quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Educação Física


Continuação...

 

Um aspecto importante é o de dar à prática pedagógica o caráter de continuidade e ruptura. Ao mesmo tempo em que se considera e valoriza o conhecimento que o aluno traz para a escola, deve-se buscar por meio da vivência, da discussão e da reflexão problematizadora, ampliar e ressignificar tal conhecimento. Para tanto, é necessário reconhecer as necessidades e os interesses dos alunos, tornando o ensino significativo. Isso demanda do professor estabelecer uma relação dialógica com todos os envolvidos no processo, incentivando a participação, valorizando e construindo os saberes. Articular a teoria com a prática, favorecer a construção do conhecimento interdisciplinar, ressiginificar o uso de espaço e materiais, adequar as atividades propostas ao nível de ensino, diversificar as maneiras de tratar os conteúdos são também aspectos imprescindíveis a serem contemplados.

Para contemplar esse e outros aspectos, ao trabalhar com qualquer um dos conteúdos aqui proposto, podemos nos apropriar de vários recursos didáticos, entre eles:

  • Ressignificação de tempos, espaços e materiais utilizados no ensino da Educação Física;
  • Ressignificação de regras;
  • Aulas expositivas;
  • Aulas dialogadas em circuitos;
  • Uso de imagens e sons (filmes, vídeos, fotografias, desenhos, pinturas, propagandas, músicas, charges, murais, cordéis, documentários);
  • Literatura escrita (reportagens de jornais, revistas, contos, crônicas);
  • Pesquisas (internet, bibliotecas, entrevistas documentos);
  • Debates, júri-simulado;
  • Seminários, palestras;
  • Visitas à comunidade;
  • Planejamento coletivo;
  • Oficina de brinquedos e brincadeiras;
  • Projetos interdisciplinares;
  • Feiras artísticas e culturais.

 

Ao estruturar um planejamento anual, além da relação e organização dos conteúdos, será necessário observar as finalidades educativas que desejamos promover, os objetivos gerais e específicos e as competências e habilidades a serem desenvolvidas pelos alunos, ao longo do processo educativo.

Nesse trabalho, incorporaremos algumas finalidades educativas, tais como:

  • O desenvolvimento de uma atitude de curiosidade, reflexão e crítica frente ao conhecimento e à interpretação da realidade;
  • A capacidade de utilizar, crítica e criativamente, as diversas formas de linguagem do mundo contemporâneo;
  • O exercício da cidadania para a transformação crítica, criativa e ética das realidades sociais, entre outras;


Ao abordarmos os objetivos gerais, teremos como proposta:

  • Permitir que os alunos se apropriem de sua corporeidade por meio de diferentes práticas corporais
  • Promover a apreensão crítica das manifestações corporais produzidas pela humanidade;
  • Assegurar o acesso as práticas corporais de movimentos a todos os alunos;
  • Contribuir com a promoção da saúde voltada para qualidade de vida dos alunos;
  • Contribuir com a formação ética, estética e política dos educandos;
  • Possibilitar a convivência com a diferença e a diversidade;
  • Educar para o empreendedorismo;
  • Educar para o lazer.

 
Os objetivos específicos estão voltados pra o que se quer alcançar no momento da prática corporal, ou seja, no momento da vivência da aula de Educação Física, por exemplo:

  • Proporcionar situações que possibilitem estabelecer relações afetivas e sociointerativas;
  • Favorecer atividades que possibilitem a experimentação da dimensão lúdica do movimento;
  • Possibilitar uma ampla e diversificada experimentação motora de forma a favorecer a apropriação de sua corporeidade;
  • Utilizar o esporte como meio eficaz para vivenciar o trabalho em equipe, a cooperação, inclusão e respeito.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

consegui

Consegui achar meu blog.

Educação Física

Continuação...

Um aspecto importante é o de dar à prática pedagógica o caráter de continuidade e ruptura. Ao mesmo tempo em que se considera e valoriza o conhecimento que o aluno traz para a escola, deve-se
buscar por meio da vivência, da discussão e da reflexão problematizadora, ampliar e ressignificar tal conhecimento. Para tanto, é necessario reconhecer as necessidades e os interesses dos alunos, tornando o ensino significativo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A Importância da Formação do Treinador de Futebol


Especial: A importância de um Currículo do Treinador de Futebol – parte final .

 

Ricardo Drubscky, Juliano Fernandes da Silva, Vinícius Eutrópio, Milton Leite e Carlos Rogério Thiengo também participam deste especial com suas idéias e propostas.

 

Equipe Universidade do Futebol

Depois da participação dos cinco primeiros entrevistados, falamos ainda com dois treinadores, um analista de desempenho de categorias de base, um professor acadêmico e um jornalista esportivo. Confira o que eles pensam e propõem a partir de cada uma das seguintes questões:

(1) Em sua opinião, qual é a importância do treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer suas funções no futebol?

(2) Você considera fundamental que o treinador para exercer bem suas funções tenha tido uma experiência anterior como jogador de futebol?

(3) Quais são as principais características ou qualidades necessárias a um bom treinador de futebol em seu ponto de vista?

(4) Quais as disciplinas que um treinador deveria dominar para ser mais eficaz no comando de uma equipe? Que matérias poderiam fazer parte de um currículo de formação para treinadores?

(5) Você acredita que os treinadores europeus ou que trabalham na comunidade européia são mais bem preparados que os treinadores brasileiros?

(6) Que sugestões você daria para melhorar a formação de nossos treinadores?


Ricardo Drubscky, Treinador e Coordenador do Curso de Formação de Treinadores da CBF-PUC-Minas


(1) As atribuições do treinador são em grande parte técnicas e muito específicas. Portanto, para desempenhar tais funções, o pretendente deve estar preparado. A atividade prática acrescenta competências ao conhecimento teórico absorvido em instruções sistematizadas. Teoria e prática se completam em qualquer área do conhecimento. No futebol brasileiro a formação dos treinadores é quase totalmente prática por falta de uma escola que os oriente. Assim como é feito com as outras classes profissionais, os treinadores necessitam das escolas para obterem a base da capacitação profissional. Para entender e trabalhar o jogo e tudo o que está à sua volta é preciso dominar áreas do conhecimento científico esportivo já consagrado no âmbito acadêmico.


(2) Não. E tenho a obrigação de explicar bem esta resposta, pois sou técnico há muitos anos sem ser ter sido jogador, apesar de ter querido ser. O fato de termos grandes treinadores espalhados pelo mundo, que nunca foram jogadores, já seria suficiente para dar razão à minha resposta. Mas a principal justificativa que costumo empregar, quando sou questionado, é que as competências exigidas para o exercício das duas profissões são muito distintas. Em qualquer área de atuação, para um profissional se dar bem tem de haver interesse, atributos pessoais, estudo, treinamento e tempo de atuação para que ele adquira e ou aprimore as competências próprias do ofício. Assim acontece com o cantor, o médico, o próprio jogador e, porque não dizer, com o treinador. O indivíduo que tem interesse pelo futebol tem perfil de líder e “educador”, é estudioso da matéria e está no meio praticando o ofício pelo tempo necessário ao desenvolvimento das competências, poderá vir a ser um ótimo treinador. Tendo sido jogador ou não. Existem muitos e bons exemplos espalhados pelo mundo. Acho a discussão desnecessária, mas reafirmo: a competência é a grande mestra nesta causa.

