sexta-feira, 29 de junho de 2012

Jogos Reduzidos versus Jogos Condicionados






Jogos Reduzidos versus Jogos Condicionados



Vantagens e desvantagens destas metodologias de treinamento



Paulo Cesar do Nascimento*

Cada vez mais, os profissionais da área têm procurado alternativas para aprimorar e especificar a prescrição e o controle do treinamento no futebol a fim de acompanhar a evolução dos aspectos físicos e táticos da modalidade. Nos esportes coletivos de características intermitentes, existe uma tendência a buscar métodos que possam aprimorar as capacidades físicas juntamente com as qualidades técnicas e táticas a partir do método global ou integrado. Nesse contexto, os jogos reduzidos aparecem como uma proposta interessante de treinamento para o aprimoramento da performance de jogadores de futebol (BANGSBO, 1994; DRUST; REILLY, 2000; IMPELIZZERI et al., 2006; HILL-HAAS et al., 2011).

Apesar da constatação da importância que aplicação de jogos reduzidos possui para o aprimoramento da performance de atletas de modalidades intermitentes, ainda há uma lacuna na literatura científica de estudos que analisaram o efeito desse modelo de treinamento no futebol.

Alguns estudos encontrados na literatura científica investigaram métodos específicos a partir de jogos reduzidos no futebol e os efeitos nas qualidades físicas da modalidade (DRUST; REILLY, 2000; REILLY; GILBOURNE, 2003; IMPELIZZERI et al., 2006).

Impelizzeri et al. (2006) compararam o efeito do treinamento de jogos reduzidos com o modelo de corrida intervalada de alta intensidade (4 séries de 4 minutos a 90 % a 95 % da frequência cardíaca máxima com recuperação ativa de 3 minutos para ambos os métodos), duas vezes por semana em jogadores adolescentes de futebol. Este trabalho demonstrou que o treinamento no modelo de jogos reduzidos realizado nessa intensidade da frequência cardíaca máxima - FCmáx (90% a 95%) proporcionou melhoras na capacidade e potência aeróbia dos atletas de forma similar ao método de corrida intervalada. Dessa forma, constata-se que é possível encontrar faixas de intensidades de esforço durante os jogos reduzidos que possibilitem o treinamento nos diferentes domínios fisiológicos (moderado, pesado e severo), para melhorar o condicionamento aeróbio e a performance dos atletas (BANGSBO, 1994; DRUST; REILLY, 2000; REILLY; GILBOURNE, 2003; HILL-HAAS et al., 2011).

O treinamento no modelo de jogos reduzidos pode alcançar uma intensidade de exercício adequada para melhorar tanto o condicionamento específico de modalidades intermitentes (testes de campo), como variáveis aeróbias, assim como o consumo máximo de oxigênio (VO2max) e os limiares de transição fisiológica (DA SILVA et al., 2011). Assim, a preparação física deve ser baseada na realização de exercícios específicos da modalidade, visto que os mesmos resultarão em modificações anatômicas e fisiológicas que se relacionam as necessidades da mesma (DA SILVA et al., 2011).

Assim, esse tipo de treinamento parece ser uma alternativa eficiente para aprimorar a performance aeróbia em esportes coletivos, ativando grupos musculares que são requeridos durante os jogos (IMPELIZZERI et al., 2006), tendo benefícios tais como: reproduzir as demandas de movimentação, intensidade fisiológica e a técnica requerida para jogar uma partida (HILL-HAAS et al., 2011; DA SILVA et al., 2011).

Entretanto existe uma confusão na prática por parte dos profissionais na aplicação dos jogos reduzidos e dos jogos condicionados. Entre os adeptos da primeira metodologia muitos utilizam somente (ou como foco principal) com ênfase no aprimoramento físico. As principais regras impostas durante a aplicação desta metodologia (espaço reduzido, menos elementos envolvidos e numero de toques na bola limitados para cada jogador) são estritamente para o controle da relação volume/intensidade. Ainda há aqueles que utilizam os jogos reduzidos dentro da metodologia do treinamento integral, como parte de um aprimoramento físico específico.

Com os chamados jogos condicionados, que se convencionou assim dizer a partir de algum tempo atrás, mas na verdade nada mais são que os jogos desportivos coletivos, os já então conhecidos como JDC’s, os quais foram propagados em grande parte pelo professor Garganta e seus colaboradores (do grupo de estudo da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto - FADEUP), mas que surgiram originalmente com o professor Claude Bayer com a obra que impulsionou essa discussão “O ensino dos desportos coletivos” (1994) publicada originalmente na França em 1979.

Importante ressaltar esta nova forma de conceber o ensino do esporte coletivo, iniciada por Claude Bayer e ampliada pelos autores portugueses, vem rediscutindo a técnica aliada à discussão da tática. Mais tarde, na década de 1990 surgiu o trabalho “O Ensino dos Jogos Desportivos”, coletânea organizada por Amandio Graça e José de Oliveira de 1995, fruto do trabalho do Centro de Estudos dos Jogos Desportivos, da FADEUP.

Diferente da maneira que os jogos reduzidos são vistos ou aplicados, os jogos condicionados ou JDC’s podem de maneira semelhante, a partir do uso das mesmas regras (espaço reduzido, menos jogadores e numero de toques na bola limitados) aprimorarem o condicionamento físico dos atletas de futebol, mas não necessariamente dessa forma, pois podem ser realizados com a ótica do jogo formal adaptado.

Além disso, esta metodologia extrapola o aprimoramento físico/técnico, alcançando um aprimoramento tático e de tomada de decisão dos jogadores. Com normas estabelecidas e regras que busquem um objetivo para a atividade, seja ele qual for aprendizagem/fixação dos princípios táticos de jogo ou como agir frente a determinadas situações da partida dentro do modelo de jogo da equipe, os jogos condicionados geram um aprendizado e

stratégico/tático com sua aplicação.

Para Da Silva (1998) a construção do conhecimento nos jogos condicionados se deve edificar a partir de perspectivas que se focalizem na lógica interna ou natureza do jogo. A lógica interna do jogo é o produto da interação contínua entre as principais convenções do regulamento e a evolução das soluções práticas encontradas pelos jogadores, decorrentes das suas habilidades táticas, técnicas e físicas.

Dessa forma, se os jogos reduzidos forem conduzidos com objetivos bem determinados quanto aos princípios táticos ou idealizado com intenção de uma evolução de aprendizagem dentro do modelo de jogo pretendido, nada mais é, ou tornam-se jogos condicionados. Ainda é preciso criar nos atletas a consciência da natureza do jogo, que é além de outras características, imprevisível. Por isso, ao buscar criar/idealizar um jogo condicionado é preciso saber que deve haver uma liberdade para a tomada de decisão por parte dos atletas e também serão necessárias alternativas ou variações da atividade para proporcionar um aprendizado aprimorado. Agora vejamos o exemplo a seguir:


Este é um exemplo de uma atividade de jogo condicionado para introduzir para uma atividade mais próxima do jogo formal. Joga-se em um espaço próximo de 2/4 de campo com um numero de elementos de 7x7 mais goleiros (numero dependente do esquema tático adotado).

Divide-se o campo de jogo em quatro setores e por ser um exercício introdutório tem um caráter mais abrangente com objetivo principal de trabalhar a compactação e os blocos defensivos e ofensivos e/ou unidade defensiva e ofensiva para preparar para exercícios mais específicos de acordo com o planejamento. Para tal a regra mais importante é a de que tanto a equipe que ataca quanto a que defende deve estar nos dois setores mais próximos da bola.

