACAR E ALVO A DEFENDER: objetivo da modalidade, marcar o ponto e procurar impedir o adversário de marcar;
- PARCEIROS: ajudam na progressão da bola e na defesa do alvo;
- ADVERSÁRIOS: estes devem ser vencidos para a marcação do ponto;
- REGRAS DO JOGO: devem ser respeitadas.
As modalidades coletivas são jogos de oposição, isto é, duas equipes que têm o mesmo objetivo e se opõem durante uma partida de modo a medirem forças na tentativa de superar o esforço adversário.
Como base para essa compreensão, Bayer (1994, p.47) define os Princípios operacionais do ataque e da defesa em modalidades coletivas, e o conceito de regras de ação como os jogadores aplicarão tais princípios durante o jogo. É importante considerar que, para esse autor, a equipe está em situação de ataque quando detém a posse de bola, e na situação contrária, encontra-se na defesa.
Tais princípios seriam as funções do ataque e da defesa durante a realização de uma partida. São formas de ação que norteiam o ato de jogar coletivamente, dão sentido ao jogo e formam a lógica central de sistemas, estratégias, padrões e intenções durante uma partida. Existem com base nas regras e exigências de realização impostas pelos jogos esportivos coletivos.
Nesse sentido, Scaglia (2003) aponta que as partes isoladas de um jogo permitem determinar comportamentos e não o jogo em si como um todo complexo e contextualizado. Não é apenas a fragmentação das ações e situações que possibilitam a compreensão do ato de jogar, mas sim, o estabelecimento de formas de relação entre razões (por que fazer) e ações (o que e como fazer).
Esse quadro faz do jogo de futebol, assim como qualquer outro esporte coletivo, um campo no qual se interagem ações individuais, o que gera uma ação grupal. Essa compreensão se faz importante porque não é a realização motora (técnica) que dá razão de ser ao jogo, mas sim, seus objetivos, regras e contextos, que norteiam as intenções e razões das ações (tática).
Por essa razão é que, num processo de ensino ou treinamento dessa modalidade, algumas questões devem ser consideradas por técnicos e professores. Em primeiro lugar, é preciso conhecer o que são os jogos coletivos, suas particularidades, objetivos e limites de ação. Segundo, como deve atuar o sujeito em jogos esportivos dessa natureza. E em terceiro, como ensinar ou como treinar jogadores da melhor maneira possível dentro dessas informações.
O segundo e terceiro tópicos dizem respeito, de forma mais específica, a questões pedagógicas e de conhecimento próprio da modalidade em questão, porém, só têm razão de ser baseadas no contexto elaborado pelo primeiro.
Nesse sentido é que se torna útil a busca pelo que deve ser ensinado, ou seja, uma maior exploração sobre a compreensão de o que são os esportes coletivos e o que dá sentido às ações no campo de jogo.
Existem inúmeros referenciais teóricos que exploram uma melhor compreensão dos esportes coletivos. Para esse trabalho será utilizada a obra de Claude Bayer, autor francês que desenvolveu uma teoria de compreensão e ensino desses jogos.
A premissa desse autor é que os jogos esportivos coletivos têm em comum uma série de princípios operacionais que podem ser compreendidos e exemplificados em diversas modalidades. A forma que Bayer (1994, p.32-33) aponta essa indicação é através da identificação de invariantes, ou seja, características em comum entre todas as modalidades esportivas coletivas:
- BOLA: esférica ou oval, as regras da modalidade determinarão como esta deverá ser manipulada;
- TERRENO DEMARCADO: dentro do qual se desenvolverá a partida;
- ALVO A ATACAR E ALVO A DEFENDER: objetivo da modalidade, marcar o ponto e procurar impedir o adversário de marcar;
- PARCEIROS: ajudam na progressão da bola e na defesa do alvo;
- ADVERSÁRIOS: estes devem ser vencidos para a marcação do ponto;
- REGRAS DO JOGO: devem ser respeitadas.
As modalidades coletivas são jogos de oposição, isto é, duas equipes que têm o mesmo objetivo e se opõem durante uma partida de modo a medirem forças na tentativa de superar o esforço adversário.