“No Brasil, especificamente, o que nos falta é a capacidade de avaliar tais competências, pois a maneira como julgamos o trabalho dos nossos treinadores é injusta e totalmente sem critérios técnicos. Quem contrata e demite os treinadores, na maioria das vezes, desconhece e ou negligencia o que representa competência nos atributos profissionais dos treinadores.”

(3) Alguma coisa já está sendo respondida nas questões anteriores. Mas, resumidamente, sem deixar de abranger a grande gama das necessidades, posso dizer que para ser treinador é preciso:
a) Conhecer o jogo e saber o que quer dele – competência técnica;
b) Ser um bom comunicador – quem se comunica bem exerce liderança;
c) Dominar a arte do treinamento – transformar suas idéias em prática de campo;
d) Aprimorar todas as habilidades que se encaixam as necessidades de um líder.


(4) Esta pergunta está respondida satisfatoriamente no item anterior. Além do mais este é um tema para ser discutido em colegiado. Não gostaria de ser um único responsável por essa atribuição.

(5) As grandes escolas européias de futebol preparam melhor seus treinadores. Mesmo assim, a pergunta é difícil de responder, pois no Brasil temos autodidatas de muito valor e que não perdem em qualidade para ótimos treinadores europeus. A diferença para o treinador brasileiro está principalmente na desorganização técnico-administrativa em que são formados os nossos profissionais. Já somos rejeitados no “velho mundo” pelo simples fato de sermos brasileiros e pela fama de má gestão que carrega o nosso futebol como um todo. Estão nos dando “chutes no traseiro” não por acaso!

Por não termos uma escola brasileira sistematizada e constituída, ficamos meio perdidos, cada treinador procurando o seu caminho por conta própria. Como resultado, estamos “inventando a roda” a todo o momento. Cada treinador possui suas verdades e acha que sabe mais que todos os outros. Não percebem que existe um saber universal para todas as profissões, e que a capacidade individual de apreender este conteúdo é o que fará diferenças perante os seus pares. No entanto, é preciso, primeiro, dominar este saber universal.


Ministro cursos para treinadores e ou candidatos à profissão há muitos anos. É comum perceber o desconhecimento dos alunos quanto à existência dos “princípios do jogo”, passo elementar para entender o jogo. O jogo de futebol possui algumas regras (não tem nada a ver com as 17 regras da FIFA), responsáveis pela sua dinâmica. Como atacar, como defender, como respeitar a essência do jogo, dentre muitos outros conceitos táticos, que determinam um modo eficiente e eficaz de se jogar. É como numa receita de bolo: não se mistura tudo sem ciência. Experimente fazer isso para ver se dá certo! Assim também acontece com o jogo.

Não se joga a bola pra frente, ansiosamente, como vem fazendo o jogo brasileiro, achando que esta é uma forma inteligente de atacar. Os princípios do jogo orientam a criação das táticas e conseqüentemente dos treinamentos. Numa escola de treinadores, a primeira coisa que vamos aprender é a “receita do jogo”, para a partir daí começar a entendê-lo e saber como construí-lo.



(6) A CBF, por determinação da FIFA, está a três anos desenvolvendo o “Sistema de Qualificação de Treinadores do Futebol Brasileiro”. Em parceria com a PUC - Minas, vem sendo realizado um curso de treinadores em quatro níveis – Escolinhas; Categorias de Base; Profissionais e Especialização. Outras Federações da América do Sul estão partindo para o mesmo caminho.


A meu ver, a existência deste curso é o primeiro passo à criação da verdadeira “escola brasileira de futebol”. A partir dela unifica-se conteúdo, metodologia e linguagem especializada para o futebol em todos os recantos nacionais. Costumo dizer aos alunos que esta é uma célula que não pode morrer, pois sem ela vamos ficar perambulando desorganizadamente com o nosso jogo, apesar das ótimas individualidades que temos.


Juliano Fernandes da Silva, professor da disciplina de metodologia do futebol na Universidade do Estado de Santa Catarina (CEFID-UDESC)


(1) Na minha opinião o curso de Educação Física e os cursos de treinadores oferecidos atualmente não conseguem fornecer uma gama de conhecimentos que é necessária para se formar um treinador. Desta forma, acredito que precisamos ter rapidamente a categorização dos treinadores por diferentes níveis. Não pode um recém formado ou um ex jogador virar treinador de uma hora para a outra. Tem que haver especialização para a função.

(2) Não é necessário que tenha sido jogador profissional, mas o fato de ter competido no processo formal do futebol (categorias de base) poderá ser muito útil, desde que acompanhado de uma boa formação. No Brasil os jogadores se lesionam muito, acredito que além da parte tática os treinadores tem que entender muito mais de fisiologia para dosar seus treinamentos.

(3) Dominar: Relação interpessoal; Conhecimento tático e técnico elevado; Bom conhecimento sobre a parte física e psicológica do grupo de atletas; Conhecimento da gestão do clube.
Ser: Sério (caráter), líder, autocrítico, trabalhador, ter um modelo de jogo definido para a equipe.


(4) Aspectos táticos, demanda de esforço do futebol, aspectos psicológicos, ensino e aperfeiçoamento da técnica, gestão de pessoas.

(5) Nunca tive contatos com treinadores europeus. Nos próximos meses viajarei e poderei ter uma opinião mais sólida. O que posso dizer é que a formação dos nossos treinadores é muito defasada.

(6) Ter o curso nacional de formação de treinadores, em que todos os postulantes ao cargo de treinador de futebol deveriam fazer. Criar o nivelamento dos profissionais, onde os iniciantes passariam por escalões inferiores antes de assumirem equipes profissionais.





Vinícius Eutrópio, treinador de futebol.



(1) Fundamental, pois, assim ele receberá informações pontuais que irão potencializá-lo, ajudando-o na sua essência e direcionar melhor suas capacidades.


(2) Não, mas, acredito que por ter sido um jogador de futebol, ele possa ter uma visão diferente de quem não vivenciou, porém, ele precisa agregar novos conhecimentos em outras áreas.



(3) Inicialmente ser um modelo a seus jogadores, com conhecimento técnico pratico, teórico pratico, com comando e respeito adquirido pelo seu dia-a-dia e não por imposição. Ter um domínio básico de todas as áreas que envolvem o futebol: planejamento, psicológico, fisiológico, preparação desportiva, nutrição, etc.

(4) Oratória e psicologia, didática de trabalhos, fisiologia, scout de jogo (adversário/equipe).

(5) Eles não são mais capacitados, mas, reafirmando sua pergunta, são mais preparados, pois, passaram estágios (etapas) e informações obrigatórias para capacitá-los.

(6) Níveis e procedimentos, estabelecer critérios e regras para os técnicos, além de um sindicato com liberdade e autonomia de atuação diretamente ligado à CBF Buscar sempre agregar informações e conhecimento através de cursos, estágios e outros. É basicamente isso.

Milton Leite, narrador do Sportv

(1) Acredito que para exercer qualquer profissão ou função, a pessoa deve ter uma formação específica. Que pode variar desde um curso de uma orientação de meia hora até um curso superior, pós-graduação, etc. No caso do técnico de futebol não é diferente. Não basta conhecer de futebol para ser treinador.

(2) Não. Acredito que a experiência como jogador seja boa, mas não a classifico como fundamental. Em minha opinião é possível ser bom treinador sem ter sido jogador profissional.