Após esse primeiro momento, deve-se ir introduzindo variações tais como a transição rápida para os dois setores ofensivos em um determinado tempo ou numero de toques na bola com ou sem posse de bola em um segundo momento, e num terceiro momento a realização da pressão para retomar a posse da bola no setor onde ela foi perdida. Deve-se também criar diferentes pontuações para o gol e para cada regra adotada afim de estimular mais a prática e o aprendizado. Importante também são os momentos de reflexão entre as atividades para conferir o nível de entendimento de cada jogador.



Exemplo 2:


Esta atividade é um exemplo de jogo condicionado mais complexo, ou seja, muito próximo da ótica do jogo formal (provavelmente muitos discordem que se assemelhe dos jogos reduzidos). No exemplo acima joga-se em 10 atletas contra 8 mais o goleiro. O objetivo principal da atividade é o trabalho da defesa a zona. Para isso divide-se o campo de defesa em setores (3 na horizontal e 3 na vertical, linha pontilhada). Os princípios táticos que podem ser trabalhados como objetivo do exercício são a unidade defensiva, contenção e cobertura defensiva, e os sub-princípios tais como concentração defensiva, ataque a ala da bola, dobras de marcação, entre outros.

A intenção da atividade é que os atletas formem as duas linhas de quatro (dependente do esquema tático) da maneira mais adequada possível as situações de jogo e aplicando os princípios e sub-princípios desejados. Para tal coloca-se regra de que a equipe que defende precisa estar dentro dos dois setores mais próximos do local onde está o portador da bola.

Além disso princípios ofensivos também são trabalhados, tais como infiltração e apoio ofensivo. Ainda a equipe que defende o gol na trave normal ataca três traves pequenas (golzinhos). O objetivo é fazer a equipe entender como armar o contra-ataque e/ou transição ofensiva da melhor e mais rápida maneira possível. Para isso pode-se colocar regras tais como o gol pelas laterais vale mais do que pelo meio, certo numero de toques para chegar ao meio de campo ou um tempo determinado.

Como é uma atividade que aborda vários aspectos deve-se ter o cuidado quanto em que momento aplica-lá no planejamento e quanto ao feedback ou correção dada aos atletas, pois é comum corrigir os aspectos que não são o objetivo principal do exercício.

Adicionalmente, com a utilização desse método as habilidades técnicas e táticas são envolvidas e treinadas em condições similares dos jogos, ou seja, um treinamento específico do esporte que promove uma efetiva transferência ao ambiente competitivo (BANGSBO, 1994; HILL-HAAS et al., 2011).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

BANCO DE JOGO


Banco de jogos - jogo 1



Jogo de compactação e flutuação, em campo dividido entre áreas em seis faixas verticais e oito horizontais

Caros leitores,

em cinco colunas, abordei o tema currículo de formação do atleta de futebol. Nestes materiais, estão inseridos os conteúdos que um grupo de profissionais de um clube formador do estado de SP aplica em todas as suas categorias, visando à formação de atletas de alto nível, tanto para o departamento profissional, como para negociação com outros clubes.

Em colunas futuras, alguns temas e sub-temas serão aprofundados propondo uma discussão em relação à importância de trabalhá-los para melhorar o desempenho das equipes. E, também, como será feito na presente semana, diversos jogos (conceituais ou conceituais em ambiente específico) serão descritos com o intuito de ilustrar o currículo e de auxiliá-los numa possível intervenção prática no aperfeiçoamento de determinado(s) momento(s) do jogo.

O jogo que será descrito abaixo, como vocês já devem saber, não é pra ser utilizado como receita, desvinculado do contexto da equipe e com a simples e insensata aplicação das regras que serão expostas.

A reflexão que esta coluna propõe consiste na interpretação dos elementos do jogo que permitem que esta atividade seja, de fato, de compactação e flutuação. Mais do que o desejo do treinador para que ambas ocorram, deverá ganhar este jogo (e todos os demais que eu venha apresentar) a equipe que melhor cumprir sua lógica. E, dentre as ações que serão necessárias para cumprir a lógica deste jogo, encontram-se a compactação e flutuação.

Jogo conceitual em ambiente específico de compactação e flutuação


- Campo dividido entre áreas em seis faixas verticais e oito faixas horizontais;

- Com isso, ocorrerá a formação de retângulos com aproximadamente 8,5m de cumprimento x 11,5m de largura;

- Tempo de atividade (incluindo esforço e pausa) a critério da comissão técnica, em função dos objetivos (fiscos, técnicos, táticos, emocionais) desejados;

Plataforma de jogo - equipes A e B - 1-4-2-3-1

Regras do jogo

 Ultrapassar pelo menos uma faixa horizontal através da condução ou de um passe, entre as linhas 4 e 3 do campo, sem que a equipe que defende tenha três linhas de jogadores (centrais e laterais - volantes e meias abertos - meia centralizado e atacante) nos setores (retângulos) horizontais e verticais consecutivos em relação à posição da bola = 1 ponto.

Veja os exemplos:




Após fazer um passe que ultrapassou uma faixa horizontal, 1 ponto para a equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) não tem o posicionamento das três linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.




Após fazer um passe que ultrapassou uma faixa horizontal, não há ponto para a equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) tem o posicionamento das três linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.




Após fazer um passe que ultrapassou duas faixas horizontais, 1 ponto para a equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) não tem o posicionamento das três linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.





Após fazer um passe que ultrapassou duas faixas horizontais, não há ponto para a equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) tem o posicionamento das três linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.

 Ultrapassar pelo menos uma faixa horizontal através da condução ou de um passe, à frente da linha 3 do campo, sem que a equipe que defende tenha duas linhas de jogadores (centrais e laterais - volantes e meias abertos) nos setores (retângulos) horizontais e verticais consecutivos em relação à posição da bola = 2 pontos.

Veja os exemplos:



Após conduzir a bola e ultrapassar uma faixa horizontal, 2 pontos para equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) não tem o posicionamento das duas linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.




Após conduzir a bola e ultrapassar uma faixa horizontal, não há ponto para equipe A (Azul), pois a equipe B (Verde) tem o posicionamento das duas linhas de jogadores em setores horizontais e verticais consecutivos.

 Fazer o gol e a equipe que sofreu ter pelo menos nove jogadores à frente da linha 2 do campo = 10 pontos;

 Fazer o gol e a equipe que sofreu ter menos do que nove jogadores à frente da linha 2 do campo = 15 pontos.


Veja os exemplos:


Nesta primeira imagem, o gol da Equipe A (Azul) vale 10 pontos e, na segunda imagem, 15 pontos.

Estou aberto para dúvidas, sugestões, comentários e críticas através do e-mail. Quem achou que o jogo tem muitos detalhes ou muitas regras, não esqueçam o princípio da progressão complexa. Este jogo pode começar a ser construído do mais fácil para o mais difícil, por exemplo, somente com faixas horizontais, ou com faixas verticais e até mesmo com retângulos (setores) maiores do que 8,5m x 11,5m.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Controlar as ações do jogo! Fins ou meios?


Vamos refletir sobre quais posturas contribuem para o controle das ações do jogo e se há algo “maior” por trás do que é abordado no cotidiano

Leonardo Gondim*

Nesta saudável discussão, fugindo um pouco da seqüência que venho abordando (organizações defensivas), penso em discutir dois fatores que podem ser importantes para a conquista do controle das ações do jogo: a marcação pressão e a posse de bola, juntamente com o intuito de esclarecer se os mesmos funcionam e são vistos como meios ou fins dentro do processo do jogo.

Vejo que, em determinadas análises, deixamos de lado o objetivo principal do jogo, aquele que está determinado pelas regras do mesmo, ou seja, a lógica do jogo (ou qualquer outro nome com o qual queiramos defini-la), a busca incessante por pontuar mais que o adversário.