Como base para essa compreensão, Bayer (1994, p.47) define os Princípios operacionais do ataque e da defesa em modalidades coletivas, e o conceito de regras de ação como os jogadores aplicarão tais princípios durante o jogo. É importante considerar que, para esse autor, a equipe está em situação de ataque quando detém a posse de bola, e na situação contrária, encontra-se na defesa.
Tais princípios seriam as funções do ataque e da defesa durante a realização de uma partida. São formas de ação que norteiam o ato de jogar coletivamente, dão sentido ao jogo e formam a lógica central de sistemas, estratégias, padrões e intenções durante uma partida. Existem com base nas regras e exigências de realização impostas pelos jogos esportivos coletivos.
|
PRINCIPÍOS
OPERAICONAIS DOS ESPORTES COLETIVOS
|
|
|
ATAQUE
|
DEFESA
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|
Manutenção da
posse de bola
|
Recuperação da
posse de bola
|
|
Progressão ao
campo do adversário
|
Contenção do
avanço adversário
|
|
Finalização à meta
|
Defesa da meta
|
(Adaptado
de Bayer, 1994)
Como uma exploração mais detalhada tem-se (MICHELINI, 2007, p.48):
Conservação da bola / Recuperação da bola - Enquanto o ataque coordena suas funções de modo a conservar a posse de bola, esperar o momento certo, procurar desequilibrar a defesa e selecionar o melhor ataque. Por sua vez, a defesa terá por oposição a essas atitudes ofensivas, recuperar a posse de bola de modo que depois de recuperada a bola se inverta os papéis e, assim, o time que antes defendia teria a oportunidade de atacar após recuperar a posse de bola.
Progressão dos jogadores / Impedir a progressão - Por se tratar de um jogo de invasão, sendo que no campo adversário está o alvo a ser atacado para a realização do ponto, é de extrema importância que o ataque consiga se aproximar do alvo. Quanto mais próximo do alvo chegar mais chance de êxito o ataque terá. De maneira antagônica, é interessante para a defesa proteger seu campo e sua meta de forma a coordenar suas funções visando afastar o máximo possível o ataque adversário de sua meta, dificultando assim a finalização do ataque.
Atacar a baliza / Proteger a baliza - Seria o objetivo dos jogos coletivos, vence a equipe que marcar mais pontos. Dessa forma, em busca da vitória, cada equipe deve considerar dois pontos: a) ataque à baliza para a realização do ponto; b) proteção da baliza para a não realização do ponto do adversário.
Os princípios operacionais descritos por Bayer (1994) se relacionam entre si, isto é, para o sucesso da ação coletiva de ataque ou defesa todos eles são igualmente importantes, não havendo hierarquia de importância entre os princípios operacionais.
Pode-se perceber que os princípios operacionais são antagônicos, isto é, cada um dos princípios de ataque tem um correspondente defensivo que tem por objetivo anulá-lo. A tendência durante o transcorrer de uma partida é que esses princípios se anulem e estabeleçam equilíbrio devido ao fato de serem antagônicos no ataque e na defesa. Mora nesse ponto o fator de grande importância no futebol. A equipe que conseguir desequilibrar essa relação a seu favor, tem maiores possibilidades de vitória.
É nas entrelinhas desse embate entre ataque-defesa que se encontra o fator de interesse e de atuação de técnicos e professores. O que fazer para cumprir com eficácia os princípios operacionais de modo e "desequilibrar" a balança do jogo a seu favor.
Para resolver tal questão, é necessário compreender especificidades das modalidades esportivas e explorar suas Regras de ação, que segundo Bayer (1994), é as maneiras de intervenção do jogador durante a partida, norteadas pelo sentido tático do jogo.
Portanto, para uma compreensão do que são esportes coletivos e do que é que norteiam as ações do jogador, e consequentemente, os princípios do treinamento/ensino técnico/tático, uma forma interessante não é se apoiar em questões fragmentadas em atos motores e realizações meramente eficientes tecnicamente, mas sim, buscar situá-las num contexto de jogo, suas razões e formas de aplicações, atreladas à resolução de problemas e busca por soluções que sejam coerentes com a dinâmica e com os princípios conformadores do jogo. No caso dos esportes coletivos, uma forma é tomar como base os limites das invariantes e o sentido dos Princípios Operacionais.