(3) Uma das características mais importantes, acredito, seja ser um bom gestor de pessoas. Você ter um grupo heterogêneo de 30, 40 pessoas sob o seu comando e ter que deixar todos satisfeitos, motivados, pensando mais no grupo do que em si mesmo não é nada fácil. Ter boa capacidade de formação de grupos, não só levando em consideração a parte técnica, mas também a psicológica, capacidade de contribuir com o grupo, liderança... Além de ter de ter os conhecimentos necessários de como organizar treinamentos, fazê-los fazer refletir nos jogos. Claro que conhecer futebol, conhecer o mercado de jogadores e estratégias de jogo também é essencial.



(4) Gestão de pessoas, psicologia, liderança.

5) Acredito que um dos grandes diferenciais é o fato de que estes profissionais recebem boa formação educacional desde cedo, quando crianças. Aqui no Brasil, em geral, a primeira coisa que alguém faz é abandonar a escola para ser jogador de futebol. Quando a carreira acaba e a pessoa resolve ser treinadora, o prejuízo já é muito grande – e a maioria demonstra pouco interesse em recuperar o tempo perdido.



6) Primeiramente, o Brasil deveria criar uma nova cultura, não transformando esses técnicos em super-homens. Boa parte da culpa dessa situação é da mídia, que costuma dar mais espaço para eles do que para quem joga.

Carlos Rogério Thiengo, analista de desempenho das categorias de base do São Paulo e mestre em Formação Profissional em Educação Física.

1) É de extrema importância o treinador possuir uma formação adequada para exercer suas funções no futebol. No entanto, esta formação deverá atender a complexidade que envolve o futebol. Pois, de acordo com o professor Manuel Sérgio, “Quem sabe muito só sobre futebol, pouco sabe sobre futebol”. Caso uma formação assuma um caráter estritamente especializado (centrado exclusivamente no futebol), esta se torna insuficiente para a intervenção na modalidade.

Deste modo advogo por um modelo de formação dos profissionais para a modalidade, que deverá possuir uma amplitude e profundidade suficiente, para possibilitar uma compreensão ampla do fenômeno, porém sem perder a sua especificidade.

2) Não. Pois os significados da palavra fundamental são: que serve de fundamento, essencial, principal. Deste modo não considero a experiência como futebolista aspecto essencial para intervenção na modalidade. Porém, o conhecimento adquirido durante a atuação como futebolista, quando submetido a um processo de reflexão adequado, é de muito valor para a intervenção como treinador, especialmente no que se refere ao conhecimento de como ocorre às relações entre as pessoas neste espaço.



3) Acredito que o conjunto de características que o treinador deve possuir para ser considerado um bom profissional é bem amplo e podem ser agrupadas em três grandes grupos: os saberes da esfera conceitual (saber sobre), da esfera procedimental (saber fazer) e da esfera atitudinal (saber ser). No primeiro grupo temos o saberes conceituais sobre os aspectos relacionados à atividade profissional, como por exemplo: as definições de modelo de jogo, princípios táticos, capacidades motoras, entre outras. Na esfera procedimental o treinador deve saber planejar, realizar e avaliar o processo de treinamento e as competições. Já, no grupo dos saberes atitudinais temos o conjunto de características relacionadas ao comportamento, entre eles se destacam a liderança e o controle emocional. Sob meu ponto de vista os três grupos de saberes acima são primordiais para a intervenção dos treinadores. Porém, são os saberes da esfera atitudinal que parecem diferenciar os treinadores considerados de excelência no cenário internacional.

Veja o vídeo em que Carlos Rogério Thiengo explica o tema do seu mestrado, que aborda questões sobre a formação profissional dos profissionais do futebol:




4) A meu ver este é o ponto que necessitamos da maior modificação na maneira de preparar os profissionais para a intervenção profissional no campo esportivo. Pois, com comentado anteriormente, o futebol requer que seus profissionais conseguiam “enxergá-lo” a partir das lentes da complexidade. A partir disso surge uma questão: Como podemos desejar que os treinadores realizem suas intervenções alicerçadas no paradigma da complexidade, quando sua formação é pautada no modelo disciplinar (o qual apresenta os conhecimentos fragmentados e descontextualizados)? Sendo assim, antes de discutirmos os conteúdos que deverão fazer da “grade curricular” para os cursos de formação de treinadores acredito ser relevante primeiramente discutir o modelo de tais cursos.

Neste sentido penso que poderíamos experimentar um modelo de abordagem baseada nos “problemas” da intervenção profissional, ou seja, a partir dos saberes procedimentais teríamos a construção dos demais saberes necessários à formação dos treinadores. Penso que esta abordagem possibilitaria com maior facilidade a constituição do saber reflexivo, fundamental para os profissionais que atuam em um contexto de competitivo em constante modificação.



Além disso, acredito ser de fundamental importância que os treinadores sejam submetidos concomitantemente ao curso de formação a um programa de acompanhamento psicoterápico para desenvolver principalmente a inteligência emocional em situações de grande pressão, que interfere imensamente nas decisões tomadas, principalmente no ambiente do futebol de alto rendimento.

5) Sim. Pois, primeiramente, o nível educacional europeu é maior que o do Brasil. Além disso, os treinadores dos países onde o futebol é organizado pela Uefa, os cursos de formação de treinadores está consolidado há muitos anos e com uma carga horária significativamente maior dos realizados no território brasileiro.


Carlos Rogério Thiengo leciona aula na Escola Brasileira de Formação de Treinadores




6) Primeiramente que as instituições responsáveis pela organização do futebol em âmbito nacional e estadual (confederação e federações) assumam o papel de oferecer a formação destinada aos interessados em atuar na modalidade em seus diferentes níveis, de forma articulada e contínua.


Além disso, temos a necessidade da aproximação dos diversos segmentos: universo acadêmico, os profissionais que realizam a intervenção profissional no futebol e as instituições organizadoras da modalidade, de forma a proporcionar o desenvolvimento de pesquisas voltadas aos aspectos relacionados à atuação dos profissionais na modalidade afim proporcionar a sustentação científica necessária aos cursos de formação profissional oferecidos pela confederação e federação.

FIM

 

A Importância da Formação do Treinador de Futebol


Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol –

parte IV.

 

Entenda o que os profissionais que atuam no Brasil pensam a respeito do tema e de que modo poderíamos desenvolver a formação.

Equipe Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol convidou alguns profissionais brasileiros ligados ao ambiente profissional para responder a algumas questões. A intenção era saber a avaliação deles a respeito da formação dos treinadores do país e como poderíamos melhorar o nível em nossos campos.

Entrevistamos Caio Zanardi, diretor técnico do Al Nasr Club; Eduardo Barros, auxiliar técnico do Grêmio Novorizontino e colunista da Universidade do Futebol; Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians; Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa; Paulo Calçade, jornalista dos canais ESPN e professor da EEFE-USP; Ricardo Drubscky, Coordenador do Curso de Formação de Treinadores da CBF-PUC-Minas, integrante da comissão técnica principal do Atlético-PR e colunista especial da Universidade do Futebol; Vinícius Eutrópio, treinador com passagens pelo futebol português; Juliano Fernandes da Silva, professor da disciplina de metodologia do futebol na Universidade do Estado de Santa Catarina (CEFID-UDESC), Carlos Rogério Thiengo, analista de desempenho das categorias de base do São Paulo e mestre em Formação profissional e campo de trabalho na Educação Física pela UNESP campus Rio claro e Milton Leite, narrador do Sportv.

A todos, fizemos as mesmas questões:

1) Em sua opinião, qual é a importância do treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer sua funções no futebol?

2) Você considera fundamental que o treinador para exercer bem suas funções tenha tido uma experiência anterior como jogador de futebol?

3) Quais são as principais características ou qualidades necessárias a um bom treinador de futebol em seu ponto de vista?