Com o “advento Barcelona”, a mídia se preocupa excessivamente mais com posse de bola, pressão direta e aguda, velocidade do jogo e outros, do que com a necessária efetividade. De forma alguma quero dizer que a equipe catalã não o seja, muito menos que os meios citados não sejam decisivos; porém, não podemos esquecer que ganha aquele que marca mais gols. Algo a nos atentarmos, pois é que sem a tal efetividade, as ações se tornam inespecíficas ao jogo. Isso será abordado mais a frente.

Enfim, pensando em pontuar mais que o oponente e, ao meu pensar, sofrer a menor quantidade de gols possível, vamos refletir sobre alguns fatores que podem conferir controle às ações do jogo.

Abordo inicialmente um conceito voltado à organização defensiva: pressão coletiva ou pressing, como queiram. Podemos entender como uma ação coletiva que prima por dificultar ou impedir a organização ofensiva da equipe contraria, isto é, não deixar o adversário criar.

Pensemos de forma mais profunda: por que pressionar? Onde pressionar? Como pressionar?

Tais perguntas foram feitas por um companheiro de equipe universitária que tive e que, pensando racionalmente, fazem todo o sentido dentro de um contexto de marcação pressão. Então, vamos analisar um dos diversos métodos que podemos encontrar de pressão.

Equipe: Manchester City / Treinador: Roberto Mancini

A equipe de Mancini, quando em situação de pressão em zona alta (linha defensiva do adversário), atua com três jogadores (centroavante e dois pontas) na primeira linha de pressão, no intuito de induzir o adversário a conduzir a bola para as laterais do campo.

Seu setor de meio de campo é preenchido por três jogadores em forma de triângulo (um volante fixo a frente da defesa e dois volantes/meias mais avançados), no qual os dois avançados atuam em abordagem individual e direta, e o volante fixo, realiza coberturas para os dois que avançam.

A última linha (zagueiros e laterais) atua de modo a observar a ação dos três atuantes em pressão alta, ou seja, se os mesmos estão abordando intensamente e próximos dos defensores adversários, avançam e compactam a equipe; mas se a abordagem está distante (favorecendo uma bola longa, por exemplo), recuam e ocupam sua metade do campo de forma mais cautelosa.

Na imagem a seguir notamos os dois alas, o centroavante e os dois volantes mais avançados mantendo um posicionamento muito adiantado em relação ao seu próprio campo defensivo. Além disso, pode-se observar o retorno do lateral-esquerdo, que havia acabado de participar do último momento ofensivo da equipe.


Na imagem abaixo, nota-se que o ponta direito (circulado em preto) não atua na abordagem, ou seja, a mesma perde sua efetividade e, em conseqüência, a última linha defensiva recua, evidenciando uma alteração no método de organização defensiva, que passa a ser zonal e não pressionante.




Ainda sobre a figura acima, de acordo com a mudança de postura oriunda da primeira linha ofensiva, os jogadores alteram, também, a distribuição física dentro do campo, passando a um compacto 1-4-4-2.

Segundo o próprio treinador, o ato de pressionar depende muito do adversário em questão e tem como principal objetivo não permitir que a equipe contrária se organize para pensar em seu momento de criação.

Podemos concluir, então, de acordo com as três perguntas citadas anteriormente, que Mancini orienta sua equipe a pressionar para impedir a organização ofensiva do adversário, preferindo que essa pressão tenha inicio (e resultado positivo – recuperação da bola) na primeira linha defensiva do adversário, independente de onde esta esteja localizada.

Por fim, a equipe realizará a ação com três jogadores atuando como primeira linha de pressão (centroavante e dois pontas), de modo a induzirem o adversário para as laterais do campo, onde os meio-campistas e laterais estão orientados a avançar e pressionar (se estiverem ao mesmo lado da bola) ou compactar horizontalmente (se estiverem do lado oposto ao da bola).

Essa é apenas uma das formas de se organizar uma ação de pressing. À parte sua efetividade, nota-se que o processo possui referências e orientações, o que julgo ser o mais importante dentro possível permitido pela imprevisibilidade do jogo, além de representar a importância do “dedo” do treinador.

Reforçando as palavras de Roberto Mancini, atuar de modo a pressionar o adversário parece ser um bom meio de assumir o controle das ações do jogo, porém, é um processo que exige muita organização e responsabilidade de todos os atletas da equipe.

Outro fator muito comentado e valorizado nas rodas de discussão ou mesmo pela mídia é a importância da porcentagem da posse de bola. Exemplo maior, a esmagadora superioridade estatística que a equipe do Barcelona impõe, neste quesito, aos seus adversários.

Neste ponto, proponho uma discussão simples, apoiada, em sua maioria, em conversas e reflexões com colegas de profissão.

Pensando em um momento de organização ofensiva, momento este em que a equipe possui a bola e visa, seguindo o objetivo do jogo, pontuar, o que seria mais importante: a posse de bola? A quantidade de toques certos? Vamos discutir!

Para ilustrar, proponho a analise de dois vídeos da equipe com maior referência quanto à posse de bola, o Barcelona:



Notemos que a equipe catalã busca, na maioria de seus passes, encontrar jogadores que estejam e maior profundidade, em relação ao portador da bola, e que, somente quando isso não é possível, ocorre um passe para trás ou para o lado. Temos que as construções dos ataques são baseadas em passes que, ao mesmo tempo, afastam a bola da zona de recuperação/pressão e conferem mínima profundidade à equipe.

Na seqüência, temos uma ação ofensiva constituída, em sua maioria, por passes para frente e, quando isso não acontece (poucas vezes), o passe seguinte é realizado em velocidade e com maior profundidade que os anteriores. Guardemos essas informações.

Em um antigo vídeo intitulado “Tiene sés segundos” (atualmente fora do ar, dentro do blog paradigmaguardiola.blogspot.com), nota-se a intensidade com a qual a equipe do Barcelona busca recuperar a posse após a perda da bola, o intuito é que tal fato ocorra o mais rápido possível. “Mas qual a relação deste tema com o que estamos refletindo agora?”, vocês podem estar se perguntando.

Vamos lá, em uma rápida análise, porém, profunda, podemos concluir que a obrigatoriedade de recuperação de posse inúmeras vezes sinaliza que a equipe perdeu a bola, também, inúmeras vezes. Ao que não nos atentamos é: em quais condições essas perdas ocorreram?

Observando alguns vídeos que retratam a intensidade em ações de recuperação da bola que margeia o momento sem posse da equipe catalã, vemos que as perdas são caracterizadas por tentativas de passes em profundidade, ações de “1 contra 1” com objetivo frontal, lançamentos em profundidade ou passes curtos para frente. Logo, existe a tentativa de manutenção da posse de bola, porém, a mesma consiste em um “estágio” para se chegar à meta, às finalizações: o jogar para frente.

Assim como pressionar de modo a impedir as organizações ofensivas do adversário, ter a posse de bola aparenta ser um importante meio para se chegar à conquista do controle das ações do jogo. Poderia parar por aqui minhas reflexões, porém, há algo maior que estamos esquecendo.

Concluindo e interpretando os dois textos, quero demonstrar que a equipe de Pep Guardiolla (em breve Tito Villanueva) possui uma grande porcentagem de posse de bola em seus jogos e que exerce uma pressão agudíssima aos mesmos. Porém, também possui essa vantagem estatística em quantidade de finalizações, quantidade de finalizações certas e, por último, quantidade de passes CERTOS e ERRADOS para FRENTE!

Ou seja, a pressão em qualquer zona do campo, a recuperação da bola, a manutenção de posse, os passes certos e muitos outros, são meios de se obter o objetivo/fim máximo do jogo, aquele mesmo que, em certas discussões ou abordagens da mídia esportiva, está sendo deixado de lado: pontuar, marcar, guardar, fazer gol!