O desenvolvimento de métodos e processos pedagógicos só se justifica se vinculado a um princípio de compreensão do quê será ensinado. É nessa direção que a contribuição de Bayer (1994) não se faz definitiva, mas interessante e enriquecedora como alicerce para pedagogos do esporte determinar sua forma de trabalho e, mais importante, o conteúdo a ser administrado em processos de aprendizagem/treinamento do futebol.
Bibliografia
SCAGLIA, Alcides. O futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes (2003). Tese de Doutorado. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.
Como uma exploração mais detalhada tem-se (MICHELINI, 2007, p.48):
Conservação da bola / Recuperação da bola - Enquanto o ataque coordena suas funções de modo a conservar a posse de bola, esperar o momento certo, procurar desequilibrar a defesa e selecionar o melhor ataque. Por sua vez, a defesa terá por oposição a essas atitudes ofensivas, recuperar a posse de bola de modo que depois de recuperada a bola se inverta os papéis e, assim, o time que antes defendia teria a oportunidade de atacar após recuperar a posse de bola.
Progressão dos jogadores / Impedir a progressão - Por se tratar de um jogo de invasão, sendo que no campo adversário está o alvo a ser atacado para a realização do ponto, é de extrema importância que o ataque consiga se aproximar do alvo. Quanto mais próximo do alvo chegar mais chance de êxito o ataque terá. De maneira antagônica, é interessante para a defesa proteger seu campo e sua meta de forma a coordenar suas funções visando afastar o máximo possível o ataque adversário de sua meta, dificultando assim a finalização do ataque.
Atacar a baliza / Proteger a baliza - Seria o objetivo dos jogos coletivos, vence a equipe que marcar mais pontos. Dessa forma, em busca da vitória, cada equipe deve considerar dois pontos: a) ataque à baliza para a realização do ponto; b) proteção da baliza para a não realização do ponto do adversário.
Os princípios operacionais descritos por Bayer (1994) se relacionam entre si, isto é, para o sucesso da ação coletiva de ataque ou defesa todos eles são igualmente importantes, não havendo hierarquia de importância entre os princípios operacionais.
Pode-se perceber que os princípios operacionais são antagônicos, isto é, cada um dos princípios de ataque tem um correspondente defensivo que tem por objetivo anulá-lo. A tendência durante o transcorrer de uma partida é que esses princípios se anulem e estabeleçam equilíbrio devido ao fato de serem antagônicos no ataque e na defesa. Mora nesse ponto o fator de grande importância no futebol. A equipe que conseguir desequilibrar essa relação a seu favor, tem maiores possibilidades de vitória.
É nas entrelinhas desse embate entre ataque-defesa que se encontra o fator de interesse e de atuação de técnicos e professores. O que fazer para cumprir com eficácia os princípios operacionais de modo e "desequilibrar" a balança do jogo a seu favor.
Para resolver tal questão, é necessário compreender especificidades das modalidades esportivas e explorar suas Regras de ação, que segundo Bayer (1994), é as maneiras de intervenção do jogador durante a partida, norteadas pelo sentido tático do jogo.
Portanto, para uma compreensão do que são esportes coletivos e do que é que norteiam as ações do jogador, e consequentemente, os princípios do treinamento/ensino técnico/tático, uma forma interessante não é se apoiar em questões fragmentadas em atos motores e realizações meramente eficientes tecnicamente, mas sim, buscar situá-las num contexto de jogo, suas razões e formas de aplicações, atreladas à resolução de problemas e busca por soluções que sejam coerentes com a dinâmica e com os princípios conformadores do jogo. No caso dos esportes coletivos, uma forma é tomar como base os limites das invariantes e o sentido dos Princípios Operacionais.
O desenvolvimento de métodos e processos pedagógicos só se justifica se vinculado a um princípio de compreensão do quê será ensinado. É nessa direção que a contribuição de Bayer (1994) não se faz definitiva, mas interessante e enriquecedora como alicerce para pedagogos do esporte determinar sua forma de trabalho e, mais importante, o conteúdo a ser administrado em processos de aprendizagem/treinamento do futebol.
Bibliografia
SCAGLIA, Alcides. O futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes (2003). Tese de Doutorado. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.
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