4) Quais as disciplinas que um treinador deveria dominar para ser mais eficaz no comando de uma equipe? Que matérias poderiam fazer parte de um currículo de formação para treinadores?

5) Você acredita que os treinadores europeus ou que trabalham na comunidade européia são mais bem preparados que os treinadores brasileiros?

6) Que sugestões você daria para melhorar a formação de nossos treinadores?

Confira, em duas partes, o que cada um deles respondeu:


Caio Zanardi, diretor técnico do Al Nasr Club

1) É importantíssimo o treinador se preparar para atuar na função. Não podemos admitir que o atleta encerre a carreira e comece a atuar como treinador.

2) Claro que a experiência como atleta vai lhe ajudar, mas não é necessário. O treinador precisar ter conhecimento em todas as áreas para poder entender e desenvolver seu trabalho.




3) Conhecimento da parte física, técnica, tática e psicológica e saber ligar os quatro pontos. Na Inglaterra, ele é chamado de “Four Corners”.

4) Como eu disse anteriormente, dentro dos quatro pontos, você precisa detalhar cada área.

5) Os treinadores europeus têm a formação específica como treinador. Existe uma formação, uma sequência, algo que no Brasil não há. Se tivéssemos um curso de formação de treinadores reconhecido pela Fifa, eu acredito que poderíamos crescer muito na formação.

6) Nível 1 (iniciante) – Escola de Futebol
Nível 2 (intermediário) - Categorias de base até o sub-17
Nível 3 (avançado) - Sub 20 e segunda divisão
Nível 4 (Pro) - Primeira divisão
Início a partir de 2017. Quem já atua como treinador, deverá fazer o nível 3 e 4, reconhecido pela Fifa.

Eduardo Barros, auxiliar técnico do Grêmio Novorizontino e colunista da Universidade do Futebol.

1) A importância se dá devido às particularidades da profissão e suas inúmeras competências e habilidades necessárias para uma boa atuação prática. Sendo assim, uma especialização na modalidade que contenha conteúdos de qualidade devidamente sistematizados permite a aquisição de conhecimentos que fundamentem a intervenção do treinador.

2) Não. A totalidade das competências de um treinador de futebol é distinta das competências de um jogador, portanto, para você ser um gestor de campo não é necessário ter como pré-requisito ser ex-atleta. É fundamental, porém, que o aspirante a treinador busque as competências e habilidades que geralmente os jogadores adquirem por terem vivenciado o meio, tais como: networking, conhecimento do ambiente, gestão de pessoas e conhecimento sobre o jogo.

3) Em minha opinião, um bom treinador deve ser um estudioso do jogo e do comportamento humano. Deve privilegiar sobremaneira o trabalho em equipe, além de ser um líder positivo, resiliente, íntegro e ético.



Veja aqui um vídeo retirado do programa “Juca Entrevista”, em que Manuel Sérgio, filósofo português e colunista especial da Universidade do Futebol fala sobre a importância de se compreender o comportamento humano para o sucesso esportivo:

 

4) Acredito que não basta dominar as disciplinas isoladamente e sim a interação entre elas, numa prática diária de crescimento e aperfeiçoamento pessoal e profissional. Inúmeras disciplinas e matérias devem fazer parte desta interação. Destaco: Gestão de Pessoas (liderança, técnicas de comunicação, comportamento humano, gestão do sucesso, gestão do fracasso, gestão de conflitos); Teoria da Complexidade (pensamento sistêmico, sistemas); Futebol (aspectos táticos, técnicos e físicos); Teoria dos Jogos (o que é Jogo, Lógica do Jogo, ambiente de jogo, estado de jogo); Psicologia; Pedagogia; Análise de Jogo. Penso que o estágio deve ser uma das matérias do currículo de formação de treinadores para agregar valor ao mesmo.

5) Desconheço como se dá a formação do treinador na Europa, porém, pelo nível de jogo apresentado pelas grandes equipes do futebol deste continente, acredito que sim. Ao analisarmos e compararmos a manifestação dos grandes princípios de jogo das equipes europeias com as nacionais fica evidente nossa inferioridade e distanciamento. Creio que este distanciamento é construído no dia-a-dia do treinamento em que os treinadores europeus estão melhores preparados que os brasileiros para intervirem.

6) Acredito que modificações efetivas na formação do treinador dependem, inicialmente, de iniciativas mais evidentes do nível hierárquico mais alto do nosso futebol, ou seja, da CBF. Penso que cabe a entidade, ou a algum outro órgão com sua chancela, ser mais rigorosa com os pré-requisitos para o exercício da função de treinador e sistematizar um curso de capacitação que realmente atenda às exigências do futebol moderno. Como ambiente de aprendizagem, a prática do conceito de Universidade Corporativa nos clubes de futebol pode contribuir na frequente reciclagem dos treinadores.

Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians

1) Ao se apropriar de conhecimentos adequados, o treinador pode potencializar o desenvolvimento dos atletas. Todo atleta vai ficar mais forte, mais rápido, mais experiente. O treinador deve potencializar o processo e, no caso das equipes que possuem uma filosofia de formação, direcioná-lo (o atleta) para tal.

2) Fundamental não, porém também acredito que essa experiência pode contribuir muito para o trabalho do treinador desde que ele seja capaz de entendê-las e adequá-las a essa nova carreira. Olhar para o fenômeno como treinador é diferente de olhá-lo como jogador, e aí qualquer experiência prévia (principalmente como atleta profissional) pode contribuir desde que o novo treinador seja inteligente o suficiente para perceber isso. Só a carreira como atleta não é suficiente, senão também devo pensar que um pedreiro com 20 anos de carreira está preparado para ser engenheiro.

3) O entendimento do futebol como um fenômeno complexo. Conseguir dominar uma grande gama de conhecimentos que interferem na performance e as relações entre eles. A boa gestão de pessoas é um fator fundamental também.

4) Todas que interfiram na performance. As teorias da complexidade apontam bons caminhos para a aquisição desses conhecimentos. Quanto ao currículo, depende de questões culturais. Primeiro temos que definir qual o treinador que queremos construir dentro dessa formação.


5) Em uma grande parte das situações sim. Mas voltamos a questão cultural. Qual o valor atribuído ao desenvolvimento humano em nossa sociedade (brasileira)? Pode um treinador que não se preocupa com o próprio desenvolvimento pessoal contribuir com o crescimento pessoal / profissional de potenciais atletas profissionais ? Precisamos refletir sobre isso.

6) Pediria que respondessem com sinceridade a seguinte questão: “Pode um treinador que não está comprometido com o crescimento pessoal / profissional contínuo cobrar dos seus atletas uma atitude positiva de compromisso com o trabalho de desenvolvimento deles?”.

Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa

1) Para mim, receber uma formação especializada em treinamento no futebol é de extrema importância, pois existem muitos treinadores, no Brasil, que ainda atuam somente nos saberes da experiência prática. Na minha opinião, a vivência é muito importante para atuar neste cargo, pois não tem como estar habilitado para trabalhar em um alto nível sem que haja um certo tempo de experiência. No entanto, os treinadores que já possuem experiência devem entender que se eles realizarem cursos e estudarem em uma formação específica da sua área, eles podem melhorar ainda mais as suas idéias e as suas metodologias de trabalho, que muito provavelmente irão ajudá-lo em seu crescimento como profissional. Vamos fazer um paralelo com a realidade fora dos "muros" que cercam o mundo do esporte.
Atualmente, não há mais condições de se conseguir um bom emprego sem um suporte teórico prévio. Da mesma maneira que a experiência da vivencia também é exigida, tanto que antes da formação acadêmica completa são exigidos os estágios, para haver um ganho, mesmo que seja mínimo, de vivência. Se o atual mercado de trabalho fora do futebol exige isso, por que no futebol não podemos exigir?