Por fim, defendo que qualquer equipe e treinador devem possuir meios muito claros e bem treinados, porém, esses devem ser formas de se atingir a lógica única do jogo, que ainda consiste em pontuar mais que o adversário.

O que vocês acham? Peço que opinem e questionem. Vamos enriquecer essa discussão?

“O conhecimento único, verdadeiro e absoluto é aquele que nos leva ao insucesso!”

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Emcruzilhada do Futebol Brasileiro


A Encruzilhada do Futebol Brasileiro



Em fechamento de série especial da Universidade do Futebol, Paulo André critica ensino no processo de formação de atletas e círculo fechado a novas idéias.

Paulo André Cren Benini*

Zagueiro do Corinthians.

Se dissermos que o jogo de futebol se divide em três princípios básicos e deles, todas as variações são possíveis, eu diria que:
tecnicamente sempre fomos muito superiores a qualquer outra nação;
fisicamente, em algum período, chegamos a ser inferiores;
e taticamente sempre sofremos com a falta de disciplina na aplicação da estratégia porque éramos tão melhores jogadores de bola que sempre achamos um jeito de vencer nossos rivais.
Assim sendo, inicialmente decidimos resolver a discrepância física e incrementamos toda a cientificidade oferecida pelos melhores estudos e artigos já produzidos para construirmos o atleta ideal. O intuito era nos equipararmos aos europeus e para isso, quebramos inúmeras barreiras culturais introduzindo a musculação e os treinos físicos específicos para jogadores de futebol.
Durante anos os especialistas na área tinham vontade de vomitar ao escutar dirigentes, treinadores e comentaristas dizendo que a musculação deixaria o jogador travado. De qualquer forma e com certa demora, evoluímos muito na qualidade dos treinos físicos e permitimos que a ciência entrasse no futebol brasileiro.
Até aí, tudo bem.
Conseguimos igualar a valência física e continuamos com a supremacia técnica. Éramos então praticamente imbatíveis. Mas em algum momento da história do futebol e da economia brasileira, os clubes se encontravam em péssima condição financeira e não conseguiam gerar outro tipo de renda que não com a venda de jogadores para o mercado europeu.
Demoramos muito para nos estruturarmos, explorarmos o marketing e a paixão doentia do nosso torcedor, gerando receitas que, aliadas aos direitos de TV, tornassem o clube auto-suficiente. Então, o único meio de sobrevivência encontrado por dirigentes amadores e despreparado naquela época era vender atletas à Europa para resolver dívidas e contratar medalhões, ganhando assim, o apoio popular.
Desde então, estamos produzindo jogadores para os europeus, buscando selecioná-los e prepará-los de acordo com o perfil de jogo que facilita essa negociação.
Pior que isso, o nosso erro foi acreditar que o atleta ideal era aquele que existia na Europa. Boa estatura, forte, sem muita ginga (pois futebol já não era mais brincadeira), disciplinado, com bom jogo aéreo e o mais importante, com nome e sobrenome. Chegamos ao cúmulo de tirar até os apelidos dos nossos meninos da base para que eles ficassem mais vendáveis aos olhos e aos cofres do velho continente.
Em pleno século 20, ainda éramos colônia, explorados pelos europeus que compravam barato e lucravam com o desempenho e as futuras transferências daqueles “produtos” importados. Apesar disso, nós brasileiros estávamos felizes e pensávamos que essa “facilidade” de achar matéria-prima abundante e vendê-la para o além-mar era a salvação da lavoura. Não nos preocupávamos com o êxodo de jogadores porque a renovação e o talento eram tão naturais do nosso povo que a cada ano surgiam mais e mais jogadores de qualidade. Se quiséssemos, montaríamos três ou quatro seleções em condições de ganhar uma mesma Copa do Mundo.
Nesse período (e durante esse processo), ainda mantínhamos a supremacia técnica e por isso demoramos anos para perceber que o jogo também evoluiu. O futebol passou a ser estudado e analisado tanto quanto o organismo humano ou a economia mundial. Também pudera algo que gera tantos bilhões de dólares e movimenta outros tantos bilhões de torcedores ao redor do planeta não poderia ser deixado ao azar ou ao talento nato de seus praticantes.
Então, enquanto nos dedicávamos aos treinos físicos – com tiros de 1000m, 300m etc.… – os europeus faziam tudo dentro do campo, com a bola. Trabalhos mais intensos e disputados, mini jogos que exploravam especificamente um princípio de ataque ou de defesa, tudo inserido ao jogo.
Cada treino tinha um objetivo e o sincronismo dos movimentos de pressão ao adversário, de bloco alto (encurtar o campo), de trocas de passes rápidas e com o menor número possível de toques na bola se tornaram exigências do futebol contemporâneo.
A linha de 4 defensiva e a tentativa de roubar a bola no campo adversário já eram praticadas muito antes de eu chegar à Europa em 2006. Estamos em 2012 e no Brasil tem gente que ainda fala em ala, três zagueiros e volante de contenção.
A falta de visão, de protecionismo, de estímulos para a manutenção de talentos e de desenvolvimento do estilo brasileiro de se jogar futebol se revela hoje, duas décadas depois, um grave problema.
Nos esquecemos de investir em planejamento, estruturação e, principalmente, capacitação de profissionais para darmos seqüência à produção e consolidação da nossa hegemonia no futebol mundial.
Nos preocupamos em vender a nossa Seleção e esquecemo-nos de reinvestir o lucro nas futuras gerações.
Usamos os “produtos” produzidos e formados pelos nossos clubes, mas esquecemos de retribuir o serviço com a criação de campeonatos mais fortes e rentáveis, infra-estrutura de qualidade (estádios, gramados, etc.…) e capacitação de pessoas em todas as áreas do esporte brasileiro (gestores, técnicos, preparadores físicos, scouts etc.…).
Estamos atrasados.
Quase não temos cursos capacitantes que valham à pena.
O círculo do futebol brasileiro é restrito, fechado e avesso a novas idéias.
Quase não temos estudiosos do jogo, das variações táticas ou dos treinamentos específicos.

Nossa formação de base não ensina para o futebol atual, mas, sim, para o futebol de outrora.
Insistimos em coisas do arco da velha simplesmente porque a maioria dos nossos ex-jogadores (atuais treinadores) não está preparada para formar novos atletas.
Falta conhecimento e posteriormente a aplicação de ferramentas como a teoria do jogo, a psicologia e a pedagogia aplicadas ao esporte para que possamos sair do marasmo em que nos encontramos.
Precisamos abdicar de fórmulas que um dia deram certo e que se tornaram tradicionais para chacoalhar os estaduais, as divisões inferiores e os times “pequenos”, assim como um dia passamos do sistema de mata-mata para pontos corridos, dando mais estabilidade financeira aos clubes e atletas.
Talvez seja à hora de quebrarmos outros paradigmas.
Admitir que o modelo esteja ultrapassado e que precisamos mudar é o primeiro passo. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas com isso. Na verdade poucos enxergam o atraso, só reclamam que a Seleção não está bem.
Novos valores e estudiosos do jogo não conseguem se inserir no meio porque não jogaram futebol e não tem a confiança do mercado. A categoria de base da maioria dos clubes brasileiros está jogada ao Deus dará. Os cargos dentro dos clubes, federações e confederações ainda são políticos e não técnicos. Isso tem que mudar!
O Brasil se encontra em uma encruzilhada.
Na verdade, estamos parados diante dela há alguns anos, observando, com olhos fixos, a estrada que nos trouxe até aqui.
Ela é repleta de flores, encantos e conquistas. Revendo o trajeto, nos apaixonamos pela construção da nossa história e temos a certeza e o orgulho de saber que os melhores times e os maiores jogadores que o planeta já viu foram brasileiros.
Enxergamos também que ganhamos, orgulhosa e merecidamente, o apelido de “País do futebol”, o maior exportador de pé-de-obra que o mundo conheceu.
Dominamos o futebol mundial e possuímos, por anos, estrelas em todos os grandes campeonatos nacionais do velho continente. Todos tinham medo da camisa amarela e os brasileiros, encantados, paravam para ver a seleção canarinho jogar. Por tudo isso, passamos anos desfrutando da beleza do nosso futebol e do avanço que tínhamos sobre os demais.
Acreditamos que tudo era possível ao país que tem no DNA de seu povo, o talento do futebol.
Hoje, olhando ao redor, mais próximos da encruzilhada, ainda pelo caminho que construímos, vemos sonhos, delírios e extravagâncias que desperdiçaram tempo e dinheiro e não se transformaram em nada. Um período sonolento em que a falta de capacidade se justificou de inúmeras formas, especialmente pelo passado esplendoroso que construímos.
Mas eis que recentemente, atônitos e ainda parados na estrada, fomos despertados pelo barulho ruidoso dos motores espanhóis, holandeses e alemães que passaram por nós sem pedir licença. Aceleraram em tamanha velocidade que ainda não conseguimos reparar quais as novas peças da engrenagem os fazem acelerar tão depressa.