2) Eu não acho que seja fundamental para o treinador ter sido um atleta para conseguir exercer bem as suas funções. Acho que isso serve para somar com seu aprendizado durante a sua parte da vivência, mas não algo que seja imprescindível. Eu acredito que o treinador deve ter tido pelo menos uma mínima experiência com o futebol, vivência por dentro do mundo futebolístico. Pois dificilmente uma pessoa que nunca participou de nada no futebol, que não tem a mínima ideia do que é ser um profissional do futebol, irá conseguir exercer a função de treinador, pois este cargo exige alguma experiência em quesitos como comando de grupo, tomar decisões importantes, dentre outras.

Hoje temos exemplos de treinadores que não foram atletas, como Mourinho e Villas-Boas. Eu mesmo não fui atleta. Por isso digo, que talvez eu enfrente algumas dificuldades, mas não é por isso que eu não consigo exercer a minha função de maneira qualificada.

3) Na minha opinião, o treinador deve ter uma boa noção em treinamento no futebol, que é básico. Mas, o mais importante é possuir uma boa gestão de pessoas para o rendimento, assim como possuir noções de psicologia para enfrentar os problemas que surgem no dia a dia do cargo.

4) Eu acredito que os treinadores deveriam ter noções de: Análise de jogo; Teoria do treinamento esportivo; Gestão de pessoas; Psicologia esportiva; Teorias sobre treinamentos técnicos e táticos no futebol.

5) Sim, sem dúvida. Pois lá na Europa há mais condições de se atualizar e estudar, pois em livrarias comuns é possível encontrar dezenas de livros que dizem a respeito de ciência do futebol. A literatura esportiva é muito mais completa lá na Europa do que aqui. Sem contar que com isso, o interesse dos treinadores em estudar e se reciclar é maior do que aqui.

6) Eu sou a favor de ser criado um curso de formação para treinadores aqui no Brasil, assim como é feito em alguns países da Europa.Este curso poderia ser dividido em etapas, onde se iniciaria em um nível 1 para trabalhar com crianças até chegar em um nível 10, que lhe capacitaria para trabalhar com adultos, por exemplo.

Estes cursos devem ser curtos porém intensos, para que seja possível que os treinadores consigam conciliar suas tarefas com o período de cursos.

Paulo Calçade, jornalista dos canais ESPN e professor da EEFE-USP

1) Devido o volume de informações disponíveis, com poder de interferir no resultado de uma partida, hoje é preciso mais do que a experiência do campo. Conhecer mais sobre os fatores que afetam o rendimento é fundamental, é estratégico e decisivo na preparação de um grupo nem sempre homogêneo. É importante também estar preparado para se relacionar com todas o conhecimento à disposição nas principais comissões técnicas. E quando não houver estrutura, como proceder. Sem conhecimento, não funciona.

2) É muito importante, mas o futebol tem mostrado nas últimas décadas que esse não é um fator limitador. É mais importante um treinador ter uma formação especializada do que ter jogado. O melhor dos mundo é somar as duas partes.



3) Conhecimento técnico e saber trabalhar em equipe, reconhecer a importância de todas as partes na formação do todo. A partir disso, desenvolver o seu sistema de trabalho, seu repertório de treinamentos e estar aberto para aprender sempre. Conversando com os treinadores, percebo o interesse de alguns quando o assunto é mais técnico e traz um conhecimento quem eles não dominam, como também é possível identificar o tipo que não sabe e não se interesse por achar balela qualquer conversa mais apurada.

4) Bases científicas do treinamento: preparação física, técnica, tática e psicológica. Seria importante entender também que nem sempre as respostas estão nas disciplinas mais técnicas, o futebol precisa de um sentido, uma identidade, fazer parte de uma história, que pode ser a de uma instituição ou a de um país. O ponto de partida pode ser filosófico.

5) As diferenças são enormes, aparentemente os europeus são e serão sempre melhores. O problema é que os nossos treinadores cresceram difundindo suas dificuldades. Geralmente elas são citadas como um fator limitador do conhecimento. É uma desculpa para não tentar avançar, dar um salto de qualidade. A grande diferença é que por aqui qualquer tipo de especialização, seja nas universidades ou nos cursos de futebol, não torna um treinador melhor que outro para os olhos do mercado. Já na Europa, com cada vez mais gente participando dos cursos das federações, sobretudo para a obtenção de licenças, quem não as possui pode ser preterido. Eles estão na frente em função disso.

6) Primeiro seria importante entender o processo formativo do futebol, da base ao profissional, e definir quem pode participar de cada etapa. Seria uma revolução, uma pancadaria generalizada. Pelo menos na base, o cuidado deveria ser maior, pois no profissional quem não tem conteúdo dificilmente consegue se estabelecer. Ou vai ficar no esquema mambembe.

A quarta parte deste especial termina aqui! Finalizaremos na quinta parte com opiniões de outros especialistas e estudiosos do esporte. Não perca!

 

A Importância da Formação do Treinador de Futebol


Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol –

 parte III

 

O que já existe consolidado no Brasil? Entenda a legislação específica, o projeto da CBF e um paralelo com as principais peculiaridades das federações da Europa.

 

Equipe Universidade do Futebol

A regulamentação da profissão de treinador de futebol no Brasil vem sendo debatida há muitos anos. Nesta disputa estão, de um lado, as entidades que representam os profissionais de Educação Física, em especial CONFEF (Conselho Federal de Educação Física) e CREF's (Conselhos Regionais de Educação Física) e do outro, instituições sindicais representativas dos treinadores que não são certificados pelas Escolas de Educação Física, geralmente liderados por ex-atletas que pleiteiam ou já exercem a função de treinadores em clubes ou outras instituições futebolísticas.

Nesta queda de braços, nenhuma das duas esferas leva vantagem. Em muitos campeonatos, as instituições que representam os profissionais formados em Educação Física conseguem aplicar a fiscalização, interferindo até no regulamento da competição que exige o CREF por parte do treinador.

Já em outros, como é o caso do Campeonato Paulista, regido pela Federação Paulista de Futebol, por exemplo, exige-se o CREF apenas do preparador físico, sendo que o treinador pode apresentar-se para o jogo apenas dotado do RG.

Sendo assim, percebe-se que esta disputa ainda está longe de encontrar um vencedor, apesar dos argumentos pontuais. Recentemente, por exemplo, o SITREFESP (Sindicato dos Treinadores de Futebol do Estado de São Paulo) deu um “golpe” na instituição que representa os graduados em Educação Física, o CREF4/SP (Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região), como veremos nesta matéria.

A partir do Decreto-Lei 3.199 de 1.941, reconheceu-se a presença de um profissional qualificado para trabalhar como treinador o indivíduo formado pela Escola de Educação Física e Desporto da Universidade do Rio de Janeiro. Trinta e cinco anos mais tarde, a Lei 6.354 de 1.976 dizia em seu artigo 27: "Todo ex-atleta profissional de futebol que tenha exercido a profissão durante 3 (três) anos consecutivos ou 5 (cinco) anos alternados, será considerado, para efeito de trabalho, monitor de futebol" (Brasil, 1976).


Na disputa pela regulamentação da profissão de treinador de futebol no Brasil, ainda não se tem um vencedor.