E cá estamos nós, olhando fixamente para a encruzilhada buscando dicas de para onde seguir ou qual o melhor caminho a tomar...

Paulo André

*Nascido em 20 de agosto de 1983, Paulo André Cren Benini iniciou sua carreira como infantil do São Paulo Futebol Clube, em 1998, onde permaneceu até 2001, conquistando dois títulos paulistas de categoria de base (2000 e 2001). Em dezembro de 2001, foi transferido para o Centro Sportivo Alagoano, ficando por apenas três meses.

Em março de 2002, Paulo André voltou para o estado de São Paulo, desta vez para atuar no Águas de Lindóia Esporte Clube. Lá, foi campeão paulista de juniores da Série A-2 e teve sua primeira chance como profissional, ajudando o clube a subir da quinta para a quarta divisão estadual. Em janeiro de 2003, transferiu-se para os juniores do Guarani Futebol Clube, onde foi promovido aos profissionais. Em julho de 2004, sofreu com uma contusão no púbis, que o deixou afastado por seis meses.

Em junho de 2005, Paulo André foi transferido para o Clube Atlético Paranaense, onde foi consagrado como um dos cinco melhores zagueiros do Brasil, pela Revista Placar. Em 2006, recebeu o título de Melhor Zagueiro do Estado, pela Federação Paranaense de Futebol.

Aos 22 anos, em junho de 2006, o atleta firmou contrato de quatro anos com o Le Mans Football Club, onde participou por três anos dos campeonatos: Francês, Copa da França e Copa da Liga. Em julho de 2009, Paulo André foi apresentado como nova contratação do Sport Club Corinthians Paulista, em um empréstimo que iria até agosto de 2010.
Mesmo atuando como reserva, o zagueiro destacou-se nas jogadas aéreas, marcou três gols, e teve seus direitos econômicos comprados pelo time paulista, firmando novo contrato que vai até julho de 2012.

O texto foi retirado na íntegra do site oficial do jogador.

Aposentadoria dos Campos




Aposentadoria dos Campos:

O difícil processo de transição na vida de um atleta profissional.

Idade, novos interesses, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio e problemas de lesão são razões importantes para a decisão.