Entretanto, a regulamentação da ocupação de treinador profissional de futebol onde se estabeleceram as mesmas legislações do trabalho e da previdência social, se oficializou pela Lei 8.650 de 1.993, que dizia no seu artigo 3:

O exercício da profissão de “Treinador Profissional de Futebol” ficará assegurado preferencialmente:

I - aos portadores de diploma expedido por Escolas de Educação Física ou entidades análogas, reconhecidas na forma da lei;

II - aos profissionais que, até a data do início da vigência desta Lei, hajam, comprovadamente, exercido cargos ou funções de treinador de futebol por prazo não inferior a seis meses, como empregado ou autônomo, em clubes ou associações filiadas às Ligas ou Federações, em todo o território nacional".

Atualmente, a Lei Nº 9.696, de 1º de setembro de 1.998, que regulamenta a profissão de Educação Física, diz no Art. 3º:

"Compete ao Profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto" (Brasil, 1.998).

Apesar da lei 9696/98, a própria CBF publicou um documento no qual declara (com base nas leis anteriores especialmente a 8650/93) que no entender da entidade o Conselho Federal de Educação Física não possui amparo legal para fiscalizar a atuação do treinador de futebol sendo, portanto dispensável ao mesmo a habilitação do CREF.

No entanto, a própria CBF, entidade que rege o futebol no Brasil, não desconsidera a importância da formação para a atuação como treinador de futebol. Com base nisso, a entidade promove um projeto educacional que pretende, com o apoio de FIFA e Uefa, tornar-se o curso oficial que permita o exercício da profissão de treinador de futebol no Brasil. A situação, porém, ainda permanece indefinida.

Um dos casos que exemplifica bem a disputa entre CREFs e Sindicatos foi o ocorrido com o ex-jogador Fernandão ao assumir o comando do Internacional. Houve uma manifestação e uma tentativa do CREF de impedi-lo de trabalhar, o que acabou não acontecendo.




O curso de treinadores da CBF

Como vimos na parte II deste especial, a Uefa e suas respectivas federações possuem cursos de formação bem organizados com conteúdos e formatações bem definidos, além de diversas outras ações que objetivam a formação dos treinadores europeus. E no Brasil, qual é a proposta da CBF?

A entidade máxima do futebol brasileiro, em parceria com a faculdade PUC-Minas, criou um curso com os moldes europeus, dividido em quatro níveis e, com uma carga horária de 720 horas, procura fazer uma progressão similar à dos países do velho continente.

Na primeira etapa, voltada à iniciação (120h), uma noção básica aos treinadores é conferida.

Os pré-requisitos para o nível 2 (160h) são ter ensino médio completo, o nível 1 feito ou uma experiência comprovada de três temporadas à frente de uma equipe de base. Ou, ainda, ter jogado futebol profissional por pelo menos cinco anos.

O nível 3 (180h), ligado ao futebol profissional, fornece conhecimentos ao interessado para atuar em equipes de todos os níveis competitivos.

Por fim, o nível 4 (260h), voltado à excelência na modalidade, pode ser feito por aqueles qualificados na etapa anterior e ainda treinadores com comprovada experiência de cinco temporadas nas séries A e B do Campeonato Brasileiro.



Contudo, apesar da iniciativa e da tentativa de organização da formação dos treinadores brasileiros, a mesma ainda possui um alcance limitado devido a diversos fatores, como:

1) Leis: Como vimos, as leis são confusas e em muitos campeonatos não se exige a formação para atuar, o que faz com que poucas pessoas procurem o curso da CBF ou até mesmo cursos de Educação Física;

2) Falta de capacidade para atender a interessados: Mesmo quando o interesse é maior, a CBF ainda limita o número de alunos – por volta de 35 por turma – o que impossibilita formar mais treinadores com qualidade;

3) Falta de parceria com federações estaduais: A falta de parceria com as federações estaduais faz com não haja uma ação conjunta e pulverizada por todo o Brasil, o que incorre no item listado acima;

4) Falta de parceria com universidades e faculdades de Educação Física: a distância entre a CBF e as Federações com as faculdades de Educação Física faz com que as instituições não se beneficiem dos pontos fortes das outras, como por exemplo pulverizar um conteúdo de qualidade de futebol nos mais diferentes setores permitindo a troca de informações.

5) Distância geográfica: As dimensões do território brasileiro e os itens relacionados reafirmam a pouca capacidade de formação do curso atual da CBF. Para se ter uma noção dessa distância, um treinador que reside no Ceará e deseja realizar o curso oferecido pela CBF terá que ir à Granja Comary no Rio de Janeiro, ou seja, será obrigado a viajar 2.296 Km, mais do que a distância, por exemplo, entre Lisboa, capital de Portugal, e Paris, capital francesa que é de 1.742 Km.



6) Falta de cultura de formação: Além de todos os problemas citados, talvez o maior deles seja outro: a falta de cultura e de entendimento dos profissionais do futebol sobre a necessidade de formação. Esse fator faz com que não exista uma política consistente que coloque a formação do treinador como prioridade no trabalho das confederações e federações e dos treinadores que estão atuando ou desejam atuar no futebol.



Será que estes diversos limitadores contribuem para que não tenhamos treinadores nas grandes equipes do mundo e continuamente estejamos perdendo a hegemonia do futebol mundial? No entender da
Universidade do Futebol, sim. Devido a isto tentamos diariamente divulgar um grande número de notícias, artigos, entrevistas, cursos e outros materiais, de modo a oferecer aos profissionais do futebol a possibilidade de se capacitarem melhor.

Porém, como já relatamos, muitos profissionais no Brasil compactuam com esta ideia, por exemplo, a declaração de Carlos Alberto Parreira à Universidade do Futebol.

Mas, quais as possibilidades e caminhos para o Brasil? Entrevistamos alguns estudiosos e treinadores de futebol, e apresentamos as reflexões propostas por elas nas duas partes finais deste material especial. Não perca!

 

A Importância sa Formação do Treinador de Futebol


Especial: a Importância da Formação do Treinador de Futebol – parte II

 

Uefa acredita que treinadores bem preparados irão contribuir para a formação de melhores futebolistas, com benefícios evidentes para o desenvolvimento da modalidade

Equipe Universidade do Futebol

Como vimos na primeira parte deste especial, o cargo de treinador de futebol exige, nos dias atuais, capacidades e qualidades muito diferentes de décadas atrás, em alguns países (principalmente do continente europeu) isto já parece ser consenso.

Na Europa, os bons resultados esportivos, como os que a Espanha vem alcançando nos últimos anos, têm uma conexão direta com uma formação de qualidade para os treinadores, a fim de que estes possam realizar bons trabalhos independentemente dos níveis em que atuam.

Na parte II do especial sobre a formação de treinadores de futebol, iremos abordar as diretrizes da Uefa para a formação de treinadores e algumas peculiaridades de importantes federações filiadas a ela.

Para o dirigente Espanhol Ginés Melendez, a entidade máxima do futebol europeu é parte fundamental no processo de avanço do futebol daquela região, pois o programa de formação de treinadores, a convenção de treinadores e outras iniciativas desenvolvidas pelo órgão ajudaram a elevar os padrões de qualidade da modalidade em todo o continente. Meléndez parece ter razão.

A formação destes gestores técnicos encontra-se no topo da lista de prioridades técnicas da entidade presidida por Michel Platini e também das federações nacionais de toda a Europa.

O ponto de vista global é simples e direto: treinadores bem preparados irão contribuir para a formação de melhores futebolistas, com benefícios evidentes para o desenvolvimento da modalidade.