Marcelo Iglesias



Um dos pontos cruciais na carreira de um atleta profissional é estabelecer o momento certo para se aposentar. Por ser uma atividade que exige muita dedicação e preparo, são poucos os casos de atletas que conseguem atuar em bom nível até mais do que 30 anos de idade. Por isso, é importante que passem por um processo correto de ajuste nas esferas de vida ocupacional, financeira, social e psicológica, pois esse processo pode ser acompanhado por problemas emocionais.
Atualmente, não são incomuns os exemplos de ex-jogadores que, sabendo da sua condição inapropriada para seguirem dentro de campo, decidem permanecer ligados ao futebol de outra maneira, seja como técnicos, dirigentes, preparadores de goleiros, etc. Outro ramo procurado por alguns é o da política, visto o carisma que certas figuras da modalidade possuem.
Para tornar-se um atleta de elite, no mundo moderno, é necessário ter disciplina para treinar por muitos anos, dedicação quase que exclusiva para o esporte e, em geral, iniciar a carreira em idade muito precoce. Em “O lado mental do futebol”, capítulo do livro "Ciência do Futebol", de autoria da nutricionista Isabel Guerra, doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os autores afirmam que é grande a expectativa dos jogadores de alto nível de se tornarem atletas de sucesso nacional e internacional, já que essa conquista mobiliza a atenção de investimentos financeiros e tem grande espaço na mídia. Nesse contexto, os atletas profissionais ganham como conseqüência, vantagens econômicas, notoriedade e, de fato, prestígio. Para os atletas de alto rendimento, o esporte é a energia que move a vida, é o marco de sua identidade.
Entretanto, após anos de dedicação, por razões diversas, defrontam-se com o processo final de carreira do esporte. É quando a maioria dos jogadores se conscientiza de não ter sido preparado para enfrentar a vida pós-esporte, pois negligenciou esse processo. Dessa forma, a aposentadoria pode gerar uma situação de estresse e de crise de identidade para muitos atletas.
Para a Federação Européia de Psicologia do Esporte e Atividades Corporais (FEPSAC), identidade esportiva deve ser conceituada como a força e a exclusividade em que o esportista identifica a si mesmo com o esporte; essa identificação exclusiva é fortalecida pelo reconhecimento social e sucesso econômico que acompanham os resultados positivos da carreira esportiva. Sendo assim, terminar a carreira esportiva pode se tornar um dos momentos mais difíceis da vida de um atleta, já que a mudança no estilo de vida requer uma adaptação de papéis sociais e profissionais.
A maioria dos atletas não percebe a importância de outras fontes de identificação em outros âmbitos da vida (outra profissão ou atividade), indispensáveis para a manutenção do equilíbrio durante e ao término da carreira. Essa percepção errada da realidade, em muitos casos, é ratificada por técnicos, dirigentes e membros da família. Em “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, Kátia Rubio afirma: “na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais, muitas vezes o atleta se vê identificado com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista, aquele capaz de realizar grandes feitos, dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais”.
A transição de carreira esportiva significa mudança de uma fase da carreira para outra, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta, e da necessidade de recursos para lidar com o momento. De acordo com o que é apresentado em “Career transition and concomitant changes in athletes” (“Transição de carreira e concomitantes mudanças em atletas”, em tradução livre), a carreira esportiva é composta de uma seqüência de sucessivas fases, com períodos de transição, identificadas como: a transição do esporte infantil para o juvenil, seguida da transição para o júnior e, finalmente, para o adulto; a transição do esporte amador para o profissional e a transição para o término da carreira esportiva. Cada uma requer exigências específicas e ajustes nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta e, fundamentalmente, sempre será necessário o esforço pessoal para a adaptação à nova fase.
Dessa forma, a natureza desse ajustamento à aposentadoria, para cada atleta, dependerá da interação de múltiplos fatores. Entretanto, um fator isolado não garante se um ajustamento será fácil e tranqüilo. Somente uma análise da complexa interação entre diversos fatores é que levará à compreensão de como determinado atleta conviverá com o fato de se aposentar.
Um dos pontos que deve ser levado em consideração é que, por vezes, o jogador encerrará a sua carreira de maneira voluntária, mas, em outras ocasiões, isso poderá ocorrer forçadamente. Com isso posto, pode-se citar como algumas das causas das aposentarias de atletas profissionais: a idade, novos interesses emergentes, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio, problemas de contusão ou de saúde, e a ausência do seu nome entre os relacionados para os jogos.
Partindo do fato de que a transição de carreira esportiva é um processo, Jim Taylor e Bruce Ogilvie desenvolveram o “Modelo Conceitual da Transição de Carreira”, que integra, além da informação teórica da Psicologia do Esporte, a investigação empírica. De acordo com os estudiosos, as características da transição incluem: duração, mudanças de posição social, grau de estresse, desafios enfrentados e, fundamentalmente, a percepção de estresse nesse momento.
Determinadas áreas específicas, consideradas moduladoras do ajustamento ao momento da aposentadoria e facilitadoras de adaptação adequada, também podem ser avaliadas: percepção de controle; identidade esportiva; suporte social; experiências anteriores (outras transições); envolvimento com atividades relacionadas com esporte depois da aposentadoria; grau de planejamento profissional; status socioeconômico; habilidades (persistência, competitividade, metas, etc.); objetivos relacionados com esportes; e foco depois da aposentadoria.
Portanto, toda transição de carreira tem o potencial de ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte, em dezembro de 2008, com 79 ex-atletas de futebol e basquete, por meio de entrevistas semi-estruturadas, apontou que 75,9% dos indivíduos avaliados decidiram encerrar a carreira esportiva de forma voluntária. A transição de carreira ocorreu de maneira gradativa e natural, como eles mesmos citaram nas entrevistas. Para a maioria dos ex-atletas (68,4%), esse momento foi oportuno, ou seja, aconteceu na época certa, enquanto que, para 27,9% dos entrevistados, a decisão de parar de competir profissionalmente ocorreu muito cedo e de forma prematura.
Ainda segundo esse estudo, as causas mais freqüentes relacionadas à saída do esporte em ordem decrescente foram: idade (49,4%), surgimento de outros interesses (43,0%), mudanças no estilo de vida (17,7%), problemas de saúde (16,5%), problemas de lesões (15,2%), ausência de perspectivas futuras (13,9%), problemas de relacionamento com dirigentes (13,9%), "declínio dos resultados" (12,7%), cansaço psicológico (11,4%), relacionamento com o técnico (10,1%), cansaço físico (7,6%), relacionamento com a família (7,6%) e relacionamento com a equipe (3,8%).
Em relação às conseqüências emocionais por conta do processo de finalização da carreira esportiva, algumas emoções preponderaram. Em ordem decrescente: 50,6% dos ex-jogadores sentiram tristeza no momento da transição esportiva para uma nova carreira e 36,7 % se sentiram conformados. Além disso, a pesquisa apontou que 17,7% da amostra sentiram felicidade nesse momento, 6,3% se sentiram tensos, 5,1% sentiram medo, 5,1% ficaram deprimidos, 3,8% sentiram raiva, 3,8% ficaram ressentidos, 1,3% sentiram culpa e nenhum dos entrevistados fez referência a sentimentos de desespero.
Por fim, no que tange os aspectos físicos, a pesquisa indicou que, ao encerrar a carreira esportiva, 43% dos entrevistados tiveram a percepção de que a aptidão física piorou. Segundo dados coletados, o peso dos sujeitos aumentou e eles tornaram-se quase que totalmente inativos. A condição física não melhorou para nenhum dos avaliados.
Portanto, deixar a arena esportiva tende a ser um momento difícil da vida de um atleta, pois sempre requer adaptação de papéis sociais e profissionais. Fica claro que essa adaptação torna-se ainda mais difícil quando o atleta tem forte identificação com a figura de esportista. Em geral, apresenta dificuldades psicológicas e vivencia momentos de tristeza, depois de anos de exclusiva dedicação à carreira competitiva. Além disso, nota-se que a idade é um fator limitador da performance e desencadeador da aposentadoria, o que acaba levando a um sentimento de conformismo e, ao mesmo tempo, motivando para outros interesses e objetivos emergentes, tais como o desejo de poder passar mais tempo com a família.
Outro ponto relevante é a piora na saúde física dos ex-atletas e o quanto a diminuição planificada e gradativa da carga física a que foram submetidos durante o período ativo é necessária, ao se pensar na qualidade de vida pós-esporte.
Portanto, seria interessante que, tanto do campo científico, como por meio de uma iniciativa da direção dos clubes de futebol, fossem desenvolvidos programas de aposentadoria que tenham como objetivo principal capacitar atletas em transição de carreira a lidarem melhor com esse momento e, principalmente, utilizar esses programas no início da carreira para minimizar a ansiedade com relação ao futuro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 3


No fechamento desta série, profissionais discorrem sobre como poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos atletas

Equipe Universidade do Futebol

Nesta terceira e última parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a terceira pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, destacando a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro.

Como você avalia que poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos nossos atletas, em função das altas exigências competitivas deste século XXI?

Wladimir Braga – Para este professor e especialista do futebol é preocupante o que está acontecendo com a modalidade em nosso país. Afirma que não temos uma verdadeira “Escola de Futebol” e que hoje somos incapazes de definir o que seria a “Escola Brasileira de Futebol”. E conclui: “Penso ser este o ponto de partida. Se não mudarmos a concepção do futebol de base e retomarmos o desenvolvimento do esporte, estaremos fadados à mediocridade. Infelizmente este é o cenário”.

Leandro Zago – Sua proposta para este tema é bem ampla, porém apresentada de forma sucinta: “Temos que basear nosso processo de formação em uma permanente evolução da compreensão sobre o jogo e manifestação complexa (física - técnica - tática - mental) da performance. Todo o suporte das outras áreas que são fundamentais é também necessário. Precisamos criar na cultura de formação o aumento do interesse dos atletas em seu auto desenvolvimento permanente através do trabalho diário”.



Sandro Sargentim – Enfatiza que o despreparo e a falta de interesse de muitos profissionais “potencializam esse fenômeno de perda completa da hegemonia do futebol brasileiro dentro e fora das quatro linhas”. Também destaca que através de sua vivência e experiência em muitos clubes e com diversos profissionais de diferentes níveis, pôde chegar a uma conclusão: “aqueles que trabalham com o futebol brasileiro, em sua absoluta maioria, não aceitam nada de novo e atualizado, por medo ou por ignorância, e enquanto isso não mudar, esse abismo ficara cada dia maior”.

Eduardo Barros – Acredita que “para desenvolver esta tríade (inteligência, responsabilidade e qualidade) em função das altas exigências competitivas deste século, o treinamento da grande maioria das equipes necessitaria ser revisto e alterado de acordo com os principais referenciais teóricos que discutem a tendência da preparação do futebolista à luz da complexidade”.

Para o Prof. Eduardo Barros, “é fundamental que todas as pessoas direta ou indiretamente relacionadas à modalidade compreendam que para potencializar a evolução do nível de jogo de uma equipe (em qualquer escalão, da iniciação ao profissional), o treinamento necessariamente deve ser composto de "partes sistêmicas" do futebol e não de fragmentos do jogo de futebol”. E esclarece:

“Fragmentos do futebol são sessões de treino tradicionalmente realizadas, como: treinos físicos (resistência de sprint), treinos técnicos (finalização), treinos táticos (tático-sombra). Já as ‘partes sistêmicas’ do futebol compreendem sessões de treino que tem absoluta relação com o futebol. Exemplificando: treinamento com jogos, de diferentes situações do jogo (ataque, defesa, contra-ataque, bolas paradas, setores de recuperação da posse, setores de finalização, posse de bola etc.), que promovam melhorias individuais e coletivas dos comportamentos de jogo esperados pelo treinador”.

A conclusão do colunista da Universidade do Futebol é: “Como numa perspectiva sistêmica, treinam-se partes (fractais) do jogo de futebol, a inteligência de jogo é mais estimulada com um método de treino de maior qualidade e que pode promover grande responsabilidade na medida em que o ato de educar bem para a vida pode ser feito educando através do futebol e, assim, contribuir com a formação do cidadão, do possível jogador de futebol e, inclusive, do futebol brasileiro. Este, como diria René Simões, precisa de mais!”.



O que é um treino pautado na complexidade? Rodrigo Leitão explica!

Rodrigo Bellão – Este professor acredita muito na transformação do futebol através de investimentos na capacitação profissional de todos os seus agentes. “Os profissionais que atuam na nossa área não podem possuir ideias imutáveis em suas cabeças. Estudar e refletir acerca do jogo, do modelo do jogo, são coisas fundamentais para o futebol moderno. E para isso não basta somente ficar no jogo: é preciso trazer as novas ideias aos treinamentos. E sozinho ninguém faz nada. É necessário buscar o conhecimento, ir atrás de ajuda e opiniões de especialistas e estudiosos”.

Mas Rodrigo Bellão reconhece que existem barreiras entre os clubes e as universidades. “As discussões sobre a modalidade devem ocorrer sempre, por um bem maior da evolução do futebol em nosso país. As discussões nos levam a reflexão e, consequentemente, nos levam à evolução também”. E para justificar esta tese, cita Portugal como exemplo. “Basta verificar a evolução do jogo em um país como Portugal, onde a academia possui um espaço mais próximo aos clubes”.

Ele comenta que este país, inexpressivo em termos futebolísticos em décadas passadas, a partir dos anos 2000, cresceu, despontando entre as principais seleções e revelando diversos atletas de qualidade. Assim, projeta que no Brasil, “para crescermos, precisamos primeiramente derrubar alguns tabus”.



Você trabalha ou pretende trabalhar com futebol? Quer se capacitar com qualidade? Conheça os cursos online oferecidos pela Universidade do Futebol

Bruno Pivetti – O depoimento deste profissional do clube-empresa Audax São Paulo é emblemático dentro do cenário atual do futebol brasileiro. Seu plano, desde que entrou na universidade, em 2003, era contribuir para atenuar o abismo entre o conhecimento e a preparação para se alcançar resultados efetivos. Em um primeiro momento dedicou-se a “entender bem o processo de preparação física e fisiologia a fim de conseguir uma brecha em um mercado tão restrito como o do futebol”. Porém, logo percebeu que sua formação na graduação “pautada essencialmente pelas adaptações neuromusculares ao treinamento de força e especialização em Fisiologia do Exercício” mostrou-se demasiadamente cartesiana e reducionista, uma vez que estava disposto a trabalhar em uma perspectiva muito mais ampliada. “Necessitava ir além, ou seja, precisava entender a fundo os problemas advindos do processo competitivo de futebol para auxiliar da maneira mais eficiente possível meus futuros jogadores”.

Esta meta fez com que Bruno Pivetti mudasse totalmente seus planos. Assim, decidiu fazer uma viagem que, segundo suas próprias palavras “mudaria minha vida para sempre”. Abdicou e adiou alguns sonhos para ir atrás da metodologia que acabou servindo de tema para o seu livro. Foi para Portugal, mais especificamente à cidade do Porto, em busca do conhecimento que imaginava necessitar. Lá, tomou contato com as ideias de Vitor Frade e mais especificamente sobre a Periodização Tática. A nova inserção entre os novos conhecimentos teóricos e a prática que resultou na publicação de seu livro, o fez identificar-se com as considerações do próprio Prof. Vitor Frade ao dizer que “esta publicação é antes de mais nada um ato de coragem, pois corro o risco de ser julgado como um teórico pelos profissionais de cunho mais prático e como um empirista sem valor científico algum para alguns membros da academia”.



Porém, Pivetti não se incomoda com os eventuais riscos desta postura, uma vez que “meu compromisso é com a contribuição para o resgate da vertente arte ao futebol brasileiro moderno. Entretanto uma arte alicerçada em princípios organizacionais bem definidos que permitam eficiência ao processo de construção de um modelo de jogo pautado sempre pela qualidade!”.

O que o professor pretende com esta publicação é atender à “necessidade dos acadêmicos se voltarem aos problemas de campo e aos práticos de se prepararem intelectualmente a fim de contribuir para a evolução não só do futebol, mas do esporte de uma maneira geral no Brasil”.

Qual a diferença entre Treinamento Analítico e Tecnicista?

Bruno Baquete – Considera que, resumidamente, “a grande questão é se adequar à nova realidade do futebol”. Isto significa “criar um ambiente de evolução e aprendizagem constante, pautado na complexidade e focado no jogo e para o jogo, onde a inteligência circunstancial do jogador é colocada à prova a cada momento!”.

E coloca algo que provoca uma reflexão crítica: “provavelmente o Barcelona e a Espanha ainda não atingiram todo o potencial de uma equipe de futebol. Acredito que há outras barreiras. Contudo, para quebrá-las, precisamos desenvolver fractalmente todo o jogo e criar uma cultura de jogo que transcenda o campo.”.

Bruno Baquete conclui seu depoimento com uma mensagem de esperança: “Espero que o depoimento do nosso querido René Simões não fique apenas na esfera teórica e se aplique na prática! Que ele seja a semente que necessitamos para transformar o futebol brasileiro. Que esta semente seja para valer, pois parece que todos nós já esquecemos a aula que o Barcelona deu no Santos”.

Augusto Moura – Defende que devemos desenvolver uma “‘inteligência metodológica’ que forneça suporte sólido para todos integrantes do departamento de futebol de base”. Neste sentido, Augusto Moura acredita que devido ao “fato de trabalharmos com conteúdos técnicos específicos, pré-estabelecidos por categoria, fomentar o processo de capacitação dos profissionais e utilizar a competição como meio formativo e não como fim nos dariam enormes ganhos em performance.”

Com uma nova postura, ele crê que conseguiremos ao longo dos anos resgatar o nosso prestígio.

Como trabalhar com Jogos quando seus jogadores não possuem um alto nível técnico?

 Obrigado.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2


Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2



Confira a continuação do material especial que discute o desenvolvimento do trabalho desenvolvido pelos principais clubes do país, a partir da opinião de diversos profissionais da nova geração

Equipe Universidade do Futebol

Nesta segunda parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a segunda pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, que destaca a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro:

Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?

Wladimir Braga
– Para o preparador físico da base do Atlético Mineiro, “é importante destacar que a gestão do conhecimento é o que mais falta aos diretores e gerentes de futebol de base dos clubes do futebol brasileiro, de uma forma geral”. E conclui: “a formação de um conceito de trabalho torna-se, portanto, a principal carência neste sentido, e todo trabalho de formação de atletas fica prejudicado, por que as categorias [de base] do futebol não têm um 'norte' e permanecem seguindo no escuro no processo de 'tentativa e erro' até acertarem em alguma promessa isolada”.

Leandro Zago – Para este jovem treinador e estudioso do futebol, “a competência é um termo abstrato quando não está direcionada a algo. Ser competente em algo é ter sucesso em algumas tarefas que contribuem para a execução de um projeto maior. Enquanto as diretrizes não estiverem determinadas, os profissionais trabalharão cada um em uma direção e o produto final desse 'processo' (desenvolvimento pleno do atleta de futebol) será a soma das intenções dos profissionais que tiveram contato com o atleta durante o período de formação. Quando na verdade, os clubes deveriam ter uma definição bem clara sobre qual o tipo de atleta que seria desejável na equipe profissional e a partir daí tomar todas as outras decisões relacionadas às categorias de base, desde a captação de atletas até a contratação dos profissionais competentes para sustentar o processo já delineado".