Porém, o processo de implementação desse novo paradigma é trabalhoso e exige um esforço constante, tanto da Uefa, como das federações afiliadas, que não apenas mudaram as leis regulamentadoras da profissão de treinador de futebol, mas têm a obrigação de fiscalizar tal mudança de cultura no país. Para se ter uma noção deste processo basta olhar para o tempo de intervalo entre a primeira reunião para discutir a necessidade de formação dos treinadores e o reconhecimento mútuo de habilitações de treinadores da Uefa.



Contudo, hoje a conscientização dos profissionais do futebol em relação à necessidade de formação já é uma realidade no continente europeu, como relata Patrick Bonie, em entrevista ao site da entidade:

"Ao longo da última década, reestruturamos a nossa área de formação de treinadores, estabelecendo uma nova filosofia e criando um ambiente de aprendizagem adequado. No passado, os ex-jogadores encaravam com algum receio os cursos de treinadores. Mas o esquema de licenciamento da Uefa constituiu um enorme ímpeto e creio que os antigos jogadores perceberam que, sem um curso de treinadores, ficam um pouco aquém a nível de organização, planejamento, gestão de jogadores e aspectos básicos como estruturação e controle dos programas de treino. Apesar de ter tido a felicidade de realizar o meu curso de treinador enquanto ainda jogava, na Escócia, percebi depressa que não se tratavam de áreas fáceis de dominar”.



Nessa esteira, a Uefa criou dois elementos significativos: o modelo de formação de treinadores, com o intuito de direcionar as formações oferecidas pelas federações filiadas à Uefa, e o Painel Jira (nome em homenagem ao ex-treinador Tcheco Václav Jira, falecido em 1995), comissão que visa discutir questões específicas à formação do treinador e do futebol europeu. Esse grupo trabalha de forma constante e em conjunto com outros setores em ações que visam melhorar diversos aspectos da formação, além de promoverem diversos encontros, simpósios e publicações como a revista The Technician, direcionada aos treinadores, além de muitas outras ações.

Como o próprio nome diz, as diretrizes de formação da Uefa têm o intuito de direcionar o trabalho das 53 federações filiadas; além disso, a uniformidade criada possibilita que os treinadores possam trabalhar em outros países do continente com o título que obtêm em um curso de uma federação específica.

Ao longo do especial, apresentaremos algumas características peculiares ao que é estabelecido em algumas das principais escolas européias.

A estrutura organizada pela Uefa possui três níveis: Uefa B Licence, Uefa A Licence e Uefa Pro Licence, de acordo com a organização apresentada abaixo. Porém, o Painel Jira trabalha constantemente para inserir outras formações a estes níveis, como, por exemplo, formação para treinadores de goleiros.


As federações, entretanto, costumam dentro dessa organização dividir a formação delas em níveis (três ou quatro geralmente); peguemos aqui o exemplo dos órgãos espanhol e alemão:

A representação do atual futebol campeão europeu e mundial divide-se em três níveis: 1) Treinador de futebol de base; 2) Treinador de futebol regional; 3) Treinador de futebol nacional. Cada um destes apresenta basicamente quatro blocos de ensino:


Essa organização permite não apenas que os treinadores passem por mais de 1.800 horas de conteúdo teórico-prático, como também vivenciem diferentes contextos que vão desde categorias de base até o alto rendimento. Além disso, esse tipo de organização favorece que o aspirante a treinador trace um “plano de carreira”, o que o fará dedicar-se à profissão de treinador de futebol. Cada nível pode custa um valor entre 1.000,00 e 1.200,00 euros ao candidato.

Vejamos por exemplo, a opinião de Lars Lagerbäck, antigo treinador da Suécia que atualmente ocupa o cargo na seleção da Islândia sobre a importância de se formar bons treinadores por intermédio de programas qualificados e organizados:


“Não importa se você está treinando na Espanha, na Suécia, ou se está à frente de uma equipe de categoria de base ou de um clube de pequena dimensão. Com a minha experiência, posso dizer que um treinador com formação de qualidade pode provocar grandes diferenças para a obtenção de resultados, na transformação de jovens jogadores ou em futebolistas de excelência”, afirma Lars.

Já a Alemanha, possui em sua organização também uma pirâmide, na qual a base do conteúdo é ofertada pela internet, de modo online, facilitando o acesso de treinadores independentemente do local em que estes trabalham.

Além disso, a federação alemã tem parceria com as federações regionais, que aplicam os cursos e fiscalizam a atuação dos treinadores em território nacional, facilitando, assim, a divulgação dos conhecimentos e o controle da atuação do treinador.

Veja abaixo uma adaptação feita pela Universidade do Futebol da estrutura de qualificação germânica:


Percebe-se uma estrutura semelhante entre a federação espanhola e a alemã, na qual os conteúdos sofrem uma progressão de acordo com o nível de competitividade a que o treinador estará habilitado para enfrentar.

Na seqüência, elencamos alguns exemplos e depoimentos de como a Uefa e o Painel Jira se esforçam para desenvolver a formação de treinadores em todo o território europeu.


Painel Jira e o desenvolvimento da formação de treinadores

Como referido desde o início do especial, em linhas gerais, a Uefa compreende que, para se formar jogadores extraordinários e possibilitar que estes demonstrem ao máximo o seu talento, necessitam-se de treinadores igualmente extraordinários, mas, para a Uefa, treinadores com tais capacidades não surgem ao acaso: “São, acima de tudo, produto de um sistema educacional de alta qualidade”, crê o organismo europeu.

Nesse sentido, durante as reuniões do Painel Jira, alguns convidados juntam-se a estes especialistas com o objetivo de assegurar que sejam mantidos os mais altos padrões na tentativa de formar treinadores de top.

O painel apóia os trabalhos do Comitê de Desenvolvimento e Assistência Técnica da Uefa e, mais especificamente, oferece suporte às suas 53 federações filiadas, aos clubes e a outras partes interessadas na formação de treinadores. Contribui também para a aplicação e implementação da Convenção de Reconhecimento Mútuo das Qualificações de Treinadores, com o objetivo de proteger a profissão de treinador de futebol e facilitar a livre circulação destes profissionais dentro da Europa.



O diretor técnico da Federação Tcheca de Futebol (CMFS), Dušan Fitzel, que integra o Painel Jira, relata ao site da Uefa a experiência: “Fazer parte de um grupo de treinadores, diretores técnicos e formadores de tamanha qualidade é uma excelente oportunidade para adquirir mais conhecimentos, partilhar experiências e ouvir opiniões de diferentes países e federações”, afirmou. “Estou certo de que a nossa federação irá beneficiar bastante com esta experiência, tal como eu me beneficiarei, em nível pessoal”.

Peter Rudbaek, diretor técnico da Federação Dinamarquesa de Futebol (DBU), vê a troca de informações entre as federações como fundamental para o desenvolvimento do futebol. Segundo ele, é necessário estabelecer padrões elevados comuns e agir de acordo com eles. “Estes padrões comuns constituem uma excelente oportunidade de inspiração e parceria entre países”, admitiu.

Com as 53 federações nacionais da Europa integrando a Convenção de Treinadores da Uefa, cada instituição de formação de treinadores mostra-se empenhada em atualizar permanentemente os seus cursos e utilizar as mais modernas tecnologias nos processos de aprendizagem.

Acima de tudo, as exigências da Uefa estimulam os atuais níveis de qualidade, encorajando os países a irem ao encontro dos padrões internacionais dada a obrigação dos treinadores (que queiram trabalhar em território estrangeiro) possuírem licenças válidas.