 “Quanto às metodologias, enquanto todas as equipes que se enfrentam trabalharem na mesma perspectiva, não sentirão necessidade de mudar. É necessário alguma equipe ter êxito por um período prolongado para criar a necessidade de mudança”.



Sandro Sargentim
– Este pesquisador das ciências do futebol revela que “temos dois [tipos de] profissionais que aplicam treino: um, os ex-atletas que não se preocupam com nada de novo e acham que nada tem muita importância além daquilo fizeram quando jogavam, sem inclusão de nenhuma atualização. Outro, os professores de Educação Física, que não aprendem nada na universidade de como se montar sessões de treino [especificamente aplicados ao futebol]”. Portanto, na opinião do Prof. Sandro Sargentim, os profissionais do futebol entram no mercado despreparados, recebem seus salários, mas investem pouco em cursos de formação ou especialização no futebol.

Eduardo Barros – Na opinião deste gestor técnico de campo e colunista da Universidade do Futebol, “a principal questão é administrativa. Geralmente, dirigentes do futebol brasileiro assumem que sabem tudo acerca da modalidade. Presos à crença do domínio (apenas aparente) do jogo e suas interações e inter-relações, realizam uma sequência de decisões equivocadas em toda a cadeia produtiva de um clube de futebol. Não exigem integração entre categorias e comissões técnicas, não acreditam que o bom jogador possa ser formado, ‘mimam’ os potenciais (habilidosos) jogadores, contratam e demitem sem critérios, enfim, desconsideram atitudes fundamentais para o exercício de um projeto de futebol sustentável”.

Diante da postura inadequada dos gestores, Eduardo Barros acredita que ela “gera um movimento em cadeia no ambiente/contexto do clube em que cada profissional age com absoluta insegurança, faz somente o seu trabalho, busca a vitória a qualquer custo e que evita o novo, pois, por desconhecê-lo, teme o fracasso. Comportamentos que não combinam com um trabalho integrador e interdisciplinar”.


Rodrigo Bellão – Para o treinador da base da Portuguesa de Desportos, há muitos dogmas e paradigmas no futebol que precisam ser mudados. Um dos mais importantes deles é aquele que prega o resultado em primeiro lugar, desconsiderando-se os processos. Ele afirma: “Não se considera qualquer trabalho no futebol, até mesmo nas categorias de base, se não houver bons resultados de jogos em um espaço de no máximo até um ano”.

Concorda com a tese de que “a falta de conhecimento de quem comanda e dirige o futebol também é um grande problema”. E conclui: “Ainda há preferência de muitos [dirigentes] por recrutarem profissionais que foram bons ex-atletas para trabalhar na função de treinador. Às vezes me perguntam onde eu joguei para ser treinador. É difícil de ser aceita, mas a minha resposta é: ‘na academia’, estudando o futebol. Não que o ex-atleta não possa ser um bom treinador, mas acredito que somente a sua experiência, hoje em dia, não é tudo o que se necessita para ser um bom treinador. Os estudos são importantes também”.

Bruno Pivetti –
Este profissional e autor do livro Periodização Tática é bastante crítico e contundente sobre o tema em questão: “Precisamos de uma reforma urgente! Mas para isto é necessário sair do senso comum. Afinal, como dizia a já batida frase de Albert Einstein, ‘Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes’. Ou seja, precisamos sair do senso comum! Porém, não acredito que isto seja um dever exclusivo dos treinadores, mas sim de todos aqueles que estão inseridos no meio esportivo, a começar pelos acadêmicos formadores de profissionais e de opiniões. Digo isto porque por experiência: os profissionais inseridos na prática já se deram conta da necessidade vital do conhecimento teórico para auxiliar no processo organizacional coerente do cotidiano do futebol tanto na formação, quanto no profissional. E isto é evidenciado pela presença cada vez mais constante de profissionais jovens, recém saídos da universidade em clubes de futebol brasileiros".



"Infelizmente, em nosso país, existe um verdadeiro abismo entre a teoria, formada pelos membros da academia, e a prática, formada em sua maioria por ex-jogadores e/ou profissionais de característica mais empírica, que suportam sua rede de conhecimento pelas experiências vividas e não em um aporte de cunho mais científico", acrescenta.

O Prof. Bruno Pivetti detecta preconceitos e um conseqüente distanciamento entre os considerados práticos (ex-atletas) e os teóricos (acadêmicos que trabalham ou estudam o futebol). Estes, muitas vezes, assumem um ar de superioridade, por conta de sua formação e aqueles, protegidos pelas suas experiências como atleta, não aceitam teorias que possam fundamentar ou modificar as suas práticas, impedindo a conquista de novas aprendizagens e evolução. Por isso, conclui: “Pronto! Está feito o distanciamento provocando a ausência de trocas de experiências e informações que potencialmente beneficiariam ambos os lados”.

Bruno Baquete – Este treinador da base do Corinthians e também colunista da
Universidade do Futebol adota a constatação de René Simões sobre o Barcelona (“banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo e metodologia de trabalho”) para solucionar também os problemas do futebol brasileiro. Embora seguir este caminho de solução seja algo óbvio, entende que esta visão “está muito distante da visão limitada que os gestores brasileiros (de campo ou não) têm sobre o jogo”. E Bruno Baquete bota ainda o dedo na ferida do trabalho realizado por muitos treinadores conservadores nas categorias de base dos clubes brasileiros:

 “Hoje mesmo na base temos muitos treinadores que não enxergam além de seus palavrões e se orgulham em dizer que tudo isso que a
Universidade do Futebol discute é coisa da Europa e que não se aplica ao nosso futebol. Isso é triste! E mais triste ainda é ver certos profissionais fazendo as mesmas coisas há 20, 30, 40 anos e quando um profissional chega com novas idéias é massacrado e não tem espaço!”.

Baquete finaliza comentando sobre os avanços que ocorrem em muitas outras áreas, comparando com o que ocorre no futebol. E questiona: “Por que isso [avanço] não ocorre em nosso futebol? Por que não pegamos os exemplos e seguimos ao invés de ficarmos parados no tempo?”.

Augusto Moura – Já para o membro do departamento de captação de atletas do Coritiba, “é altamente complexo apontar motivos e críticas aos clubes nacionais quanto ao sucesso ou não das metodologias utilizadas em suas categorias de formação.” Mas aponta alguns aspectos que considera importantes e que trariam benefícios ao futebol de forma geral. São eles: “valorização profissional; infraestrutura adequada; recursos financeiros e materiais; revisão de regras e regulamentos dos torneios de base e escolas de futebol no Brasil; constante oportunização aos cursos e eventos de capacitação e reciclagem; plano de cargos e salários; profissionalização das ferramentas de observação, captação e promoção de talentos; e abastecimento contínuo do banco de dados.”

Ele acredita também que podemos alcançar vantagens competitivas aplicando consagrados princípios empresariais, como por exemplo: “análises de cenário que destrinchem ameaças e oportunidades, além de pontos fortes e fracos existentes.” Neste sentido afirma que “vale traçar um paralelo com o futebol e também pesquisarmos como estão atuando e se organizando nossos concorrentes nacionais, sul-americanos e europeus. Certamente, esse prognóstico nos proporcionará discussão, reflexão e revisão de mecanismos metodológicos.”

E complementa: “Por isso, a iniciativa de estabelecer princípios e criar hábitos administrativos dentro dos departamentos que compõem um clube de futebol é extremamente necessário no intuito de sistematizar e padronizar metodologias, criando assim, maneiras de controlar e monitorar as variáveis.”



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