Nico Romeijn, diretor da formação de treinadores da Federação Holandesa de Futebol (KNVB), uma das escolas mais tradicionais deste esporte, acredita que o ambiente futebolístico evoluiu nos últimos dez anos, e os treinadores precisam estar equipados para dominarem três grandes áreas: 1) Análise dos jogos, 2) Realização de treinos proveitosos e 3) Gestão da equipe e dos seus elementos individuais.


Neste constante esforço de melhora, já se discute há alguns anos as estruturas e metodologias relacionadas com cursos que levam à licença A-jovem, também ofertada pela Uefa. De acordo com Romeijn, as estruturas holandesas permitem aos alunos combinar o trabalho prático nos clubes com reuniões residenciais e tarefas específicas: “As tarefas são baseadas no tipo de problemas que é provável virem a encontrar como treinadores, também encorajamos os estudantes a refletirem sobre os seus desempenhos e a traçarem o caminho que querem seguir”, explicou.

Por fim, é interessante observarmos a análise de Antonin Plachy, diretor da formação de treinadores da Federação Tcheca de Futebol (CMFS), sobre o contexto educacional atualmente em vigor naquele país:

“É preciso combinar uma atmosfera relaxada entre os alunos com as exigências ao mais alto nível. É importante criar um ambiente no qual os candidatos a treinadores possam atingir todo o seu potencial, sentindo-se inspirados para resolverem os problemas da sua própria maneira, ao mesmo tempo em que se concentram no desenvolvimento de jogadores criativos e talentosos”.

Agora, e o cenário brasileiro? O país pentacampeão mundial e que não ocupa mais o topo do ranking de seleções da FIFA vem desenvolvendo qual tipo de trabalho? Nossos treinadores e gestores de campo estão sendo formados em qual sistema? Será que existe uma organização que vá de acordo com uma lógica complexa, e considere as novas tendências do treinamento esportivo aplicado ao futebol e as diversas capacidades necessárias para exercer essa função?

É o que iremos debater na próxima parte deste especial.

Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol


Especial: A Importância da Formação do Treinador de Futebol

 

Espanha faz sucesso no mundo e condiciona títulos e formação de jogadores ao longo processo de qualificação dos gestores técnicos de campo.

 

Equipe Universidade do Futebol

A Espanha fez história na edição de 2012 da Eurocopa. Na realidade, assinou com letras douradas mais um capítulo no processo que a consolida como a maior força do futebol mundial. Dois anos antes, na África do Sul, a equipe comandada por Vicente Del Bosque vencera de maneira inédita a Copa do Mundo, título que já sucedera o triunfo da equipe comandada por Luis Aragonés no principal torneio entre seleções do Velho Continente, em 2008.


Se traçarmos um paralelo, esta geração pode ser comparada ao Brasil durante a “Era Pelé”, podendo até ser considerada superior, pois, entre as vitórias nos Mundiais de 1958 e 1962, o melhor resultado da equipe canarinho foi um segundo lugar no sul-americano, em 1959.

No mesmo momento em que a supremacia da Fúria é destacada, o Brasil cai para o 13º lugar no ranking dos melhores do mundo, em atualização feita em novembro de 2012.

Mas o que tem de especial a equipe que mescla jogadores consagrados como Casillas, Albiol, Iniesta, Xavi, Fernando Torres, Fàbregas, Xabi Alonso, Sérgio Ramos, etc. (todos campeões europeus quatro anos atrás), e novatos como Jordi Alba, Juan Mata, Javi Martinez, Pedro Rodrigues, etc., com média de idade inferior a 24 anos? Será uma sorte de campeão? Um presente do destino que reuniu estas pérolas em uma mesma geração? Para o Técnico espanhol Vicente Del Bosque, os resultados não são mera coincidência e o caminho é muito mais trabalhoso do que se pensa.

“O nosso sucesso não é uma coincidência e tem origem em muitas coisas: na estrutura do futebol, nas academias e na formação dos treinadores. Os clubes [espanhóis] estão empenhados na formação de jovens. Antes viajávamos para França, Rússia e Alemanha para procurar talentos nas suas academias”, referiu o selecionador espanhol ao site da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF).



Na mesma linha, Ginés Melendez, diretor-técnico da RFEF (Real Federação Espanhola de Futebol), crê que o segredo do sucesso do futebol espanhol tem um ponto crucial que não começou no campo, mas sim nas salas de aula:


Para se ter a noção da dimensão que envolve a formação espanhola é só observarmos os dados: na temporada 2010/2011, a RFEF emitiu mais de 53 mil licenças para treinadores futebol e futsal que realizaram os cursos dos quatro níveis propostos pela federação espanhola.

Isso permite supor que, na Espanha, cada escolinha de futebol e futsal, equipe de iniciação ou alto rendimento possui um profissional formado sob a chancela da federação espanhola.

É importante salientar que aqui tomamos a Espanha apenas como um recente exemplo de sucesso, porém este trabalho de formação vem sendo realizado em todo continente europeu como mostraremos durante o especial.

Os dados apresentados chamam a atenção para uma nova realidade no cenário futebolístico mundial, no qual, devido à profissionalização do esporte, ao aumento e desenvolvimento das demandas atreladas ao jogo e ao contexto que o envolve, o cargo de treinador exige capacidades e qualidades não contempladas apenas pelo contato significativo com a modalidade como ex-jogador.

Para isto existe hoje a necessidade fundamental dos profissionais que objetivam trabalhar no futebol buscarem uma formação de qualidade. E é necessário dedicar-se com o intuito de melhorar sempre as metodologias de treino, a capacidade de liderança e muitas outras capacidades que fazem diferença no caminho para o sucesso.

Como comenta Tostão, ex-jogador e colunista esportivo: "É essencial uma formação acadêmica para ex-jogadores e outros profissionais. Para ser um bom técnico de futebol, o ideal é unir a experiência do passado a uma formação técnica e teórica", atesta Tostão, ex-jogador e colunista esportivo.

Patric Bonie, diretor técnico da Federação Irlandesa de Futebol, segue com a mesma ideia: "Começar por baixo, de preferência jovem, num clube onde ainda seja também jogador. E, depois, fazer um curso de treinador baseado na prática porque, embora a experiência enquanto jogador ajude, as técnicas de treino não se aprendem do ar. Tem de se realizar os cursos, de forma a estar preparado para o dia em que se assuma um importante cargo de treinador e para a inerente pressão".

José Mourinho, um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol afirma ainda, que não ter sido jogador de futebol profissional o ajudou em seu trabalho como treinador, porém reitera a necessidade de vivenciar o ambiente desse esporte não contemplado em toda a magnitude nos livros:
José Mourinho e a necessidade da relação entre teoria e prática para a formação do treinador de futebol

A ideia que o treinador deve ter uma formação de qualidade também é compartilhada por alguns profissionais no Brasil, como é o caso do diretor das categorias de base do São Paulo Futebol Clube em depoimento para a Universidade do Futebol.


Com base neste polêmico e complexo assunto, a Equipe Universidade do Futebol preparou um especial com o tema: “A importância da formação de treinadores de futebol.”

Este especial tem o intuito de gerar reflexões a partir de algumas questões norteadoras como: qual é o atual estágio da formação desses profissionais em alguns dos principais países continente europeu? Qual a importância do processo? E no Brasil, em que estágio estamos? Qual é a opinião de treinadores e estudiosos do futebol a respeito do assunto?

Essas são algumas das perguntas que buscaremos responder neste especial.